Presidente Lula recebeu Daniel Vorcaro no Planalto antes de vir à tona escândalo do Banco Master

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio do Planalto, em 4 de dezembro de 2024, o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, semanas antes de o escândalo envolvendo suspeitas de fraude financeira vir a público. A reunião ocorreu a pedido do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que acompanhava Vorcaro, e contou com a presença de autoridades do governo e do sistema financeiro. O episódio ganhou relevância após a revelação das conexões políticas do banqueiro e do avanço das investigações, que hoje atingem o Judiciário, o Banco Central e lideranças partidárias, revelou Mariana Brasil e Caio Spechoto, em reportagem no jornal Folha de S.Paulo.

Segundo apuração jornalística confirmada nesta segunda-feira (26/01/2026), Vorcaro chegou ao Planalto acompanhado de Mantega e de Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master. Inicialmente, Mantega tinha reunião marcada com o chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Ao final do encontro, o ex-ministro solicitou audiência direta com o presidente.

Além de Lula, participaram da conversa os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira, bem como o então diretor do Banco Central Gabriel Galípolo, hoje presidente da autoridade monetária. O encontro ocorreu em caráter reservado, antes de qualquer divulgação pública das irregularidades associadas ao banco.

De acordo com relatos de interlocutores, Vorcaro apresentou a Lula críticas à concentração do mercado bancário brasileiro. O presidente respondeu que o tema deveria ser tratado tecnicamente pelo Banco Central e solicitou que Galípolo analisasse a questão sob critérios estritamente regulatórios, sem interferência política direta.

Relações políticas e sensibilidade do caso em Brasília

O escândalo do Banco Master ganhou contornos particularmente delicados em Brasília em razão das relações mantidas por Vorcaro com figuras centrais da política nacional. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, foi citado em depoimento pelo próprio banqueiro, que afirmou ter mantido conversas frequentes com ele, inclusive sobre a tentativa de venda do Banco Master ao BRB, operação posteriormente barrada pelo Banco Central.

No Congresso, o presidente do PP, Ciro Nogueira, é apontado por integrantes do meio político como um dos interlocutores próximos de Vorcaro, tendo atuado, segundo relatos, na articulação entre o Banco Master e o BRB. Essas conexões ampliaram a pressão institucional em torno do caso, transformando-o em tema recorrente nos bastidores do Executivo e do Legislativo.

Desdobramentos no STF e desgaste institucional

O caso também se tornou sensível no Supremo Tribunal Federal, especialmente em razão da atuação dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Parentes de Toffoli foram associados a um fundo ligado ao Banco Master, e o ministro determinou grau elevado de sigilo sobre os autos do processo que apura o escândalo financeiro, decisão que gerou críticas nos meios jurídico e político.

No caso de Moraes, o desgaste decorre da revelação de um contrato de R$ 3,6 milhões mensais firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci. Embora o ministro não seja formalmente investigado no inquérito, o vínculo contratual alimentou questionamentos sobre conflitos de interesse e reforçou o debate sobre transparência e ética no Judiciário.

Reação de Lula e críticas reservadas a Toffoli

Nos bastidores do Planalto, Lula passou a manifestar irritação crescente com a condução do caso por Toffoli. Segundo relatos de aliados, o presidente tem afirmado, em conversas reservadas, que o ministro deveria considerar deixar o STF, seja por renúncia, seja por aposentadoria, como forma de preservar a imagem da Corte.

O presidente acompanha de perto os desdobramentos do inquérito e as repercussões políticas do caso. Nos últimos dias, sinalizou que não pretende defender Toffoli das críticas públicas e estuda chamá-lo para nova conversa a respeito de sua atuação como relator, retomando um diálogo iniciado ainda no fim de 2024. Apesar do incômodo, auxiliares do presidente avaliam ser improvável que Lula peça formalmente o afastamento do ministro ou sua saída da relatoria.

Declaração pública e dimensão social do escândalo

Na sexta-feira (23), Lula rompeu parcialmente o silêncio e fez declaração dura ao comentar o caso. “Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão do Banco Master que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões”, afirmou o presidente, em referência às suspeitas de fraude envolvendo a instituição financeira.

A fala reforçou o caráter político e social do episódio, associando o escândalo financeiro a desigualdades estruturais e ao impacto indireto sobre a população mais vulnerável, especialmente em um contexto de ajustes fiscais e restrições orçamentárias.

Um escândalo que expõe interseções perigosas

O encontro entre Lula e Daniel Vorcaro, ocorrido antes da eclosão do escândalo, revela a permeabilidade histórica entre poder político e grandes interesses financeiros no Brasil. Ainda que não haja indícios de irregularidade na audiência em si, o episódio evidencia como relações pessoais e institucionais podem ganhar novos significados à luz de fatos posteriores.

Os desdobramentos no STF e no Banco Central ampliam a gravidade do caso, ao envolver diretamente instâncias responsáveis por fiscalização, regulação e julgamento. O elevado grau de sigilo, os vínculos familiares e contratuais e a reação tardia das instituições alimentam a percepção de assimetria na aplicação da lei, tensionando a credibilidade do sistema.

Por fim, a postura de Lula, ao se distanciar publicamente de Toffoli e adotar discurso crítico, indica uma tentativa de preservar capital político e institucional. Resta saber se essa inflexão retórica será acompanhada de medidas concretas de fortalecimento da transparência e do controle sobre relações entre Estado, mercado financeiro e Judiciário.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Cartaz do evento 'Cidade Verão' em Santo Estevão, destacando atividades de verão, cultura e movimento, com datas de 11 a 25 de janeiro, sempre aos domingos na Avenida Getúlio Vargas.
Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading