Análise macro da Pesquisa Atlas/Bloomberg de fevereiro de 2026: polarização negativa, “incumbência resiliente” e a disputa real pelo 2º turno | Por Carlos Augusto

A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (25/02/2026), registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07600/2026, é mais do que um retrato momentâneo: ela expõe a mecânica profunda do sistema político brasileiro na fase madura da polarização. O levantamento combina três blocos que, quando lidos em conjunto, revelam uma arquitetura consistente: (1) governo avaliado com viés negativo, (2) Lula ainda forte na arena eleitoral, (3) direita com chance real de vitória dependendo do nome e da coordenação. O que chama atenção não é apenas “quem está na frente”, mas como o eleitor decide — e o que isso diz sobre a crise de representação e a erosão do centro político.

O dado-chave não é a liderança no 1º turno: é o paradoxo entre desaprovação e força eleitoral

O presidente Lula aparece com desaprovação superior à aprovação e o governo é mais “ruim/péssimo” do que “ótimo/bom”. Em teoria política, isso costuma sugerir um incumbente vulnerável. Só que, nos cenários de primeiro turno, Lula permanece na faixa alta (meados de 40%), liderando com folga relativa.

Essa aparente contradição não é um “erro da pesquisa”. É o sintoma típico de um regime de polarização negativa, no qual parte do eleitorado declara reprovação ao governo, mas não migra para o adversário porque vota por aversão ao outro polo. Em linguagem simples: há gente que desaprova o governo, mas teme mais a alternativa. Esse mecanismo mantém o incumbente competitivo mesmo em ambiente ruim — não por aprovação entusiasmada, mas por bloqueio recíproco.

Polarização negativa: o país vota “contra”, não “a favor”

Os índices de rejeição dos principais líderes são altos e próximos. Isso é central. Quando as rejeições são elevadas para os dois polos, a eleição deixa de ser uma disputa de programas e vira uma disputa de fronteiras morais, identidades políticas e medos.

Esse tipo de cenário produz quatro efeitos previsíveis:

  1. Campanhas mais agressivas e menos programáticas, porque o objetivo é aumentar a rejeição do outro, não convencer pelo mérito.
  2. Alta sensibilidade a choques (economia, segurança, escândalos, crises institucionais).
  3. Decisão por margens mínimas, porque o eleitor mediano é menos “convertido” e mais “empurrado” por eventos.
  4. Centro político encolhido, sem densidade emocional para competir com os polos.

A pesquisa confirma o que a experiência brasileira tem mostrado desde 2018: a racionalidade eleitoral está menos ligada à avaliação de políticas e mais ligada ao pavor de perder o país para o outro lado.

A direita tem um problema de coordenação — e uma oportunidade objetiva

No primeiro turno, o campo à direita aparece fragmentado em cenários diferentes (com variações entre Tarcísio, Zema, Caiado, Ratinho Jr. e outros nomes). Fragmentação no primeiro turno favorece Lula, porque dispersa o voto oposicionista e consolida o líder do polo já estruturado.

Mas o segundo turno é onde a pesquisa acende a luz vermelha para o Planalto: há adversários que apertam, empatam ou viram. Em termos de teoria de coalizões, isso significa que a direita, se escolher cedo um nome com maior capacidade de agregação, pode reduzir o custo de coordenação, diminuir a guerra interna e chegar ao segundo turno com mais “energia unificada”.

O dado político real, portanto, é este: o jogo da direita não é “bater Lula no 1º turno”; é chegar no 2º turno com o candidato que melhor converte o antipetismo sem repelir o centro.

A sucessão de Lula não é automática: o “lulismo” não se transfere integralmente

Quando a pesquisa testa um cenário com Fernando Haddad no lugar de Lula, surge um fenômeno típico de lideranças personalistas fortes: o substituto não herda integralmente o capital político. A diferença aparece, sobretudo, em sinais de maior indecisão e maior volume de branco/nulo em comparação aos cenários com Lula.

Isso tem implicações estratégicas importantes:

  • Para o governo: o incentivo é manter Lula como eixo do projeto, porque ele reduz incerteza e segura o eleitorado polarizado.
  • Para a oposição: cresce o interesse em tensionar o tema “sucessão” e “cansaço”, porque a ausência de Lula pode embaralhar o campo governista.

Em termos de estrutura, a pesquisa sugere que Lula é o ativo eleitoral, e não apenas o partido ou o governo.

O “medo” dividido é o termômetro emocional do país

A pergunta sobre qual resultado causa mais medo ou preocupação (reeleição de Lula versus vitória de Flávio Bolsonaro) revela um país em estado de ansiedade simétrica. Isso é politicamente explosivo, porque campanhas baseadas em medo tendem a:

  • elevar o tom,
  • aumentar a intolerância,
  • reduzir espaço para moderação,
  • e empurrar eleitores para escolhas defensivas.

O Brasil entra em 2026 com o mesmo padrão emocional que marcou o ciclo recente: eleição plebiscitária sobre identidades, não sobre reformas.

Inconsistências e pontos de atenção (o que pode estar “fora do lugar” nos dados)

Aqui estão as principais tensões internas que merecem leitura crítica:

a) Desaprovação alta + voto alto para Lula
Não é incoerência estatística; é coerência sociopolítica em ambiente polarizado. Mas é um alerta: basta um choque econômico ou institucional para que o eleitor que “tolera” o incumbente por medo do outro passe a “punir” o incumbente por custo de vida.

b) Alguns cenários de 2º turno exibem volumes muito altos de branco/nulo/não sabe
Isso costuma indicar baixa credibilidade ou baixa nacionalização de determinados nomes — ou simplesmente ausência de conexão emocional do eleitor com a disputa. Em termos práticos: há candidaturas que não existem nacionalmente fora de bolhas regionais ou partidárias.

c) A pesquisa testa muitos cenários, mas o sistema tende a convergir para poucos nomes
Em teoria de competição eleitoral, quando a eleição se aproxima, o sistema “aperta” e migra para escolhas com viabilidade percebida. Isso quer dizer que múltiplas simulações são úteis agora, mas, politicamente, o funil real deve concentrar o jogo em um nome por polo.

d) Aprovação e avaliação do governo não capturam integralmente “medo” e “identidade”
Esse é um limite clássico das pesquisas: medir desempenho não é medir identidade. Em 2026, identidade provavelmente pesa tanto quanto avaliação.

Tendências prováveis até a campanha (potenciais movimentos do sistema)

Se nada extraordinário acontecer, os dados sugerem cinco tendências:

  1. Lula chega forte ao 1º turno por estrutura de polo, mesmo sob avaliação negativa.
  2. O 2º turno será o terreno decisivo e pode ser resolvido por margens estreitas, dependendo do adversário.
  3. A direita terá pressão para unificar em torno do nome com melhor desempenho agregado e menor rejeição relativa.
  4. A agenda econômica e a sensação de ordem (inflação, emprego, segurança) tendem a ser os “gatilhos” de realinhamento do eleitor não ideológico.
  5. A eleição será moralizada, com menos debate sobre reformas e mais disputa sobre “o que o Brasil é” e “quem tem legitimidade”.

Conclusão: 2026 não será uma eleição de entusiasmo; será uma eleição de contenção

A pesquisa Atlas/Bloomberg aponta um país travado em uma engrenagem que já conhecemos: um incumbente forte sem ser popular, uma oposição competitiva sem ser consensual, e um eleitorado dividido por medo. O que decide 2026 não é apenas “aprovação do governo”, mas a capacidade de cada polo de impor ao eleitor a pergunta certa: o que você teme mais — o atual governo ou o outro lado no poder?

Essa é a tragédia moderna da política brasileira: em vez de escolher futuros desejáveis, o eleitor é empurrado a escolher o futuro menos temido.

*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.

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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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