A liquidação do Banco Pleno pelo Banco Central, formalizada na quarta-feira (18/02/2026), encerrou a trajetória de uma instituição com raízes no mercado financeiro desde 1967, quando surgiu como corretora vinculada ao grupo Comind. O desfecho ocorreu após o banco enfrentar dificuldades para honrar compromissos com investidores, especialmente CDBs em vencimento, em meio à crise que atingiu o conglomerado financeiro ligado ao Banco Master. A decisão da autoridade monetária marca o fim de um ciclo empresarial que atravessou mais de cinco décadas, passou por diversas fusões, mudanças societárias e reestruturações, e terminou com liquidação forçada.
Origem histórica e transformação institucional
A instituição nasceu em 1967, como corretora criada pelo Comind em parceria com Sérgio Barbosa, no contexto das reformas promovidas pela Lei 157 no mercado de capitais. Em 1970, após a saída de Barbosa, o grupo promoveu a fusão entre o Indusval e a corretora Baluarte, consolidando uma base acionária com as famílias Masagão e Ciampolini.
Nas décadas seguintes, o banco expandiu suas operações até obter licença bancária em 1991, consolidando sua atuação como banco comercial focado no segmento de empresas médias. A fusão com o Multistock, em 2004, reforçou essa estratégia.
Contudo, após a abertura de capital, surgiram dificuldades estruturais que levaram a sucessivas tentativas de capitalização, entrada de novos sócios e reestruturações, culminando na transformação do banco em Voiter e, posteriormente, em Banco Pleno.
Augusto Lima: ascensão no crédito consignado
Origem empresarial e início na Bahia
Natural de Salvador, Augusto Lima iniciou sua trajetória empresarial atuando como correspondente bancário. Em 2001, criou a empresa Terra Firme, estruturando operações financeiras voltadas ao setor público.
A inflexão decisiva ocorreu em 2018, com a criação do cartão consignado Credcesta, voltado a servidores públicos. O produto combinava crédito consignado com serviços agregados, ampliando o alcance da operação para 24 estados e 176 municípios.
A estratégia coincidiu com a privatização da Ebal, estatal baiana responsável pela rede Cesta do Povo, o que abriu espaço para a expansão do modelo de negócios. O crescimento acelerado projetou Lima nacionalmente no mercado financeiro.
Parceria com o Banco Master
Em 2020, Lima tornou-se sócio do Banco Master, liderado por Daniel Vorcaro. A parceria ampliou o alcance do Credcesta e consolidou sua posição no segmento de crédito consignado.
O relacionamento societário, no entanto, tornou-se conturbado. Em 2024, Lima formalizou sua saída do conglomerado. Pouco tempo depois, obteve autorização do Banco Central para assumir o controle do Voiter, rebatizado de Banco Pleno.
A operação chamou atenção do mercado, pois ocorreu em um momento de questionamentos sobre a saúde financeira do grupo Master.
Aposta patrimonial e risco pessoal
Ao adquirir o Voiter, Lima assumiu um passivo estimado em R$ 6 bilhões em CDBs, além de dívidas relacionadas à negociação com antigos controladores.
Com patrimônio pessoal estimado em R$ 1 bilhão, o empresário passou a responder diretamente pela sustentação do banco. Nos meses que antecederam a liquidação, aportou cerca de R$ 600 milhões de recursos próprios para honrar vencimentos e evitar o colapso imediato.
O Banco Central determinou a suspensão da emissão de novos CDBs para reduzir a exposição do Fundo Garantidor de Créditos. Ainda assim, a instituição perdeu capacidade de captação e liquidez.
A tentativa de encontrar um investidor estratégico não prosperou. Com a liquidação, os bens do controlador tornaram-se indisponíveis.
Relações políticas e exposição pública
Ao longo de sua expansão, Lima estabeleceu conexões no meio político. O Credcesta ganhou escala em ambiente institucional favorável à ampliação do crédito consignado, inclusive no âmbito federal.
Em 2024, participou de reuniões institucionais em Brasília ao lado de executivos do Master. Paralelamente, ampliou sua presença pública com eventos empresariais e articulações no setor financeiro.
A exposição política aumentou a visibilidade de sua trajetória, mas também intensificou o escrutínio após o avanço das investigações envolvendo o conglomerado financeiro.
Investigação e impacto reputacional
Em novembro de 2025, Augusto Lima foi alvo da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal. Ele chegou a ser preso preventivamente e, posteriormente, liberado com uso de tornozeleira eletrônica.
As investigações apuram suspeitas de fraudes envolvendo carteiras de crédito e estruturas societárias vinculadas ao grupo Master. O impacto reputacional dificultou a captação de recursos e a atração de investidores para o Banco Pleno.
A sucessão de liquidações de instituições relacionadas ao conglomerado ampliou a percepção de risco no mercado.








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