A intensificação de ações militares, ameaças abertas de anexação territorial e o uso sistemático da coerção econômica pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aceleraram a ruptura da ordem internacional baseada em regras construída no pós-Segunda Guerra Mundial. A deposição do governo venezuelano, o foco explícito no controle de reservas de petróleo, a insistência na incorporação da Groenlândia — inclusive pela força — e novas advertências ao Irã revelam uma estratégia fundada no exercício do poder bruto, que desorganiza alianças tradicionais, choca aliados e adversários e sinaliza a emergência de uma nova ordem mundial. Trata-se de uma conjuntura marcada pelo pragmatismo econômico, pela centralidade dos recursos estratégicos e pela reconfiguração do capitalismo global, em um cenário de deslocamento produtivo acelerado em favor da China.
A crise estrutural da ordem liberal internacional
Durante aproximadamente oito décadas, o sistema internacional foi estruturado sob a primazia dos Estados Unidos, sustentado por pilares como livre comércio, direito internacional, instituições multilaterais e redes de alianças relativamente estáveis. Ainda que permeado por contradições — intervenções seletivas, assimetrias de poder e exceções à legalidade —, esse arranjo conferiu previsibilidade às relações entre grandes potências e funcionou como mecanismo de contenção de conflitos diretos.
O ciclo inaugurado em 2026 evidencia o esgotamento funcional desse modelo. A prática reiterada de intervenções unilaterais, a relativização da soberania alheia e a subordinação aberta das normas internacionais à vontade política do centro hegemônico indicam que a ordem liberal deixou de operar como estrutura reguladora e passou a ser tratada como obstáculo tático. O multilateralismo, antes instrumento de coordenação, converte-se em variável descartável quando contraria objetivos imediatos.
Essa ruptura se insere em uma transição hegemônica clássica. A capacidade norte-americana de sustentar simultaneamente liderança econômica, legitimidade política e supremacia militar apresenta sinais claros de desgaste, sobretudo diante da recomposição do eixo produtivo global e da perda relativa de competitividade industrial.
O retorno explícito das esferas de influência
A política externa recente de Washington resgata, sem disfarces, a noção de esferas de influência, segundo a qual grandes potências reivindicam áreas geográficas prioritárias para a projeção de seu poder. No Hemisfério Ocidental, essa lógica assume contornos diretos: intervenções, sanções, ameaças e coerção econômica voltadas à reafirmação de uma hegemonia regional sustentada pela força.
A Groenlândia emerge como caso paradigmático. O território deixa de ser tratado como sujeito de autodeterminação e passa a ser enquadrado como ativo estratégico, valioso por sua posição no Ártico, por rotas marítimas emergentes e por reservas minerais críticas. O debate sobre sua anexação revela a substituição da diplomacia por uma racionalidade empresarial-militar, na qual territórios são avaliados como instrumentos de poder e segurança.
Ao normalizar a alteração do status quo pela força, cria-se um precedente sistêmico que tende a ser reproduzido por outras potências em suas respectivas áreas de interesse estratégico.
Capitalismo global e coerção: um rearranjo hierárquico
A conjuntura atual não representa o colapso do capitalismo liberal, mas sua reorganização hierárquica. A ascensão chinesa não elimina as assimetrias do sistema; ela as redistribui. Novos centros de acumulação se consolidam, enquanto antigos centros recorrem crescentemente a instrumentos coercitivos para preservar posições estratégicas.
Sob uma leitura marxista contemporânea, trata-se de uma fase de competição intercapitalista intensificada, na qual os Estados atuam como gestores diretos dos interesses de seus respectivos blocos econômicos. O Estado não se retrai; ao contrário, assume centralidade na disputa por recursos, tecnologia, cadeias produtivas e rotas logísticas.
Nesse contexto, a retórica do “mundo governado pela força” não constitui desvio discursivo, mas síntese ideológica de uma prática material já em curso.
Fundamentos marxistas da nova ordem em formação
A partir de uma base teórica marxista, a denominada Nova Ordem Mundial não se explica por escolhas individuais ou desvios morais, mas como expressão das contradições internas do capitalismo global. Karl Marx identificou que o capitalismo, ao exigir expansão contínua, ultrapassa fronteiras nacionais em busca de novos mercados, matérias-primas e oportunidades de valorização do capital. Vladimir Lenin, ao analisar o imperialismo, descreveu essa etapa como marcada pela concentração monopolista, pela centralidade do capital financeiro e pela disputa entre grandes potências por áreas de influência.
Sob a ótica de Thomas Piketty, o atual estágio do capitalismo global é caracterizado por uma tendência persistente à concentração patrimonial, na qual o retorno do capital supera sistematicamente o crescimento econômico. Essa dinâmica produz desigualdades crescentes dentro dos países centrais e amplia tensões sociais e políticas. No plano internacional, a consequência é direta: Estados com base produtiva enfraquecida e sociedades internamente fragmentadas recorrem cada vez mais à coerção externa como forma de compensar a perda de legitimidade interna e de competitividade estrutural.
A política externa agressiva dos Estados Unidos, nesse sentido, não pode ser dissociada da crise distributiva doméstica. O imperialismo contemporâneo opera, também, como mecanismo de transferência indireta de renda, ao garantir acesso privilegiado a recursos estratégicos, mercados e rotas logísticas que sustentam a rentabilidade do capital concentrado, mesmo em um ambiente de baixo crescimento.
Outro aporte decisivo vem de David Harvey, que descreve o capitalismo atual como um sistema que combina acumulação por espoliação e financeirização permanente. Privatizações forçadas, controle de recursos naturais, sanções econômicas e intervenções militares funcionam como instrumentos para reabrir ciclos de acumulação em um sistema que enfrenta limites estruturais à expansão produtiva. A Groenlândia, a Venezuela e o Oriente Médio devem ser compreendidos, sob essa chave, como fronteiras contemporâneas da espoliação, onde território, energia e minerais críticos substituem os antigos mercados coloniais.
Essa lógica ajuda a explicar por que a diplomacia dá lugar à intimidação direta. Quando a acumulação via mercado se torna insuficiente, o capital recorre ao poder político-militar do Estado para garantir retornos extraordinários, mesmo ao custo da instabilidade sistêmica.
Já a contribuição de Giovanni Arrighi ilumina o momento histórico como uma fase clássica de declínio hegemônico. Arrighi demonstrou que potências em declínio tendem a se apoiar crescentemente no poder financeiro e militar, enquanto novas potências emergentes concentram a expansão produtiva. O paralelo histórico entre a transição britânica no início do século XX e a transição norte-americana atual é evidente: aumento da financeirização, militarização da política externa e incapacidade de manter a liderança econômica real.
Nesse quadro, a China ocupa o papel de novo polo produtivo sistêmico, enquanto os Estados Unidos operam como hegemonia militar-financeira, sustentando sua posição não pela superioridade industrial, mas pela capacidade de impor custos aos demais atores do sistema.
A leitura de Samir Amin complementa esse diagnóstico ao destacar a persistência da hierarquia centro–periferia. Para Amin, o capitalismo global nunca operou como sistema de convergência, mas como estrutura de polarização. A atual ofensiva imperial não busca integrar periferias ao desenvolvimento, mas subordiná-las funcionalmente como fornecedoras de recursos, energia e mão de obra barata, bloqueando projetos nacionais autônomos.
A deposição do governo venezuelano, sob essa perspectiva, não é apenas disputa geopolítica, mas ato disciplinador dirigido ao Sul Global: uma mensagem de que tentativas de soberania energética ou modelos de desenvolvimento não alinhados serão enfrentadas com coerção direta.
Essas abordagens convergem para um ponto central: a chamada nova ordem mundial não representa um mundo “pós-capitalista”, tampouco um simples retorno ao imperialismo clássico, mas um capitalismo de exceção, no qual normas, tratados e instituições são suspensos sempre que entram em conflito com a preservação da rentabilidade do grande capital e da posição relativa das potências centrais.
O uso crescente do poder bruto, portanto, não é aberração nem escolha pessoal isolada de lideranças políticas. Trata-se de uma resposta estrutural a um sistema econômico que enfrenta limites históricos à expansão, deslocamento do eixo produtivo e crise de legitimidade social. A força passa a substituir a hegemonia, e a coerção ocupa o espaço antes preenchido pelo consenso.
Nesse cenário, a instabilidade não é transitória. Como alertam os marxistas contemporâneos, períodos de transição hegemônica tendem a ser longos, conflituosos e marcados por rearranjos violentos. A tentativa de organizar o sistema internacional a partir da lei do mais forte não resolve as contradições do capitalismo global — apenas as aprofunda, deslocando seus custos para a periferia e elevando o risco de conflitos regionais com potencial sistêmico.
Sob essa lente, o comportamento recente dos Estados Unidos pode ser compreendido como reação típica de uma potência cujo domínio econômico relativo declina. O recurso crescente à força militar e à coerção direta indica dificuldades em sustentar a liderança por meios predominantemente econômicos e institucionais.
A chave conceitual de István Mészáros: crise estrutural do sistema do capital
A incorporação da teoria de István Mészáros permite elevar o diagnóstico a um nível mais profundo, ao deslocar a análise do imperialismo como política externa para a compreensão do capital como sistema metabólico de controle social. Nessa chave, a conjuntura atual não é apenas uma crise de hegemonia ou uma transição geopolítica, mas a manifestação de uma crise estrutural do sistema do capital, nos termos rigorosos formulados por Mészáros.
Para Mészáros, o capitalismo ingressou, desde o final do século XX, em uma crise estrutural irreversível, distinta das crises cíclicas clássicas. Trata-se de uma crise que atinge simultaneamente produção, reprodução social, legitimidade política, controle ambiental e capacidade de integração institucional. O sistema do capital, ao expandir-se para além de seus limites históricos, passa a operar de forma destrutiva, incapaz de resolver suas próprias contradições sem recorrer a mecanismos de força, exclusão e destruição.
Sob essa perspectiva, o recurso crescente ao poder bruto, às intervenções militares e à coerção econômica não é escolha conjuntural, mas necessidade sistêmica. O capital, enquanto sistema, já não consegue assegurar sua reprodução ampliada por meios consensuais, institucionais ou produtivos. A força passa a ocupar o lugar da mediação econômica, e a exceção converte-se em regra.
Mészáros é particularmente incisivo ao afirmar que, na crise estrutural, o Estado deixa de atuar como mediador relativamente autônomo e se converte em correia de transmissão direta das exigências do capital global. A política externa agressiva dos Estados Unidos, nesse sentido, expressa não apenas interesses nacionais, mas a função histórica de um Estado que atua como garantidor coercitivo da ordem metabólica do capital, mesmo quando essa ordem entra em choque com o direito internacional, a soberania dos povos e a estabilidade sistêmica.
A Groenlândia, a Venezuela e outras regiões estratégicas devem ser lidas, à luz de Mészáros, como espaços de contenção da crise, nos quais o capital busca assegurar condições mínimas de reprodução — energia, minerais críticos, rotas logísticas — diante do colapso de suas formas tradicionais de expansão. Não se trata de expansão progressiva, mas de gestão destrutiva da escassez, característica central do capitalismo em sua fase terminal.
Outro ponto decisivo da teoria meszariana é a noção de que o capital, ao entrar em crise estrutural, perde a capacidade de externalizar suas contradições sem provocar instabilidade sistêmica generalizada. No passado, crises podiam ser deslocadas geograficamente ou socialmente; na fase atual, elas retornam ao centro sob a forma de fragmentação social, polarização política e autoritarismo crescente. O imperialismo contemporâneo, portanto, não estabiliza o sistema — apenas adia e aprofunda sua decomposição.
Nesse sentido, a substituição da ordem baseada em regras por uma ordem baseada na força confirma a tese de Mészáros de que o capital, ao esgotar suas mediações históricas — democracia liberal, welfare state, multilateralismo —, passa a operar em modo abertamente antissocial. A lei do mais forte não é regressão pré-moderna, mas expressão avançada de um sistema que já não pode se autorregular.
A teoria de Mészáros também permite compreender por que a multipolaridade emergente não implica, automaticamente, maior equilíbrio ou justiça internacional. Se a transição hegemônica ocorre dentro do mesmo sistema metabólico do capital, a redistribuição do poder tende a reproduzir, sob novas formas, as mesmas lógicas de dominação, espoliação e hierarquia. A ascensão chinesa, ainda que altere o eixo produtivo global, não elimina o caráter destrutivo do sistema enquanto totalidade.
A partir desse enquadramento, a denominada nova ordem mundial aparece não como projeto coerente, mas como gestão caótica da crise estrutural do capital. O poder bruto torna-se central porque o sistema já não dispõe de mecanismos históricos capazes de produzir consenso, crescimento sustentável ou integração social. A coerção substitui a hegemonia porque a hegemonia se tornou materialmente inviável.
China e o deslocamento do eixo produtivo global
Paralelamente à ofensiva norte-americana baseada na força, consolida-se a ascensão da China como potência industrial central do capitalismo contemporâneo. Sua estratégia combina planejamento estatal, expansão industrial, domínio de cadeias produtivas e crescente protagonismo tecnológico — em contraste com o modelo liberal-financeiro predominante no Ocidente.
Esse deslocamento fragiliza a base material da hegemonia norte-americana. Tarifas, guerras comerciais e retórica protecionista refletem menos força do que reação defensiva diante da perda relativa de competitividade industrial. O resultado é um sistema cada vez mais multipolar no plano econômico, ainda que profundamente assimétrico no campo militar.
Venezuela e a centralidade dos recursos naturais
A derrubada do governo da Venezuela constitui marco simbólico e material dessa nova fase. O foco declarado nas vastas reservas de petróleo evidencia que, na ordem em gestação, energia e matérias-primas estratégicas reassumem papel central na política internacional.
Mais do que episódio isolado, o caso venezuelano sinaliza uma lógica estrutural: Estados detentores de recursos críticos, mas desprovidos de capacidade militar ou alianças robustas, tornam-se alvos preferenciais em um sistema menos normativo e mais coercitivo. O episódio também amplia, entre aliados tradicionais de Washington, a percepção de que compromissos históricos podem ser relativizados diante de interesses econômicos imediatos.
Impactos para aliados, países médios e o Sul Global
A normalização do poder bruto induz respostas defensivas. Países europeus ampliam investimentos em autonomia militar; aliados asiáticos discutem estratégias de dissuasão mais independentes; governos do Sul Global buscam diversificar parcerias para reduzir vulnerabilidades.
Para países médios, como o Brasil, o cenário combina riscos e oportunidades. A erosão das normas internacionais reduz proteções institucionais, mas a multipolaridade amplia margens de manobra diplomática — desde que acompanhadas de estratégia consistente, capacidade estatal e política industrial ativa.
Da ordem baseada em regras à ordem baseada na força
O elemento mais disruptivo da conjuntura atual é a tentativa de substituir normas multilaterais por decisões unilaterais legitimadas exclusivamente pela capacidade de coerção. Historicamente, transições dessa natureza estiveram associadas a períodos prolongados de instabilidade e a conflitos sistêmicos.
Sob a ótica marxista, a ofensiva do poder bruto não rompe com o capitalismo; aprofunda suas contradições. À medida que o crescimento global desacelera e as margens de acumulação se estreitam, a competição por recursos, mercados e influência tende a se intensificar. O risco central reside na naturalização da lei do mais forte como princípio organizador do sistema internacional, abrindo caminho para escaladas regionais e para a fragmentação definitiva do multilateralismo.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.
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