O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, lançou neste sábado (07/02/2026), no Sesc 14 Bis, em São Paulo, o livro “Capitalismo superindustrial – Caminhos diversos, destino comum”, obra em que reúne estudos de economia política produzidos entre as décadas de 1980 e 1990 e revisados à luz das transformações contemporâneas. Durante o debate com a historiadora Lilia Schwarcz e o sociólogo Celso Rocha de Barros, o ministro afirmou que a fragilidade democrática brasileira está associada à herança escravocrata e sustentou que a elite nacional historicamente tratou o Estado como propriedade própria.
Debate sobre herança histórica e fragilidade institucional
Durante a mesa de lançamento, Haddad declarou que a formação social brasileira produziu um modelo de Estado apropriado por grupos dominantes. Segundo o ministro, a abolição da escravidão teria sido acompanhada de um processo de compensação política às elites, o que teria consolidado a percepção de que o aparato estatal serviria a interesses privados.
A declaração integra uma leitura histórica e sociológica do país, presente nos ensaios reunidos na obra, que buscam relacionar estrutura econômica, formação social e comportamento político. Haddad associou a instabilidade institucional brasileira à ausência de reformas estruturais que alterassem o padrão de concentração de poder e renda.
O ministro também resgatou uma tese formulada por ele no fim dos anos 1990, segundo a qual a crise do neoliberalismo, sem uma resposta política organizada, abriria espaço para movimentos de direita radical. Segundo Haddad, o cenário contemporâneo confirmaria essa previsão.
A tese do “capitalismo superindustrial”
A obra apresenta a ideia de que o capitalismo entrou em uma nova fase histórica, descrita como “capitalismo superindustrial”. Nesse modelo, a lógica de mercantilização teria avançado para além da terra e do trabalho, incorporando conhecimento, ciência e informação como fatores centrais de produção.
Segundo a tese, a economia contemporânea passou a operar com base em ativos imateriais, inovação tecnológica e circulação de dados, o que teria alterado profundamente a organização do trabalho e as relações de classe. O autor sustenta que essa transformação produziu novas formas de desigualdade e competição global.
Nesse contexto, o livro argumenta que a incorporação da ciência ao processo produtivo alterou o eixo da acumulação de capital, tornando o conhecimento um recurso estratégico e ampliando a dependência de sistemas educacionais, centros de pesquisa e infraestrutura tecnológica.
Fragmentação das classes sociais
Uma das teses centrais da obra é a fragmentação das classes não proprietárias em três grandes grupos:
- Cognitariado: trabalhadores cujo principal ativo é o conhecimento técnico ou científico;
- Proletariado tradicional: trabalhadores vinculados à produção industrial e serviços convencionais;
- Precariado: trabalhadores em condições instáveis, informais ou de baixa proteção social.
Segundo Haddad, essa fragmentação dificulta a organização coletiva automática dos trabalhadores, ao contrário do que ocorreria no modelo industrial clássico. O autor argumenta que, nesse cenário, a ação política torna-se essencial para reorganizar interesses sociais e enfrentar as desigualdades.
Análise sobre Rússia, China e industrialização estatal
O livro também revisita experiências históricas de industrialização acelerada, com destaque para Rússia e China, analisadas sob a ótica da chamada acumulação primitiva de capital. Haddad sustenta que esses processos não corresponderam a revoluções socialistas clássicas, mas sim a estratégias de industrialização conduzidas por Estados centralizados.
Segundo o autor, o caso chinês exemplifica uma trajetória híbrida, na qual o crescimento econômico acelerado foi obtido por meio de forte intervenção estatal e integração seletiva ao mercado global.
Essa análise é apresentada como parte de um esforço para compreender a ascensão de novas potências econômicas e os efeitos desse processo sobre a ordem internacional e o sistema capitalista contemporâneo.
Conteúdo e estrutura da obra
“Capitalismo superindustrial – Caminhos diversos, destino comum” reúne estudos acadêmicos produzidos por Haddad ao longo de sua formação intelectual, revisados e ampliados com bibliografia recente e análises sobre transformações econômicas globais.
Entre os principais temas abordados estão:
- A evolução histórica das classes sociais no capitalismo;
- A incorporação do conhecimento como fator central de produção;
- A industrialização tardia em países periféricos;
- A natureza do sistema soviético;
- A ascensão da China como potência econômica;
- As mudanças estruturais no mercado de trabalho.
A obra propõe uma interpretação de longo prazo do capitalismo, combinando elementos de economia política clássica com análises contemporâneas sobre tecnologia, globalização e transformação das relações produtivas.
Segundo o autor, os ensaios buscam oferecer uma leitura histórica das mudanças estruturais do sistema econômico, conectando debates acadêmicos do século XX às transformações tecnológicas e geopolíticas do século XXI.
Possível saída do Ministério da Fazenda
Durante o evento, Haddad afirmou que pretende deixar o Ministério da Fazenda para atuar na campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o ministro, a direção do PT e o próprio presidente avaliam sua candidatura ao governo de São Paulo ou ao Senado.
A declaração ocorre em meio às discussões internas do partido sobre a estratégia eleitoral para 2026 e o papel de Haddad no cenário político nacional.
Livro combina teoria estrutural e intervenção política
O lançamento do livro ocorre em um momento de forte polarização política e de debates sobre o papel do Estado, da indústria e da tecnologia na economia global. A tese do capitalismo superindustrial procura atualizar conceitos clássicos da economia política, associando-os às transformações provocadas pela digitalização, pela economia do conhecimento e pela ascensão de novas potências.
Ao relacionar a fragilidade democrática brasileira à herança escravocrata e à captura do Estado por elites, o ministro adota uma interpretação histórica de viés estrutural, que remete a tradições intelectuais da sociologia brasileira. Essa leitura, embora presente em parte da academia, é alvo de controvérsias, sobretudo entre correntes que enfatizam fatores institucionais e econômicos recentes como determinantes da instabilidade política.
A obra também revela a dimensão ideológica do debate sobre o futuro do capitalismo, ao sugerir que a fragmentação das classes e a centralidade do conhecimento exigem respostas políticas organizadas. Nesse sentido, o livro funciona tanto como ensaio acadêmico quanto como manifesto intelectual que dialoga com as disputas políticas contemporâneas.










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