O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para apurar a existência de uma estratégia coordenada de ataques digitais contra o Banco Central do Brasil e seus dirigentes**, no contexto das investigações que envolvem o Banco Master. A decisão, tomada nesta terça-feira (28/01/2026), atende a pedido formal da PF e amplia o escopo das apurações já em curso no Supremo.
Segundo a Polícia Federal, foram identificados cerca de 40 perfis em redes sociais que teriam participado de uma ofensiva digital sistemática, com narrativas padronizadas e publicações simultâneas, direcionadas a descredibilizar o Banco Central e investigadores envolvidos no caso Master. A suspeita central é de que esses influenciadores tenham sido contratados e remunerados para atuar de forma coordenada, extrapolando o campo da crítica legítima e ingressando em práticas potencialmente ilícitas.
Pedido da PF e autorização do STF
A solicitação de abertura do inquérito partiu da Polícia Federal após a identificação de indícios de financiamento organizado de campanhas digitais contra a autoridade monetária. O ministro Dias Toffoli, relator dos procedimentos relacionados ao Banco Master no STF, considerou que os elementos apresentados justificam investigação formal, especialmente diante da possível utilização de contratos, cláusulas de confidencialidade e intermediação por agências de marketing.
De acordo com a PF, o esquema investigado teria sido estruturado no chamado “Projeto DV”, referência às iniciais do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A investigação busca esclarecer se Vorcaro ou pessoas ligadas ao banco financiaram direta ou indiretamente a atuação desses influenciadores.
Contratos, cláusulas de sigilo e valores elevados
As apurações preliminares indicam que o recrutamento de influenciadores ocorreu em meados de dezembro de 2025, com envio de propostas que incluíam contratos de confidencialidade. Um dos documentos analisados prevê multa de até R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo, classificando como confidenciais as estratégias de comunicação, planos de ação e informações jurídicas e financeiras, além da identidade de participantes da campanha.
Mensagens encaminhadas a influenciadores apresentavam exemplos de conteúdos críticos à atuação do Banco Central no caso Master, incluindo vídeos e postagens direcionadas a servidores específicos da instituição. A Polícia Federal investiga quem elaborou essas narrativas, quem financiou as ações e como se deu a coordenação operacional da campanha.
Alvos da ofensiva digital e foco no Banco Central
A ofensiva identificada pela PF teria como um de seus principais alvos o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central, Renato Gomes, área responsável por recomendar o veto à compra do Banco Master pelo BRB e por subsidiar informações posteriormente encaminhadas ao Ministério Público Federal.
Além disso, a investigação também analisa ataques direcionados à atual gestão do Banco Central, incluindo o presidente da instituição, Gabriel Galípolo. O padrão observado, segundo investigadores, envolve críticas agressivas, insinuações sobre conflitos de interesse e questionamentos reiterados à credibilidade técnica da autoridade monetária.
Influenciadores procurados e recusas documentadas
Relatos colhidos pela imprensa e anexados às investigações indicam que parlamentares e influenciadores com grande alcance foram procurados para participar da campanha. Em ao menos dois casos, as propostas teriam sido recusadas, com registros de mensagens e gravações de tela que agora integram o conjunto probatório analisado pela PF.
A Polícia Federal também apura a atuação de agências de marketing e comunicação que teriam intermediado os contatos, bem como a existência de notas fiscais, contratos formais e fluxos financeiros associados às publicações.
Defesa de Vorcaro e posicionamentos
Em petição encaminhada ao Supremo Tribunal Federal, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o banqueiro “nega veementemente qualquer envolvimento ou conhecimento sobre práticas de difamação ou disseminação de fake news contra o Banco Central”. Segundo os advogados, não há comprovação de que o empresário tenha autorizado ou financiado ataques coordenados.
Empresas citadas indiretamente nas investigações também negaram participação em campanhas ilegais, ressaltando que suas atividades se limitam à intermediação publicitária dentro dos parâmetros legais e das normas do Conar.
Limites entre crítica e crime
A Polícia Federal destaca que o foco do inquérito não recai sobre a crítica política ou econômica, protegida constitucionalmente pela liberdade de expressão, mas sobre a opacidade do financiamento, a possível simulação de espontaneidade e a existência de uma estrutura organizada para atacar instituições de Estado e agentes públicos.
Caso se confirme o uso de recursos ilícitos, a prática de calúnia e difamação de forma orquestrada ou a atuação em associação criminosa, os responsáveis poderão responder criminalmente.
Comparações com outros inquéritos no STF
Internamente, investigadores da PF passaram a se referir ao esquema como um “gabinete do ódio”, em analogia a estruturas digitais já investigadas em outros inquéritos que tramitam no STF, inclusive aqueles relacionados a redes de desinformação associadas ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. A semelhança apontada está na profissionalização da desinformação e no uso coordenado de influenciadores para moldar narrativas públicas.











Deixe um comentário