A crise provocada pelo colapso do Banco Master ampliou as tensões entre o sistema financeiro, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), ao mesmo tempo em que o Senado instalou um grupo de trabalho para acompanhar as investigações e a Corte passou a discutir a adoção de um código de conduta para ministros. O episódio envolve suspeitas de fraude financeira, conexões políticas e questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse no Judiciário.
Enquanto a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado iniciou os trabalhos para acompanhar o caso, com possibilidade de quebra de sigilos e audiências públicas, o STF enfrenta pressão interna e externa por maior transparência e regras éticas, após revelações sobre vínculos indiretos de familiares de ministros com o banco.
Senado amplia apuração e articula atuação com órgãos de controle
O grupo de trabalho da CAE, presidido pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), terá a missão de acompanhar investigações conduzidas pelo Banco Central, Polícia Federal, Tribunal de Contas da União (TCU) e outros órgãos.
O plano de trabalho inclui:
- Audiências públicas
- Diligências e visitas técnicas
- Análise de documentos
- Possibilidade de quebra de sigilos bancários e fiscais
- Relatórios preliminares e relatório final
Segundo Renan, o caso representa um episódio de grande dimensão institucional, com ramificações em diversos setores do Estado. O senador afirmou que a comissão pretende traçar uma linha do tempo das fraudes atribuídas à instituição financeira e avaliar mudanças legislativas no sistema de fiscalização.
Entre as propostas discutidas está a ampliação da supervisão do Banco Central sobre fundos de investimento, medida que pode alterar o alcance regulatório da autoridade monetária.
Visitas ao Planalto e conexões políticas entram no radar da comissão
Durante a instalação do grupo, Renan mencionou a necessidade de examinar possíveis conexões políticas relacionadas ao banco, incluindo visitas do empresário Daniel Vorcaro ao Palácio do Planalto antes da eclosão do escândalo.
O senador afirmou que o objetivo é apurar os fatos sem politização, mas com atenção a eventuais responsabilidades de autoridades públicas ou parlamentares.
A comissão também pretende ouvir o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, além de manter diálogo institucional com o STF.
STF discute código de conduta após crise e pressões internas
Paralelamente às investigações no Senado, nesta quarta-feira (04/02/2026), o STF enfrenta debates internos sobre a adoção de um código de conduta para ministros, proposta defendida pelo presidente da Corte, Edson Fachin.
A iniciativa ganhou força após a crise do Banco Master, que colocou ministros sob pressão pública. Reportagens indicaram:
- Contrato milionário entre o banco e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes
- Questionamentos sobre relações familiares envolvendo fundos ligados à instituição, no entorno do ministro Dias Toffoli
Em sessão no STF, Moraes afirmou que a Constituição e a Lei Orgânica da Magistratura já seriam suficientes para disciplinar a atuação de juízes, criticando a ideia de um novo código.
O ministro também defendeu a legalidade de magistrados participarem de atividades como palestras e terem aplicações financeiras, desde que respeitadas as regras de impedimento e suspeição.
Toffoli, por sua vez, afirmou que juízes podem ser sócios de empresas, desde que não exerçam funções de administração.
Decisão do STF em 2023 ampliou atuação de familiares de magistrados
O debate sobre conflitos de interesse ganhou relevância após decisão do STF, em agosto de 2023, que derrubou trecho do Código de Processo Civil que impedia juízes de atuar em casos envolvendo clientes de escritórios de advocacia de seus parentes.
Com a mudança:
- Magistrados passaram a poder julgar causas relacionadas a clientes de parentes
- A regra anterior visava evitar tentativas indiretas de influência em julgamentos
Especialistas ouvidos por veículos de imprensa defendem a retomada de restrições ou a criação de normas equivalentes, o que reforçou a proposta de um código de conduta para o STF.
Cancelamento de reunião evidencia divisões internas na Corte
As divergências internas sobre o tema ficaram evidentes após o cancelamento de um almoço entre ministros, convocado por Fachin para discutir o cronograma do código de ética.
O encontro foi adiado após manifestações contrárias de alguns ministros, incluindo Moraes, o que demonstrou a existência de divisões dentro do STF sobre a adoção das novas regras.
O tema deve permanecer na pauta da Corte ao longo de 2026, com julgamentos relacionados à ética pública e remuneração de magistrados.










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