A escalada da crise no Irã entrou em uma fase de alto risco nesta quarta-feira (14/01/2026), com o governo iraniano alertando países vizinhos de que atacará bases dos EUA caso Washington execute uma ofensiva contra Teerã, enquanto os Estados Unidos iniciaram a retirada preventiva de parte do pessoal de bases militares no Oriente Médio, incluindo a base aérea de Al Udeid, no Catar. O movimento ocorre após ameaças públicas do presidente Donald Trump de adotar “medidas muito fortes” e de apoiar os manifestantes, num contexto em que organizações de direitos humanos apontam milhares de mortos, dezenas de milhares de prisões e bloqueio prolongado da internet, ao mesmo tempo em que surgem relatos de tentativas de travessia de grupos curdos armados pela fronteira do Iraque e de fluxo de iranianos para a Turquia. A crise também reverbera em Israel, onde analistas avaliam que o desfecho no Irã pode influenciar o cenário político de Benjamin Netanyahu em ano eleitoral.
EUA reduzem pessoal em bases no Oriente Médio e Catar confirma medida em Al Udeid
Um funcionário americano, sob condição de anonimato, afirmou que os Estados Unidos estão retirando parte do pessoal de bases consideradas estratégicas no Oriente Médio como medida de precaução diante do aumento da tensão regional. A decisão sinaliza um ajuste de postura operacional para reduzir vulnerabilidades em instalações expostas a retaliações.
O Catar, por sua vez, confirmou que a redução de efetivo na base de Al Udeid — descrita como a maior base dos EUA na região — está sendo realizada em resposta às tensões atuais. Diplomas e autoridades regionais acompanham sinais logísticos, com referência a precedentes recentes de evacuações e movimentações emergenciais.
Três diplomatas disseram que alguns funcionários receberam ordens para deixar a base, embora, naquele momento, não houvesse sinais imediatos de uma retirada em grande escala com imagens públicas semelhantes às registradas antes de ataques anteriores. Ainda assim, a medida foi tratada como indicativo de que Washington considera plausível uma deterioração rápida do quadro.
Irã ameaça retaliação e avisa vizinhos: bases americanas podem virar alvo
Um alto funcionário iraniano, também sob anonimato, relatou que Teerã pediu a aliados regionais dos EUA que impeçam um ataque americano ao Irã. Segundo o relato, o aviso foi direto: bases dos EUA em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Turquia seriam atacadas se Washington realizar uma ofensiva.
O mesmo interlocutor informou que o contato direto entre o chanceler iraniano Abbas Araqchi e o enviado especial dos EUA Steve Witkoff foi suspenso, o que reduz canais imediatos de descompressão e aumenta a probabilidade de decisões baseadas em avaliações de inteligência e demonstrações de força.
Do ponto de vista militar, a distribuição de forças americanas na região torna o cenário especialmente sensível: além de Al Udeid, são citados pontos como o quartel-general avançado do Comando Central e o quartel-general da Quinta Frota no Bahrein. A mensagem iraniana sugere que, em caso de confronto, a retaliação poderia priorizar alvos regionais, ampliando o risco de escalada em cadeia.
Trump eleva retórica: ameaça “medidas muito duras”, incentiva protestos e menciona “ajuda a caminho”
O presidente Donald Trump intensificou declarações públicas sobre a crise, prometendo “medidas muito fortes” se o Irã executar manifestantes. Em entrevista citada no material, ele também incentivou que os iranianos continuem protestando e “tomem as instituições”, além de afirmar que “a ajuda está a caminho”, linguagem que, na prática, é lida por Teerã como incentivo externo e possível preparação para ações.
No mesmo contexto, Trump indicou que buscaria “números precisos” sobre o total de mortos e sinalizou que a resposta dependeria da escala confirmada. Mensagens em redes e declarações públicas foram interpretadas por fontes europeias e israelenses como um indicativo de que a Casa Branca considera opções de ação, inclusive militar.
O governo iraniano respondeu acusando os EUA de tentarem “fabricar um pretexto para intervenção militar”, enquanto reforça, internamente, a tese de que os distúrbios teriam sido fomentados por forças externas. A disputa de narrativas, somada ao colapso informacional provocado pelo bloqueio da internet, amplia o espaço para interpretações conflitantes sobre extensão da violência e dinâmica dos confrontos.
Protestos: da crise econômica à contestação política e à repressão com milhares de mortos
Os distúrbios descritos como os mais violentos desde 1979 começaram, segundo o conteúdo, há cerca de duas semanas, como manifestações contra a deterioração econômica, o colapso da moeda e o aumento do custo de vida. Em seguida, evoluíram rapidamente para uma agenda de mudança política, tornando-se um desafio relevante ao regime clerical.
As estimativas de mortos variam: um funcionário iraniano afirmou que mais de 2.000 pessoas morreram; um grupo de direitos humanos elevou o total para mais de 2.600; e a HRANA relatou ter verificado 2.403 manifestantes mortos e 147 indivíduos ligados ao governo. A diferença numérica reflete tanto a disputa de versões quanto as dificuldades de verificação em campo.
O material também menciona prisões em larga escala (a HRANA reporta 18.137 detenções, e outra contagem citada aponta 18.434) e alegações de julgamentos acelerados associados a punições exemplares. A cobertura inclui a referência ao caso de Erfan Soltani, 26 anos, preso e com execução prevista para a quarta-feira, sem confirmação pública independente do cumprimento da sentença naquele momento.
Bloqueio de internet, controle territorial e demonstrações pró-governo
O fluxo de informações vindo do interior do Irã foi descrito como prejudicado por um bloqueio de internet que ultrapassou vários dias, o que limita o trabalho de imprensa internacional e torna mais difícil confirmar a escala de mortes e feridos. O bloqueio é apontado como componente central da estratégia de controle do regime.
Relatos indicam que o aparato de segurança mantém o comando e que o governo não aparenta estar à beira do colapso, segundo avaliação de um funcionário ocidental. Essa leitura sugere capacidade de sustentação institucional, ainda que sob desgaste acentuado.
Em paralelo, autoridades iranianas buscaram projetar imagens de apoio popular, com a televisão estatal exibindo cortejos fúnebres e manifestações com bandeiras e fotos do líder supremo Aiatolá Ali Khamenei, além de cartazes contra os distúrbios. O presidente Masoud Pezeshkian afirmou que, com apoio popular, “os esforços dos inimigos serão em vão”, reforçando o discurso de resiliência do Estado.
Diplomacia regional: contatos com Catar, Emirados e Turquia e apelos por “calma”
Mesmo com a suspensão do contato direto com o enviado americano, houve movimentação diplomática regional. A mídia estatal iraniana informou que Ali Larijani, chefe do principal órgão de segurança do Irã, conversou com o ministro das Relações Exteriores do Catar, enquanto Araqchi falou com seus homólogos dos Emirados Árabes Unidos e da Turquia.
Segundo os relatos, Araqchi afirmou ao chanceler emiradense, Sheikh Abdullah bin Zayed, que “a calma prevaleceu”. A mensagem, ainda que contraditória com a escalada simultânea, pode ser interpretada como tentativa de reduzir incentivos à intervenção externa e de evitar alinhamento regional a ações militares.
Do lado turco, o ministro Hakan Fidan teria enfatizado a necessidade de negociações para resolver tensões, em conversa telefônica com Araqchi. A Turquia, ao mesmo tempo, advertiu que qualquer intervenção estrangeira no Irã poderia agravar crises regionais, postura consistente com o temor de instabilidade fronteiriça e efeitos sobre segurança interna.
Tentativas de travessia de grupos curdos armados e confrontos com a Guarda Revolucionária
Um segundo vetor de pressão citado é a tentativa de grupos separatistas curdos armados de cruzar a fronteira do Iraque para o Irã, segundo três fontes familiarizadas com o assunto. A inteligência turca teria alertado a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) sobre movimentações recentes.
De acordo com a autoridade iraniana citada, a IRGC entrou em confronto com combatentes que buscariam criar instabilidade e aproveitar os protestos. O Irã afirmou ter pedido à Turquia e ao Iraque ajuda para interromper transferências de combatentes e armas.
A menção a esse episódio reforça o argumento do governo iraniano de que haveria ação de “entidades estrangeiras” ou “terroristas armados” por trás de parte da violência, ao mesmo tempo em que introduz risco adicional de alastramento regional por meio de tensões étnicas e fronteiriças.
Fuga pela fronteira: iranianos cruzam para a Turquia e cresce alerta consular
Em Kapikoy, na fronteira turco-iraniana, foram relatadas dezenas de travessias de iranianos rumo à Turquia, em cenário de repressão persistente. Famílias e indivíduos chegaram carregando bagagens e recusaram falar à imprensa, citando receio de represálias quando retornassem.
Diplomatas mencionaram aumento de travessias depois que países aconselharam seus cidadãos a deixar o Irã. Um oficial de segurança turco na fronteira afirmou que a situação ainda não era “extraordinária”, mas que os acontecimentos estavam sob monitoramento, indicando atenção do Estado turco a possíveis mudanças de fluxo.
Os Estados Unidos instruíram cidadãos a deixarem o Irã imediatamente e a considerarem saída por terra para Turquia ou Armênia. Esse tipo de orientação consular costuma ocorrer quando governos avaliam risco elevado e dificuldade de assistência rápida em caso de deterioração do quadro.
Israel e Netanyahu: crise no Irã cruza com eleições, segurança e pressões internas
Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta um ano eleitoral e, segundo analistas, a crise iraniana pode ser determinante para seu legado. Pesquisas citadas apontam que ele perderia uma eleição prevista para outubro, e o desfecho no Irã é visto como variável relevante para reconstruir credenciais de segurança abaladas.
O material destaca que Netanyahu espera uma mudança de regime no Irã e que a instabilidade em Teerã pode favorecer seu posicionamento. Ao mesmo tempo, ele lida com disputas internas na coalizão sobre uma lei de recrutamento militar e com pressões orçamentárias que podem levar a eleições antecipadas, caso o orçamento não seja aprovado até o fim de março.
No plano judicial, Netanyahu segue em julgamento por acusações de corrupção, que ele nega, e buscou indulto presidencial — movimento descrito como potencialmente inédito e politicamente explosivo. Paralelamente, há investigações envolvendo vazamentos de informações de segurança e supostos negócios com o Catar durante a guerra, compondo um quadro interno de desgaste que se cruza com o tabuleiro externo.
Sanções, economia iraniana e memória recente de guerra regional
O texto também contextualiza a vulnerabilidade iraniana por eventos do ano anterior, incluindo uma campanha de bombardeio israelense de 12 dias em junho, com participação dos EUA, além de reveses de aliados regionais no Líbano e na Síria. Soma-se a isso a restauração de sanções da ONU contra o programa nuclear iraniano, agravando a crise econômica.
No plano interno, o colapso econômico aparece como gatilho: desvalorização do rial, inflação elevada e aumento do custo de vida, ambiente que ampliou a disposição de protesto em escala nacional. O governo, por sua vez, sustenta que tolera protestos “pacíficos”, mas descreve a violência recente como ação de “terroristas do estrangeiro”.
A combinação de pressão econômica, isolamento externo e confronto de narrativas cria um contexto em que decisões de curto prazo — como execuções, repressão intensificada ou ações militares — podem produzir efeitos de longo alcance no equilíbrio regional.
Brasil: nota do Itamaraty, soberania iraniana e risco indireto ao comércio
O governo brasileiro divulgou nota oficial afirmando acompanhar com preocupação os acontecimentos, lamentando mortes e defendendo que cabe “apenas aos iranianos” decidir o futuro do país, com apelo a diálogo pacífico, substantivo e construtivo. Também informou não haver, até então, registro de brasileiros entre mortos e feridos e que a embaixada em Teerã atende a comunidade brasileira.
A nota menciona ainda o ambiente de pressão externa, com acusações iranianas de que EUA e Israel fomentam protestos e com ameaças de retaliação contra bases americanas. Nesse contexto, a política tarifária anunciada por Trump — 25% sobre países que façam negócios com o Irã — é tratada como potencial fator de impacto indireto para parceiros comerciais.
Segundo os dados citados, o Brasil manteve comércio de quase US$ 3 bilhões com o Irã em 2025, embora o país persa represente 0,84% das exportações brasileiras. O agronegócio é apontado como setor sensível, com o governo brasileiro aguardando a publicação de ordem executiva americana para se posicionar.
A espiral entre repressão interna, dissuasão externa e risco de erro de cálculo
A crise descreve um padrão clássico de escalada: instabilidade doméstica combinada a dissuasão externa e retórica maximalista de ambos os lados. O Irã, ao ameaçar atacar bases americanas em países vizinhos, sinaliza que pretende elevar o custo regional de uma intervenção. Os EUA, ao retirar pessoal, indicam que consideram esse risco real e buscam reduzir vulnerabilidades operacionais.
O elemento mais delicado é a deterioração dos canais de comunicação. A suspensão de contatos diretos entre figuras-chave e o bloqueio de internet no Irã limitam mecanismos de verificação e diminuem espaço para mediação rápida. Nesse ambiente, versões concorrentes sobre mortes, execuções e ataques podem acelerar decisões políticas baseadas em sinais incompletos ou interpretações táticas.
Por fim, a crise não ocorre em vácuo: Israel tem incentivos estratégicos claros ligados ao enfraquecimento do Irã, e Netanyahu enfrenta pressões internas que podem tornar a agenda de segurança mais central. Para o Brasil e outros parceiros comerciais, o risco principal não é militar direto, mas a combinação de sanções, tarifas e instabilidade regional afetando comércio, preços e rotas, com repercussões em setores específicos.
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