O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode enfrentar uma das mais amplas reconfigurações ministeriais desde o início do terceiro mandato. Cerca de 20 ministros devem deixar seus cargos até abril de 2026 para disputar eleições majoritárias ou proporcionais, movimento orientado diretamente pelo Palácio do Planalto como estratégia para fortalecer a base eleitoral do presidente nos estados. Caso se confirmem todas as saídas, Lula poderá conduzir a campanha à reeleição sem parte significativa de seu núcleo político, abrindo um período de transição e incerteza na Esplanada dos Ministérios.
A orientação do presidente é clara: ministros que ocupam mandatos parlamentares licenciados devem se descompatibilizar das pastas para garantir candidaturas e ampliar o apoio político nos estados. A exigência impõe um rearranjo profundo na estrutura do governo justamente no momento em que a administração entra em ritmo eleitoral.
Entre os pedidos diretos feitos por Lula está a saída da ministra Gleisi Hoffmann, titular da Secretaria de Relações Institucionais. Deputada federal licenciada pelo PT do Paraná, Gleisi aceitou disputar uma vaga no Senado, abandonando a expectativa de tentar a reeleição à Câmara. A decisão tem peso político relevante, já que a ministra é responsável pela articulação entre Executivo e Congresso.
A descompatibilização dos ministros deve ocorrer até abril, conforme determina a legislação eleitoral, às vésperas do início formal da campanha.
Articulação política sob incerteza
A saída de Gleisi Hoffmann impõe um desafio imediato à coordenação política do governo. Tradicionalmente, pastas comandadas por ministros que deixam o cargo passam a ser conduzidas por secretários-executivos. No caso das Relações Institucionais, o posto é ocupado por Marcelo Costa, diplomata de carreira com perfil técnico.
No entanto, setores do PT avaliam que a pasta exige comando político, especialmente durante o período eleitoral, quando negociações com o Congresso tendem a se intensificar. A indefinição sobre um substituto político reforça o clima de transição no Planalto.
Ministros do núcleo palaciano
Entre os ministros mais próximos do presidente, Rui Costa, chefe da Casa Civil, também deve deixar o cargo para disputar o Senado. Interlocutores não descartam, contudo, a possibilidade de uma nova candidatura ao Governo da Bahia.
Outro nome central é Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social, que deve se afastar não para disputar eleições, mas para comandar a campanha presidencial de Lula, repetindo o papel exercido em 2022. Diferentemente dos demais, sua saída está prevista apenas para junho.
No Palácio do Planalto, Guilherme Boulos tende a ser uma exceção. Mesmo podendo concorrer à reeleição como deputado federal pelo PSOL de São Paulo, ele deve permanecer no cargo até o fim do mandato, por ter assumido a pasta apenas em outubro de 2025.
Debandada fora do Planalto
Fora do núcleo palaciano, ao menos 12 ministros já sinalizaram saída. Entre os nomes que confirmaram publicamente estão Anielle Franco, da Igualdade Racial, que buscará o primeiro mandato como deputada federal pelo Rio de Janeiro; Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas, candidata à reeleição como deputada por São Paulo; e Carlos Fávaro, da Agricultura, que tentará o Senado por Mato Grosso.
Também já anunciaram descompatibilização Jader Filho (Cidades), André de Paula (Pesca), Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos) e Waldez Góes (Desenvolvimento Regional). Em alguns casos, como o de Jader Filho, a saída deve ocorrer ainda em março.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que chegou a cogitar candidatura à reeleição como deputado, desistiu da disputa em dezembro, afirmando ter atendido a um pedido direto do presidente.
Movimentações no eixo São Paulo
Uma das articulações mais relevantes envolve Simone Tebet, ministra do Planejamento, que deve se filiar ao PSB para disputar o Senado por São Paulo. Seu nome também é cogitado para a corrida ao governo estadual, caso Fernando Haddad opte por não disputar novamente o cargo.
Haddad já confirmou que pretende deixar o Ministério da Fazenda, mas ainda não definiu se concorrerá em 2026. Tebet, atualmente filiada ao MDB e natural de Mato Grosso do Sul, avalia que a migração partidária garantiria uma base mais sólida para Lula no maior colégio eleitoral do país.
Ainda em São Paulo, Marina Silva também avalia uma candidatura ao Senado. Já o nome de Geraldo Alckmin, ventilado para disputar o governo estadual, tende a ser preservado como vice-presidente na chapa de Lula, segundo interlocutores do Planalto.
Outros nomes em avaliação
Ministros como Macaé Evaristo (Direitos Humanos), Camilo Santana (Educação), André Fufuca (Esportes), Wellington Dias (Desenvolvimento Social) e Alexandre Silveira (Minas e Energia) também aparecem como potenciais candidatos ao Congresso ou a governos estaduais. Todos declararam estar à disposição das decisões do presidente.
Há ainda casos de ministros que aguardam deliberação final com Lula, como Wolney Queiroz (Previdência) e Márcio França (Empreendedorismo), este último com intenção de disputar o Governo de São Paulo pelo PSB.
Já Renan Filho confirmou que deixará o cargo para concorrer ao Governo de Alagoas. No caso de Camilo Santana, duas hipóteses circulam: atuar na articulação política da campanha presidencial ou disputar o Governo do Ceará, o que exigiria acordo com o atual governador Elmano de Freitas, que busca a reeleição.
Outros nomes que ainda podem deixar o governo são Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário) e Luciana Santos (Ciência e Tecnologia).
Ministros técnicos devem permanecer
Em meio às saídas políticas, ministros de perfil técnico devem permanecer no governo durante o período eleitoral, assegurando continuidade administrativa. Estão nesse grupo Mauro Vieira (Relações Exteriores), Wellington Lima e Silva (Justiça), Esther Dweck (Gestão e Inovação), Gustavo Feliciano (Turismo), Margareth Menezes (Cultura) e José Múcio (Defesa).
*Com informações do jornal Folha de S.Paulo.











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