Levantamento nacional do Instituto Paraná Pesquisas, divulgada nesta sexta-feira (27/02/2026) e registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07974/2026, indica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém a liderança nos cenários de intenção de voto para a eleição presidencial de 2026. O levantamento também revela crescimento consistente do deputado Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como principal adversário e reduz a distância em simulações de primeiro e segundo turno. Realizada entre 22 e 25 de fevereiro de 2026 com 2.080 eleitores em 159 municípios, a pesquisa evidencia ainda uma estrutura eleitoral marcada por polarização ideológica, forte divisão regional do voto e sinais de desgaste político do governo.
Os dados indicam que o cenário político brasileiro permanece fortemente condicionado por dois polos políticos consolidados ao longo da última década. Na intenção de voto espontânea, ainda há elevado grau de indefinição do eleitorado: 42,6% dos entrevistados afirmam não saber ou não opinar, enquanto 6,1% declaram voto branco ou nulo. Entre os nomes citados espontaneamente, Lula aparece com 26,0%, seguido por Flávio Bolsonaro com 14,8% e Jair Bolsonaro com 5,8%.
Quando o eleitor é confrontado com uma lista de candidatos, a disputa se torna mais estruturada. No primeiro cenário estimulado, Lula registra 39,6% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro alcança 35,3%. Em seguida aparecem Ratinho Junior (7,6%) e Romeu Zema (3,8%), enquanto outros nomes apresentam desempenho residual.
A evolução histórica da série indica um fenômeno politicamente relevante: a redução gradual da distância entre os dois principais polos eleitorais. Em outubro de 2025, Lula registrava 37,6%, enquanto Flávio Bolsonaro aparecia com 19,2%. Em fevereiro de 2026, o presidente chega a 39,6%, mas o deputado cresce de forma significativa, alcançando 35,3%, o que revela uma recomposição progressiva do campo oposicionista.
Reconfiguração da direita e fragmentação intermediária
O segundo cenário estimulado da pesquisa reforça uma característica recorrente da política brasileira contemporânea: a dificuldade de consolidação de uma terceira via eleitoral com densidade nacional.
Nesse cenário, Lula aparece com 40,5%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 36,6%. Outros candidatos permanecem em patamar relativamente baixo, como Romeu Zema (4,3%), Ronaldo Caiado (3,7%), Renan Santos (1,5%) e Aldo Rebelo (0,4%).
Do ponto de vista analítico, os números sugerem que o eleitorado conservador tende a se concentrar em torno de um candidato associado ao bolsonarismo, enquanto lideranças alternativas ainda não demonstram capacidade de romper a lógica de polarização.
Essa dinâmica confirma um padrão observado nas eleições de 2018 e 2022: a disputa presidencial brasileira tende a se organizar em torno de dois blocos políticos dominantes, com candidaturas intermediárias ocupando espaço limitado.
Segundo turno e equilíbrio competitivo
Nas simulações de segundo turno, a pesquisa indica cenários competitivos.
No confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, o levantamento registra 43,8% para Lula e 44,4% para Flávio Bolsonaro, configurando empate técnico dentro da margem de erro.
Quando o adversário é Ratinho Junior, Lula aparece com 43,6%, contra 39,7% do governador do Paraná.
Em uma disputa contra Ronaldo Caiado, Lula registra 45,3%, enquanto o governador de Goiás obtém 36,2%.
Os números indicam que a competitividade eleitoral aumenta significativamente quando a disputa envolve lideranças associadas aos dois principais polos ideológicos do país.
Clivagens regionais e sociopolíticas
A pesquisa também evidencia a persistência de clivagens territoriais profundas no comportamento eleitoral brasileiro.
No Nordeste, Lula mantém ampla vantagem, alcançando 55,5% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro registra 27,6%. Essa região permanece como principal base eleitoral do presidente.
No Sul, ocorre o movimento inverso. Flávio Bolsonaro lidera com 35,5%, enquanto Lula aparece com 25,6%.
No Sudeste, maior colégio eleitoral do país, os dois candidatos aparecem praticamente empatados, com 37,2% para Flávio Bolsonaro e 36,0% para Lula.
Nas regiões Norte e Centro-Oeste, o deputado também apresenta vantagem, registrando 43,3%, enquanto Lula alcança 34,5%.
Esse padrão confirma a permanência de uma geografia eleitoral polarizada, na qual o Nordeste sustenta o campo governista, enquanto parte significativa do Sul, Centro-Oeste e Norte tende a favorecer candidaturas associadas ao campo conservador.
Percepção sobre a reeleição
Outro indicador relevante refere-se à avaliação normativa do eleitorado sobre a permanência do atual presidente no poder.
Segundo o levantamento, 52,2% dos entrevistados afirmam que Lula não merece ser reeleito, enquanto 43,9% consideram que ele merece um novo mandato.
Essa percepção varia de forma significativa conforme características sociais e territoriais. A rejeição à reeleição é mais elevada entre eleitores do Sul, homens e indivíduos com ensino médio, enquanto o apoio é mais expressivo entre beneficiários do Bolsa Família, eleitores do Nordeste e segmentos de menor renda.
Esse padrão revela a influência persistente de políticas de transferência de renda e fatores socioeconômicos na formação das preferências eleitorais.
Estabilidade da polarização e cenário competitivo
Os dados da pesquisa indicam que o sistema eleitoral brasileiro permanece estruturado em torno de uma dinâmica de polarização relativamente estável, consolidada desde o ciclo eleitoral iniciado em 2018. A disputa política nacional continua organizada em torno de dois blocos principais, com bases sociais e geográficas bem definidas. De um lado, o campo político associado ao lulismo, cuja sustentação eleitoral se concentra sobretudo no Nordeste e entre segmentos de menor renda. De outro, o campo bolsonarista, que mantém presença mais robusta no Sul, Centro-Oeste e entre parcelas da classe média urbana.
Nesse contexto, o avanço de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto sugere que o campo conservador preserva capacidade de mobilização eleitoral mesmo após a saída de Jair Bolsonaro do centro direto da disputa presidencial. O desempenho do senador indica que o capital político do bolsonarismo permanece ativo no eleitorado, funcionando como um vetor de reorganização da direita no cenário nacional.
Por outro lado, a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nos cenários de primeiro turno revela que o presidente continua detendo significativa capacidade de agregação política. Esse desempenho se apoia sobretudo em bases eleitorais historicamente alinhadas ao campo progressista, além de segmentos sociais que mantêm identificação com as políticas implementadas durante seus governos anteriores.
Do ponto de vista analítico, o quadro desenhado pela pesquisa sugere que a eleição presidencial de 2026 tende a se desenvolver dentro de um ambiente de competição intensa e altamente polarizada, com a disputa concentrada entre os dois principais polos políticos do país. A estabilidade dessa configuração indica que, salvo alterações estruturais relevantes no cenário político ou econômico, o pleito deverá reproduzir a lógica de confronto ideológico e regional que tem marcado a política brasileira na última década.
Metodologia
A pesquisa entrevistou 2.080 eleitores em 159 municípios distribuídos por todos os estados brasileiros e pelo Distrito Federal. O levantamento possui grau de confiança de 95% e margem de erro estimada de 2,2 pontos percentuais para os resultados nacionais.
A coleta foi realizada por meio de entrevistas presenciais domiciliares, com controle amostral baseado em sexo, faixa etária, escolaridade e renda.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.








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