A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Banco Master, formalizada após reunião interna do Supremo Tribunal Federal (STF) em quinta-feira (12/02/2026), encerrou uma etapa marcada por conflitos entre o gabinete do relator e a Polícia Federal (PF) sobre prazos operacionais, controle e perícia de provas digitais e acusações mútuas de prejuízo à investigação. O episódio ampliou o desgaste institucional e levou o governo federal a adotar postura de contenção pública, com orientação para que ministros evitassem comentários sobre a crise.
A origem do atrito: sigilo máximo, medidas incomuns e tensão na condução do inquérito
O caso chegou ao STF em dezembro de 2025, após movimento da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como principal investigado em apurações sobre fraudes ao sistema financeiro. Ao assumir a relatoria, Toffoli determinou sigilo máximo e passou a expedir decisões que se tornariam o centro de divergências com a PF.
Um dos primeiros pontos de fricção ocorreu em 24/12/2025, quando o ministro determinou a realização de depoimentos e acareação envolvendo Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de fiscalização do Banco Central Ailton de Aquino. Segundo os relatos, a ordem partiu do gabinete do ministro sem solicitação prévia dos investigadores, com justificativa de evitar manipulação de provas e versões.
As oitivas foram realizadas em 30/12/2025 e, ainda nesse momento, houve registro de atritos entre o juiz instrutor do gabinete e a delegada da PF responsável pelo procedimento, sinalizando que a divergência não se restringia a aspectos formais, mas atingia a dinâmica da instrução.
Operação Compliance Zero: prazos, acusações de “inércia” e resposta da PF
A crise institucional se agravou na segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 14/01/2026. Toffoli afirmou que houve descumprimento de prazo por parte da PF para cumprimento de medidas autorizadas, sustentando que isso poderia ter comprometido providências e até favorecido riscos operacionais — incluindo a possibilidade de fuga de investigado citado no contexto do cumprimento das ordens.
A PF respondeu formalmente por meio do diretor-geral Andrei Rodrigues, sustentando que não houve omissão e que eventuais dificuldades foram comunicadas ao STF antes do vencimento do prazo inicialmente fixado. Entre os argumentos mencionados estavam circunstâncias operacionais, coexistência com outras operações complexas, além de desafios de atualização de endereços e deslocamento de alvos.
Disputa sobre provas digitais: lacre no STF, custódia na PGR e peritos indicados
A divergência mais sensível ocorreu em torno do destino e da perícia do material apreendido, especialmente celulares. Inicialmente, Toffoli determinou que os itens fossem lacrados e acautelados no STF, sob argumento de evitar vazamentos e dispersão de dados. Em seguida, em novo despacho, retirou da PF o poder de periciar o material e transferiu a tarefa para a Procuradoria-Geral da República (PGR), que passaria a armazenar as provas.
A PF argumentou que a medida poderia dificultar o andamento da investigação, citando riscos técnicos típicos de evidências digitais, como possibilidade de bloqueio remoto e “autodestruição lógica” de dispositivos. Na sequência, Toffoli indicou quatro peritos da própria PF para atuar na extração e análise do conteúdo, em um arranjo intermediário: Luis Filipe da Cruz Nassif, Tiago Barroso de Melo, Enelson Candeia da Cruz Filho e Lorenzo Victor Schrepel Delmutti.
O estopim: relatório com menções a Toffoli, arguição de suspeição e saída da relatoria
Em 11/02/2026, a PF entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório sobre dados extraídos do celular de Vorcaro. O documento mencionava o nome de Toffoli em mensagens relacionadas a pagamentos envolvendo a empresa Maridt, da qual o ministro reconheceu participação societária em nota oficial.
Diante desse quadro, foi levantada uma arguição de suspeição. Em 12/02/2026, após reunião convocada por Fachin, Toffoli concordou em deixar a relatoria. O STF decidiu por unanimidade afastar a suspeição e manter válidos os atos praticados pelo ministro até então, enquanto a relatoria foi redistribuída ao ministro André Mendonça.
O Planalto tenta não ser arrastado para a disputa institucional
Com o embate assumindo contornos de crise entre instituições, o governo federal buscou reduzir o desgaste público. Foi reportado que o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social orientou ministros do governo a não comentarem a crise envolvendo STF e Banco Master, e também a evitarem críticas ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, citado em contexto político paralelo associado a investigações sobre investimentos previdenciários em títulos do banco.
A diretriz indicou uma avaliação interna de que a questão deixou de ser um caso exclusivamente judicial e passou a se configurar como disputa entre órgãos de Estado, com risco de contaminação política.










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