Quaresma é apresentada como tempo de conversão e preparação espiritual para a Páscoa, afirma cardeal Orani Tempesta

A Quaresma é um período de preparação espiritual e conversão interior, voltado para a celebração da Páscoa, e não um tempo destinado à exaltação do sofrimento, segundo reflexão do cardeal Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro. Em mensagem aos fiéis, o religioso ressalta que o período litúrgico de quarenta dias representa um “grande retiro espiritual” que convida à mudança de vida, à penitência e ao reencontro com Deus.

O cardeal afirma que a Igreja propõe a Quaresma como preparação para a vitória pascal, destacando que o período não deve ser interpretado como um tempo de tristeza, mas de amadurecimento espiritual. Segundo ele, o Papa Leão XIV descreveu a Quaresma como a “primavera da alma”, momento de podar os excessos e permitir o crescimento da vida nova.

O simbolismo do número quarenta, recorrente nas Escrituras, reforça o sentido do período. O povo de Israel peregrinou quarenta anos pelo deserto antes de chegar à Terra Prometida; o profeta Elias caminhou quarenta dias até o encontro com Deus; e Jesus jejuou por quarenta dias antes de iniciar sua missão pública. Para o cardeal, esses episódios indicam um tempo necessário de preparação e amadurecimento espiritual.

Conversão e mudança de mentalidade

O arcebispo explica que o sentido central da Quaresma está na palavra grega metanoia, que significa mudança de mentalidade e de direção na vida. Segundo ele, o período convida os fiéis a rever prioridades, abandonar a superficialidade e retomar a sintonia com a vontade divina.

Ele destaca que a cultura contemporânea valoriza a rapidez, a satisfação imediata e o consumo, enquanto a Quaresma propõe o caminho oposto: paciência, disciplina espiritual e processo de conversão. A mudança, segundo o cardeal, não se limita a gestos externos, mas exige transformação interior.

Três dimensões da Quaresma

O cardeal Orani apresenta três eixos principais para compreender o tempo quaresmal: a dimensão batismal, a penitencial e a da Paixão de Cristo.

Dimensão batismal

Nos primeiros séculos do cristianismo, a Quaresma era o período de preparação final para os catecúmenos que receberiam o Batismo na Vigília Pascal. Hoje, o tempo litúrgico mantém esse significado simbólico, convidando os fiéis a renovar as promessas batismais e a retomar a identidade cristã.

Segundo o cardeal, o período funciona como um retiro espiritual para recuperar a dignidade de filhos de Deus e reafirmar a escolha pela vida cristã.

Dimensão penitencial

A segunda dimensão enfatiza a penitência como reconhecimento das fragilidades humanas. O cardeal afirma que práticas como jejum, esmola e oração funcionam como instrumentos de purificação espiritual.

Ele explica que o jejum combate o apego ao conforto, a esmola combate a avareza e a oração combate a soberba. O Papa Leão XIV, segundo o arcebispo, também incentiva o chamado “jejum da indiferença”, que consiste em desenvolver sensibilidade diante do sofrimento alheio.

Dimensão da Paixão

A terceira dimensão recorda o caminho de Cristo rumo à cruz. A Quaresma, segundo o cardeal, convida os fiéis a enfrentar as próprias dificuldades com espírito de fé, entendendo o sofrimento como passagem para a ressurreição.

Ele afirma que os desafios cotidianos — como doenças, crises familiares e violência urbana — podem ser vividos com sentido espiritual quando unidos à experiência de Cristo.

Combate espiritual e busca do silêncio

O cardeal também destaca o aspecto do combate espiritual, afirmando que o período recorda as tentações enfrentadas por Jesus no deserto. Segundo ele, o cristão contemporâneo enfrenta desafios semelhantes, como a busca excessiva por dinheiro, poder e prazer.

Para enfrentar essas tentações, o arcebispo recomenda a leitura diária da Bíblia, a participação nos sacramentos e a confissão. Ele também propõe a criação de espaços de silêncio e oração, em contraste com o ritmo acelerado e barulhento das grandes cidades.

No contexto da Arquidiocese do Rio de Janeiro, o cardeal afirma que a Quaresma pode ajudar a transformar a realidade urbana, marcada por violência e tensões sociais, em espaços de espiritualidade e convivência.

Chamado à conversão e à esperança

Ao final da mensagem, o cardeal exorta os fiéis a viver a Quaresma com seriedade e esperança, sem demonstrar tristeza exterior. Ele afirma que o período prepara a celebração da vida e da ressurreição, convidando os cristãos a abandonar o pecado e retomar o caminho da fé.

O arcebispo também invoca a intercessão de Maria, destacando seu exemplo de fidelidade e coragem diante das dificuldades.


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