Foi protocolado nesta terça-feira (03/02/2026) no Congresso Nacional o requerimento para a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) com a finalidade de investigar supostas irregularidades envolvendo o Banco Master. A iniciativa reuniu 42 assinaturas de senadores e 238 de deputados federais, número superior ao mínimo constitucional exigido para a instalação do colegiado. O próximo passo é a leitura formal do requerimento em sessão conjunta do Congresso, condição necessária para a criação da comissão, cuja análise caberá ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A proposta surge em meio ao aprofundamento das investigações sobre o colapso do Banco Master, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025, após a identificação de indícios de fraudes, irregularidades administrativas e prejuízos bilionários ao sistema financeiro, com possíveis reflexos sobre fundos públicos e investidores privados.
Articulação política e defesa da investigação ampla
Autor do requerimento, o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) afirmou que trabalhará pela efetiva instalação da CPMI, reconhecendo resistências políticas nos bastidores, mas defendendo uma apuração sem restrições.
Segundo Jordy, o objetivo é assegurar que as investigações avancem independentemente do peso político ou econômico dos envolvidos, ressaltando que a CPMI não deve se orientar por alinhamentos ideológicos, mas pela necessidade de esclarecimento dos fatos.
No Senado, o senador Magno Malta (PL-ES) destacou as dificuldades enfrentadas na coleta de assinaturas, classificando o processo como atípico em razão da sensibilidade do tema. De acordo com o parlamentar, o esforço pessoal do autor do requerimento foi determinante para viabilizar o número necessário de apoios.
Apoio suprapartidário e foco institucional
Durante pronunciamentos no plenário, outros senadores reforçaram a necessidade de garantir a autonomia das comissões de inquérito. Eduardo Girão (Novo-CE) defendeu o funcionamento independente da CPMI como instrumento constitucional de fiscalização. Já Izalci Lucas (PL-DF) mencionou a negociação envolvendo a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) como um dos pontos que demandam apuração detalhada.
Para o senador Carlos Portinho (PL-RJ), o caso extrapola disputas políticas tradicionais. Em sua avaliação, trata-se de um episódio de corrupção que exige resposta institucional, independentemente de governos ou partidos.
Após a leitura do requerimento, a CPMI terá prazo inicial de 180 dias para realizar diligências, requisitar documentos e convocar depoentes, podendo investigar não apenas a atuação do banco, mas também eventuais falhas de órgãos reguladores e instituições públicas envolvidas.
CAE cria subcomissão paralela para acompanhar o caso
Paralelamente à movimentação no Congresso, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado instituiu um grupo de trabalho específico para acompanhar as investigações sobre o Banco Master. A subcomissão foi criada por iniciativa do presidente do colegiado, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), e deve iniciar suas atividades ainda nesta semana.
Renan defendeu uma apuração abrangente sobre o modelo de negócios do banco, baseado na emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com promessa de rentabilidade elevada e no uso intensivo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Segundo o senador, a liquidação extrajudicial ocorreu de forma tardia, e cabe ao Senado esclarecer por que os mecanismos de fiscalização não atuaram de maneira preventiva.
A subcomissão terá poderes para requisitar informações protegidas por sigilo bancário, com base na Lei Complementar nº 105/2001, e acompanhar investigações em curso no Banco Central, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), na Polícia Federal e no Tribunal de Contas da União (TCU).
Repercussões no Distrito Federal e no BRB
Durante a abertura dos trabalhos da CAE, senadores alertaram para os impactos diretos do caso no Distrito Federal. A senadora Leila Barros (PDT-DF) destacou que o episódio envolve relações consideradas sensíveis entre o banqueiro Daniel Vorcaro e estruturas do poder público local, colocando o BRB no centro das atenções.
O Banco de Brasília informou ter identificado “achados relevantes” em auditoria interna sobre a tentativa de aquisição do Banco Master. Segundo nota oficial, relatórios preliminares já foram encaminhados à Polícia Federal e ao Banco Central, com o objetivo de subsidiar as investigações em andamento e preservar os interesses da instituição pública.
CPMI do INSS e depoimento de Daniel Vorcaro
Em outro desdobramento, a CPMI do INSS, presidida pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG), aprovou a convocação de Daniel Vorcaro para prestar depoimento. Inicialmente previsto para 5 de fevereiro, o depoimento foi reagendado para 26 de fevereiro, após solicitação da defesa.
Vorcaro é investigado pela Polícia Federal por fraudes envolvendo empréstimos consignados. Segundo Viana, o banqueiro deverá explicar a existência de cerca de 250 mil contratos suspensos pelo INSS por ausência de comprovação de autorização dos aposentados. Por estar em prisão domiciliar, o deslocamento até Brasília deverá ocorrer sob custódia policial, com garantia de todos os direitos constitucionais.
Habeas corpus e limitações às investigações
O presidente da CPMI do INSS lamentou a decisão do Supremo Tribunal Federal que concedeu habeas corpus ao empresário Mauricio Camisotti, impedindo seu depoimento à comissão. Camisotti é apontado como sócio oculto da Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), entidade que teria arrecadado R$ 178 milhões entre 2019 e 2024 por meio de descontos indevidos em benefícios previdenciários, conforme apuração da Controladoria-Geral da União.
Viana informou ainda que o ministro do STF Dias Toffoli concordou com a devolução de material já produzido pela CPMI, condicionando a medida à conclusão das investigações da Polícia Federal. O senador também anunciou tratativas para prorrogar os trabalhos da comissão por mais 60 dias.
Escopo institucional e riscos sistêmicos
A criação da CPMI do Banco Master ocorre em um contexto de grave abalo à confiança no sistema financeiro, marcado por falhas regulatórias, operações de alto risco e possível uso indevido de instrumentos públicos de garantia. O volume de recursos envolvidos e a tentativa de socorro por meio de banco público ampliam a relevância institucional do caso.
A coexistência de múltiplas frentes de apuração — CPMI, subcomissão da CAE, investigações do Banco Central e da Polícia Federal — evidencia tanto a complexidade do episódio quanto o risco de sobreposição de esforços e disputas de competência. A efetividade das investigações dependerá da coordenação entre os órgãos e da disposição política para enfrentar interesses econômicos consolidados.
Também chama atenção o impacto político no Distrito Federal, onde a relação entre o BRB e o Banco Master expôs fragilidades na governança de instituições financeiras públicas. A resposta legislativa poderá resultar não apenas em responsabilizações, mas em mudanças estruturais na regulação do setor.
*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.








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