Ministro Edson Fachin “perdeu credibilidade” para liderar código de ética no STF, afirma Eliana Calmon; ex-ministra diz que Judiciário “chegou ao fundo do poço”

A proposta de criação de um código de ética para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), apresentada sob a liderança de seu presidente, Edson Fachin, enfrenta críticas severas de Eliana Calmon, ex-ministra do Superior Tribunal de Justiça e ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça. Para a magistrada aposentada, a iniciativa é não apenas inoportuna, mas estruturalmente ineficaz diante da profunda crise de legitimidade que atinge o Judiciário brasileiro. Em termos diretos, Calmon sustenta que o STF “chegou ao fundo do poço” e que Fachin “perdeu credibilidade” para conduzir qualquer agenda ética no interior da Corte.

Em entrevista à BBC News Brasil, Calmon foi taxativa ao afirmar que não se constrói um código de ética em ambiente de descrédito institucional. Segundo ela, a magistratura atravessa um dos períodos mais críticos de sua história recente, marcado por rejeição social crescente, questionamentos recorrentes sobre imparcialidade e desgaste acumulado da autoridade moral do Judiciário. Nesse contexto, qualquer norma ética nasce fragilizada, incapaz de produzir efeitos reais sobre a confiança pública.

A crítica não se limita ao momento político. Para Calmon, o problema é mais profundo e reside na condução institucional do próprio Supremo. Embora declare respeito pessoal por Fachin, a ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça afirma que o presidente do STF comprometeu sua autoridade política ao legitimar decisões controversas de colegas ou ao silenciar diante delas. Ao fazê-lo, teria corroído o capital simbólico indispensável para liderar uma reforma ética crível e eficaz.

Pressões institucionais e reação corporativa

O debate ganhou força após críticas direcionadas aos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, no contexto do caso Banco Master. Em nota oficial, Fachin saiu em defesa do Tribunal e de seus integrantes, afirmando que o STF “não se curva a ameaças ou intimidações”. A reação, contudo, foi interpretada por críticos como mais um gesto corporativo, incapaz de enfrentar o mérito das acusações e das preocupações levantadas pela sociedade.

Entidades externas ao Judiciário também buscaram ocupar o espaço do debate. A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo encaminhou ao STF uma proposta de Código de Conduta, enquanto a Fundação Fernando Henrique Cardoso divulgou documento semelhante no final de 2025. Em entrevista ao Estadão, Fachin reconheceu resistências internas e ponderou que o ano eleitoral ampliaria a exposição institucional da Corte.

Para Eliana Calmon, essa leitura inverte a lógica do problema. Em sua avaliação, o contexto político não recomenda prudência formal, mas revela a inadequação da proposta, pois normas éticas não substituem mudanças concretas de comportamento, tampouco corrigem distorções estruturais consolidadas ao longo dos anos.

Opinião pública e erosão da confiança

Os dados de opinião pública reforçam esse diagnóstico. Pesquisa Genial/Quaest, divulgada em dezembro, aponta uma sociedade profundamente dividida em relação ao STF. A avaliação negativa alcançou 36%, tornando-se o maior grupo; a positiva ficou em 33%; e a regular recuou para 24%. O resultado evidencia que a confiança institucional não se recompõe por decreto, tampouco por iniciativas normativas dissociadas da prática cotidiana da Corte.

Conflitos de interesse e percepção de parcialidade

O caso Banco Master reacendeu um debate antigo e sensível: a atuação de parentes de ministros como advogados em causas que tramitam no STF. Reportagens indicam que ao menos oito ministros têm familiares com processos na Corte. Embora a prática seja formalmente legal, seu impacto sobre a percepção de isenção é devastador.

O Código de Processo Civil prevê hipóteses claras de impedimento e suspeição envolvendo parentes até o terceiro grau. Ainda assim, em 2023, o próprio STF declarou inconstitucional uma regra que vedaria a atuação de magistrados em processos envolvendo clientes de escritórios com vínculos familiares. Para Calmon, esse tipo de decisão alimenta a erosão da credibilidade e estimula práticas informais de contorno regulatório, o chamado “jeitinho”, por meio da fragmentação estratégica de escritórios e relações pessoais.

Excesso de poder e fragilidade dos freios institucionais

Outro eixo central da crítica diz respeito ao desenho institucional do Supremo. Na avaliação da ex-ministra, o STF deixou de operar como uma corte constitucional stricto sensu e passou a acumular funções excessivas, atuando simultaneamente como instância recursal ampla e foro privilegiado de autoridades. Essa concentração de poder ampliou a exposição política do Tribunal e fragilizou sua legitimidade perante a sociedade.

A participação de ministros em eventos patrocinados por empresas com interesses diretos no STF agrava esse quadro. Ainda que legal, tal prática viola um princípio elementar da ética judicial: o juiz não apenas deve ser imparcial, mas também parecer imparcial. Quando essa aparência se perde, a confiança pública se dissolve.

Código de ética como paliativo institucional

A controvérsia em torno do código de ética revela um dilema recorrente do Estado brasileiro: normas procedimentais são capazes de recompor legitimidade quando práticas materiais permanecem intocadas? A leitura de Eliana Calmon é inequívoca. O déficit não é regulatório, mas institucional. Envolve concentração excessiva de poder, ausência de autocontenção, conflitos de interesse tolerados e desconexão crescente entre discurso público e prática decisória.

Um código aprovado sob pressão política, liderado por quem é percebido como parte do problema, corre o risco de aprofundar a percepção de cosmética institucional. Sem revisão efetiva de governança, transparência, limites de competência e mecanismos reais de accountability, a norma tende a produzir mais retórica do que mudança.

A conclusão é dura, mas coerente com a história institucional recente: confiança não se decreta. Ela se constrói a partir de decisões previsíveis, imparciais e coerentes, submetidas a controles efetivos. Quando isso não ocorre, códigos de ética deixam de ser instrumentos de correção e passam a funcionar como álibis formais de um sistema em crise.

*Com informações da BBC Brasil.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner da Prefeitura de Santo Estêvão: Campanha Encerramento do Projeto Verão 2026.
Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading