O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil vive um momento de fortalecimento de sua credibilidade no cenário internacional, ao fazer um balanço da visita oficial à Índia durante entrevista coletiva concedida neste domingo domingo (22/02/2026), antes do embarque para a Coreia do Sul. O chefe de Estado destacou avanços na agenda comercial, a assinatura de acordos bilaterais e o fortalecimento das relações diplomáticas, além de comentar expectativas sobre um possível encontro com Donald Trump, a atuação do BRICS e a necessidade de reformulação da Organização das Nações Unidas (ONU).
Segundo Lula, a estratégia do governo brasileiro tem sido ampliar a presença econômica do país no exterior e apresentar ao mundo o potencial produtivo nacional. O presidente afirmou que, nos três primeiros anos e dois meses de governo, foram abertos mais de 520 novos mercados para produtos brasileiros, resultado de iniciativas voltadas à expansão comercial e à diversificação das exportações.
De acordo com o presidente, a política externa brasileira busca ampliar parcerias comerciais com diferentes países, sem preferência geográfica ou ideológica. “O Brasil tem interesses comerciais e os desenvolverá com quem quiser negociar, desde que seja uma política de ganha-ganha”, afirmou.
Expansão do comércio exterior brasileiro
Durante a entrevista, Lula destacou a evolução do comércio exterior brasileiro nas últimas duas décadas. Ele recordou que, há cerca de 21 anos, o Brasil comemorava a marca de US$ 100 bilhões em comércio exterior, valor que, segundo o presidente, atualmente ultrapassa US$ 649 bilhões.
O chefe do Executivo afirmou que o objetivo do governo é elevar esse volume para US$ 1 trilhão nos próximos anos, impulsionado pela ampliação das relações comerciais e pela abertura de novos mercados internacionais.
No caso específico da Índia, Lula demonstrou otimismo quanto à expansão do fluxo comercial bilateral. Segundo ele, o primeiro-ministro Narendra Modi propôs uma meta de US$ 20 bilhões em comércio bilateral até 2030, mas o presidente brasileiro afirmou acreditar que o volume pode alcançar US$ 30 bilhões no mesmo período, considerando o potencial econômico das duas nações.
Dados apresentados durante a coletiva indicam que o comércio entre Brasil e Índia superou US$ 15 bilhões em 2025, crescimento de aproximadamente 25% em relação ao ano anterior, atingindo o maior nível já registrado nas relações econômicas entre os dois países.
Acordos bilaterais e cooperação estratégica
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apresentou um balanço detalhado da agenda oficial na Índia e informou que a visita resultou na assinatura de 11 acordos governamentais, além de três instrumentos de cooperação público-privada.
Entre os principais temas contemplados nos acordos estão:
- Defesa e aviação civil e militar
- Comércio e investimentos
- Saúde e indústria farmacêutica
- Ciência, tecnologia e inovação digital
- Energia e minerais críticos
- Cooperação espacial
- Educação e cultura
Também foram firmados instrumentos relacionados à propriedade intelectual, serviços postais, empreendedorismo e certificados de origem, destinados a facilitar o fluxo comercial e institucional entre os dois países.
Segundo Vieira, a agenda bilateral reforça o objetivo de ampliar a cooperação estratégica em setores considerados prioritários para o desenvolvimento tecnológico e industrial.
ApexBrasil amplia presença comercial na Índia
O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Jorge Viana, classificou a missão como uma das mais produtivas da atual gestão do governo brasileiro.
Durante a visita, foi inaugurado um escritório da ApexBrasil em Nova Délhi, voltado ao fortalecimento da presença institucional brasileira no mercado indiano. A iniciativa busca ampliar oportunidades para exportações e investimentos, além de facilitar o contato entre empresas brasileiras e investidores locais.
Segundo Viana, produtos brasileiros já começaram a ser distribuídos em redes de supermercados indianas. Entre os itens citados estão castanha, açaí, limão e outras frutas brasileiras, que passarão a ser comercializados inicialmente em pelo menos 40 lojas em Nova Délhi e Mumbai.
O dirigente também afirmou que negociações estão em andamento para viabilizar um voo direto entre Nova Délhi e o Brasil, medida considerada estratégica para ampliar os fluxos de comércio, turismo e investimentos.
Relação com os Estados Unidos e expectativa de diálogo com Trump
Durante a coletiva, Lula comentou a possibilidade de um encontro com o ex-presidente norte-americano Donald Trump, ressaltando que a pauta de diálogo entre Brasil e Estados Unidos vai além de temas comerciais específicos.
O presidente lembrou que os dois países mantêm 201 anos de relações diplomáticas e defendeu a retomada de uma relação baseada em respeito mútuo e cooperação institucional.
Lula afirmou que pretende discutir com Trump a importância de preservar uma relação bilateral estável, destacando que medidas tarifárias aplicadas aos produtos brasileiros podem gerar impactos econômicos também para o consumidor norte-americano.
Segundo ele, a expectativa é que eventuais divergências comerciais possam ser tratadas por meio de negociação diplomática direta entre os governos.
Defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU
Outro tema abordado pelo presidente foi a necessidade de reforma estrutural da Organização das Nações Unidas, especialmente do Conselho de Segurança, cuja composição permanente permanece inalterada desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Lula afirmou que a atual configuração da ONU apresenta limitações de representatividade e eficácia, destacando a ausência de países da América Latina e da África entre os membros permanentes do Conselho.
O presidente citou como exemplos de nações que poderiam integrar o órgão países como Brasil, Índia, Alemanha, México, Nigéria e Egito, argumentando que uma ampliação da representação internacional poderia fortalecer a capacidade da organização de mediar conflitos e promover estabilidade global.
Segundo Lula, uma reforma institucional seria fundamental para que a ONU volte a exercer um papel mais efetivo na governança internacional.
Papel estratégico do BRICS no equilíbrio geopolítico
Lula também destacou a importância do BRICS como espaço de articulação entre economias emergentes. O presidente afirmou que o grupo reúne países que representam quase metade da população mundial e que sua atuação pode contribuir para um equilíbrio geopolítico global mais amplo.
O presidente lembrou que a criação do Banco do BRICS representa um passo importante para fortalecer mecanismos de financiamento entre países em desenvolvimento.
Segundo ele, o fortalecimento institucional do bloco pode ampliar a cooperação econômica e política entre os países do chamado Sul Global, além de estimular novos formatos de governança internacional.
Lula também mencionou a possibilidade de, no futuro, ocorrer uma convergência entre fóruns multilaterais como G20 e BRICS, o que poderia ampliar o alcance das decisões econômicas globais.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, foi o único chefe de Executivo estadual a integrar a comitiva presidencial.








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