Mensagens revelam conversas sobre voto do ministro do STF Dias Toffoli em ação de R$ 1,5 bilhão e ampliam crise no STF

Conversas obtidas pela Polícia Federal e enviadas na quarta-feira (11/02/2026) ao Supremo Tribunal Federal indicam que o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria atuou como interlocutor entre o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e o ministro Dias Toffoli, em meio a discussões sobre o voto do magistrado em uma ação bilionária envolvendo indenizações do setor sucroalcooleiro. As mensagens, citadas em relatório encaminhado ao STF, alimentam suspeitas de tráfico de influência e levaram à retirada de Toffoli da relatoria do caso relacionado ao banco.

Relação entre Vorcaro, Toffoli e a venda de participação no resort

Antes de as investigações sobre o Banco Master chegarem ao Supremo, Fábio Faria tentou reaproximar Vorcaro e Toffoli. Os dois mantinham relação considerada próxima até a venda, em setembro de 2021, da participação do ministro no resort Tayayá, por meio da empresa Maridt Participações S.A., para um fundo ligado ao empresário.

Após a negociação, o vínculo teria esfriado. Faria, amigo de Vorcaro, propôs intermediar um encontro fora das dependências do Supremo. A reunião, porém, não restabeleceu a proximidade. Segundo relatos, Vorcaro teria se incomodado com comentários de Toffoli sobre outro banqueiro, o que teria ampliado o distanciamento.

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro mostram que Faria mantinha contato frequente com o empresário e atuava como elo entre o banqueiro e o ambiente político, além de manter relações pessoais e profissionais com ele.

Conversas sobre julgamento da Usina Alcídia

Em uma troca de mensagens datada de 13 de setembro de 2024, Vorcaro informou a Faria que Toffoli poderia votar contra a Usina Alcídia, em processo que tratava de indenizações decorrentes do controle estatal de preços no setor sucroalcooleiro nas décadas de 1980 e 1990.

Questionado por Faria sobre a origem da informação, Vorcaro citou o advogado Carlos Vieira Filho, especialista nesse tipo de causa e filho do presidente da Caixa Econômica Federal.

O julgamento havia sido retirado do plenário virtual pelo ministro Gilmar Mendes em 26 de agosto de 2024. A análise presencial na Segunda Turma começou em 17 de setembro, poucos dias após a conversa entre Faria e Vorcaro. O ministro Kassio Nunes Marques pediu vista e devolveu o processo posteriormente.

Em 1º de outubro de 2024, a Segunda Turma concluiu o julgamento com votos de Edson Fachin, Nunes Marques e Toffoli a favor da usina, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos. A decisão resultou em indenização de R$ 1,5 bilhão a ser paga pela União, com atualização pelo IPCA e juros de 0,5% ao ano.

Mudança de posição e divergência em casos semelhantes

A suspeita de mudança de posição do ministro decorre do fato de que, oito meses antes, Toffoli havia votado contra a empresa Raízen Energia em processo considerado idêntico, negando indenização que poderia render R$ 125,3 milhões ao grupo controlado pelo banqueiro André Esteves, do BTG Pactual.

Entre os dois julgamentos, a Segunda Turma não havia apreciado novos casos semelhantes. Na prática, o ministro adotou posições divergentes em ações com fundamentos jurídicos equivalentes, fato que passou a ser questionado internamente.

Segundo as investigações, Vorcaro não possuía participação na Usina Alcídia, mas acompanhava o caso por se tratar de ativos judiciais de grande valor.

Reunião no STF e saída de Toffoli da relatoria

O tema foi discutido em reunião reservada entre ministros do Supremo em 12 de fevereiro de 2026. No encontro, Toffoli foi cobrado a explicar as mensagens relacionadas ao seu voto, consideradas pela Polícia Federal como indícios de possível tráfico de influência.

Após a reunião, o ministro deixou a relatoria do caso envolvendo o Banco Master, movimento interpretado como tentativa de reduzir o impacto institucional da investigação.

Nota de Fábio Faria

Em nota, Fábio Faria afirmou que conheceu Vorcaro após deixar o governo e que manteve apenas relação pessoal com o empresário. O ex-ministro declarou que nunca tratou com ministros do STF sobre processos judiciais e que não atuou como advogado nem intermediou interesses do Banco Master.

Segundo o comunicado, as mensagens mencionadas pela investigação referem-se apenas a percepções sobre cenários de julgamentos públicos, sem qualquer tentativa de influência direta.


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