Ricardo Lewandowski define data para saída do Ministério da Justiça e acelera reestruturação da área de segurança no Governo Lula

Ricardo Lewandowski sinalizou que deixará o Ministério da Justiça até 9 de janeiro de 2026, antecipando uma saída pactuada com Lula. A decisão acelera a reconfiguração da pasta e o debate sobre a recriação do Ministério da Segurança Pública em 2026. A mudança ocorre em meio a pressões eleitorais, entraves federativos e críticas à eficácia das políticas atuais de combate ao crime organizado.
Ricardo Lewandowski sinaliza saída do Ministério da Justiça, e governo Lula acelera debate sobre divisão da pasta e recriação do Ministério da Segurança Pública em 2026.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, comunicou a aliados e integrantes do ministério, na segunda-feira (05/01/2026), que pretende deixar o comando da pasta nos próximos dias, com a intenção de permanecer no cargo até sexta-feira (09/01). A sinalização ocorre em meio à decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de dividir o atual Ministério da Justiça e Segurança Pública, reabrindo o debate sobre a recriação do Ministério da Segurança Pública em 2026, em um contexto de pressão política, disputa eleitoral e desafios estruturais no combate ao crime organizado.

Comunicação interna e cronograma de saída

Segundo relatos de interlocutores, Lewandowski telefonou para secretários e auxiliares diretos para informar sua decisão. Embora a data desejada seja 9 de janeiro, entraves burocráticos ainda podem atrasar a formalização da saída. O ministro havia retornado de férias nesta segunda-feira para reassumir atividades e, paralelamente, solicitou audiência com Lula, reforçando a percepção de que o desligamento será antecipado.

A previsão inicial era que Lewandowski deixasse o cargo após a aprovação da PEC da Segurança Pública, ainda sem data definida no Congresso. No entanto, o cenário mudou após declarações do presidente, em dezembro, sobre a separação das áreas de Justiça e Segurança, o que reduziria o escopo político e administrativo do atual ministro.

Em conversa prévia, Lula teria pedido que Lewandowski aguardasse até o fim de janeiro ou início de fevereiro, para alinhar a saída com eventuais mudanças em outras pastas, como a da Fazenda. Ainda assim, fontes indicam que a decisão já está pactuada e reflete o desgaste acumulado ao longo do último ano.

Núcleo duro também deve deixar a pasta

A eventual saída de Lewandowski tende a provocar uma reconfiguração ampla no ministério. Integrantes do chamado núcleo duro já sinalizaram que pretendem deixar o governo junto com o ministro. Entre eles estão Manoel Carlos de Almeida Neto, secretário-executivo, e Mario Sarrubbo, secretário nacional de Segurança Pública.

Outro nome citado é o de Marivaldo Pereira, secretário de Assuntos Legislativos, que deve se afastar ainda no primeiro semestre para disputar uma vaga de deputado federal nas eleições de 2026. O movimento sugere encerramento coordenado de um ciclo iniciado em fevereiro de 2024.

Lewandowski assumiu o ministério em 1º de fevereiro de 2024, após a saída de Flávio Dino para o STF, e promoveu uma reorganização interna com a nomeação de quadros técnicos para secretarias estratégicas, incluindo Justiça, Políticas Penais e Direito Digital.

Gestão, projetos e limites institucionais

Em seu discurso de posse, Lewandowski prometeu foco no combate ao crime organizado, às facções, aos delitos digitais e às milícias. Durante sua gestão, o ministério apresentou um arcabouço legal voltado à segurança pública, com destaque para a PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção, ambos ainda em tramitação na Câmara dos Deputados.

Apesar da agenda legislativa, os projetos enfrentaram resistências políticas e federativas. Governadores e bancadas estaduais pressionaram por mudanças que, em versões iniciais, chegaram a reduzir o protagonismo da Polícia Federal, revelando tensões sobre o papel da União no enfrentamento às organizações criminosas.

Aliados do presidente avaliam que, diante da centralidade do tema da segurança na opinião pública, o governo precisa de um perfil mais combativo e comunicacionalmente ativo à frente da área — especialmente em um campo tradicionalmente dominado por forças políticas de direita.

Recriação do Ministério da Segurança Pública

Na última reunião ministerial de 2025, Lula informou a auxiliares que pretende recriar o Ministério da Segurança Pública em 2026, após ouvir especialistas. A tendência é que o atual diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, seja indicado para comandar a nova pasta.

A proposta parte do diagnóstico de que a segurança pública deixou de ser um problema predominantemente estadual e se tornou um gargalo político nacional, impulsionado por operações de grande repercussão, crescimento do crime organizado transnacional e pressão da sociedade por respostas mais efetivas.

Especialistas ouvidos apontam que a recriação da pasta não garante, por si só, maior eficácia, mas pode ser um avanço se vier acompanhada de peso institucional, orçamento compatível, autonomia decisória e foco em inteligência. O maior obstáculo segue sendo federativo, já que polícias civis e militares continuam sob comando dos estados.

Segurança, eleição e cooperação internacional

A discussão ocorre às vésperas do ano eleitoral de 2026 e é vista como tentativa de reposicionar o governo Lula na pauta da segurança, área em que enfrenta dificuldades de comunicação e credibilidade. A criação da nova pasta também dialoga com a necessidade de cooperação internacional, diante do caráter transnacional do crime organizado.

Nesse contexto, integrantes do governo avaliam que acordos com outros países, inclusive os Estados Unidos, são necessários do ponto de vista operacional, independentemente de alinhamentos ideológicos. Ao mesmo tempo, analistas alertam para o risco de que a medida tenha caráter simbólico ou eleitoral, caso não seja acompanhada de mudanças estruturais e investimentos reais.

Entre reorganização administrativa e cálculo político

A saída antecipada de Ricardo Lewandowski evidencia os limites políticos e institucionais de sua gestão à frente de uma pasta sobrecarregada e submetida a pressões contraditórias. A decisão de Lula de dividir o ministério reconhece, ainda que tardiamente, que a segurança pública ganhou centralidade incompatível com o atual arranjo administrativo.

A recriação do Ministério da Segurança Pública pode representar avanço estratégico, desde que evite a duplicação de estruturas e enfrente com realismo o desafio federativo. Sem coordenação efetiva, inteligência integrada e financiamento adequado, a mudança corre o risco de repetir experiências passadas de baixo impacto prático.

Por fim, o movimento ocorre em um ambiente marcado por disputa eleitoral, cobrança social e fragilidade legislativa, o que exige cautela para que a reorganização institucional não se reduza a um gesto político de curto prazo, desconectado das necessidades estruturais do sistema de segurança brasileiro.

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