O primeiro impasse é o do próprio governo. Os números mostram um quadro de aprovação e desaprovação praticamente empatadas, com avaliação negativa superior à positiva. Esse dado, isoladamente, poderia sugerir desgaste político comum. No entanto, quando se cruzam os indicadores econômicos, o diagnóstico torna-se mais claro: a percepção majoritária é de queda no poder de compra, aumento dos preços dos alimentos e piora da economia. Em ciência política, trata-se do fenômeno clássico do voto retrospectivo: o eleitor não reage a discursos ou narrativas abstratas, mas à sensação concreta de bem-estar ou dificuldade material. Quando o carrinho de supermercado pesa mais no bolso, a conta chega ao Palácio do Planalto.
O segundo impasse é o da oposição. Os cenários de primeiro turno indicam que o campo conservador possui densidade eleitoral comparável à do presidente, mas não dispõe de uma liderança alternativa consolidada. O bolsonarismo continua sendo a principal força mobilizadora, porém carrega um teto de rejeição relevante. A própria pesquisa mostra que quase metade do eleitorado afirma não votar em um candidato indicado por Bolsonaro. Isso evidencia um paradoxo: a marca política que garante um piso sólido também limita a expansão. A direita, portanto, enfrenta um dilema estratégico clássico — precisa herdar o capital político do bolsonarismo sem herdar sua rejeição.
O terceiro impasse é social e histórico. O país permanece dividido por linhas que atravessam décadas: região, renda, escolaridade e religião continuam determinando o comportamento eleitoral. O Nordeste sustenta o governo com folga, enquanto o Sul se mostra amplamente oposicionista. Entre os mais pobres, a aprovação é maior; entre os mais ricos e escolarizados, a desaprovação predomina. O mesmo padrão se repete entre católicos e evangélicos. Trata-se de um mapa político que não nasce de eventos recentes, mas de estruturas sociais profundas, consolidadas ao longo de décadas de disputas distributivas, identitárias e culturais.
O resultado geral é um cenário de empate assimétrico. O presidente mantém uma base fiel e competitiva, mas sofre com a percepção econômica negativa. A oposição possui potencial eleitoral semelhante, mas carece de unidade e de um nome capaz de agregar todo o campo. O eleitor, por sua vez, permanece ancorado em suas condições materiais e em sua posição social, respondendo menos a discursos ideológicos e mais ao custo de vida.
Em termos históricos, o quadro lembra outros momentos da política brasileira em que o poder incumbente não era rejeitado de forma absoluta, mas também não era plenamente aprovado. Nessas situações, a eleição tende a ser decidida menos por carisma e mais por variáveis estruturais: renda, inflação, emprego e capacidade de coalizão. Não se trata de uma disputa de slogans, mas de uma equação social.
Se nada alterar esse quadro, a eleição de 2026 tende a ser menos um plebiscito ideológico e mais um julgamento econômico. A política brasileira, que frequentemente se apresenta como teatro de paixões e narrativas, continua obedecendo a uma regra antiga e quase mecânica: quando a vida cotidiana piora, o poder enfraquece; quando a oposição não se organiza, o poder sobrevive. O desfecho dependerá de qual desses vetores se mostrará mais forte no momento decisivo.
Resumo da pesquisa Genial Quaest de fevereiro de 2026
A pesquisa nacional foi realizada pelo instituto Quaest, contratada pela Genial Investimentos, como parte da 22ª rodada de monitoramento eleitoral sobre avaliação de governo e intenção de voto para a Presidência da República.
O levantamento foi realizado entre os dias 5 e 9 de fevereiro de 2026, com 2.004 entrevistas presenciais domiciliares em todo o país. O público-alvo foi composto por brasileiros com 16 anos ou mais. A pesquisa apresenta margem de erro estimada de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
O estudo foi registrado na Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-02429/2026, em 05 de fevereiro de 2026, em conformidade com as exigências legais para divulgação de levantamentos eleitorais.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.










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