O relatório da Polícia Federal (PF) sobre as supostas conexões entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, reserva um trecho dedicado à advogada Roberta Rangel, ex-esposa do ministro, com quem ele foi casado por 12 anos até o início de 2025. O documento, entregue na quarta-feira (11/02/2026) ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, aponta como elementos a serem avaliados, para fins de eventual discussão sobre suspeição ou impedimento, mensagens que tratariam de minutas de contratos e registros de deslocamentos em aeronave relacionados à ex-cônjuge.
Entre os pontos descritos, constam propostas para que Roberta Rangel atuasse em dois temas de interesse de Vorcaro: a Operação Fundo Fake, que investigou fraudes em fundos de pensão municipais em 2020, e a Ação Direta de Constitucionalidade (ADC) 81, que discutiu restrições do Ministério da Educação à criação de cursos de medicina e ingressou no STF em junho de 2022. O relatório menciona que Vorcaro teria encaminhado ao advogado Walfrido Warde “prints” com minutas de contratos: um em 16/12/2020 e outro em 21/09/2022.
O documento também registra uma terceira menção a Roberta Rangel em mensagens atribuídas a Vorcaro no fim de fevereiro de 2025, quando ele teria enviado a um funcionário de empresa ligada à operação de suas aeronaves autorização para que a advogada utilizasse um jatinho Embraer 500 Phenom 300 no trajeto entre Brasília e Ourinhos (SP), em 01/03/2025, durante o carnaval. O aeroporto de Ourinhos é apontado como o mais próximo do resort Tayayá, empreendimento localizado no interior do Paraná, próximo à divisa com São Paulo, associado a participação societária da empresa Maridt, vinculada ao ministro e à sua família.
Procurada, Roberta Rangel negou ter utilizado o avião de Vorcaro e afirmou não ter atuado de fato nas duas frentes mencionadas nas mensagens, embora tenha admitido que, no caso da Operação Fundo Fake, seu nome “pode ter constado” em procuração. Ela aparece como representante do banqueiro em decisão do desembargador Néviton Guedes, do TRF-1. Sobre a ADC 81, disse ter apenas subscrito procuração a pedido de Walfrido Warde, não como representante de Vorcaro, mas de uma associação de escolas (Abrafi), sustentando ainda que, por se tratar de controle concentrado, a atuação não geraria suspeição.
Mensagens sobre aportes ao resort Tayayá
Outro eixo destacado nas reportagens baseadas no material extraído pela PF envolve mensagens em que Vorcaro teria relatado pressões e tratativas sobre pagamentos ligados ao resort Tayayá. As conversas, atribuídas ao banqueiro em diálogos com seu cunhado, o pastor Fabiano Zettel, indicariam que Vorcaro autorizou repasses que, somados, teriam alcançado R$ 35 milhões destinados ao empreendimento.
Segundo os relatos, as mensagens sugerem que Zettel teria atuado como operador de Vorcaro e encaminhado ao banqueiro listas de pagamentos para aprovação. Em maio de 2024, Vorcaro teria cobrado “o aporte” relacionado ao Tayayá. Em agosto de 2024, teria voltado ao tema, questionando a execução do pagamento e pedindo levantamento do que já havia sido feito. Zettel teria respondido mencionando dois repasses: R$ 20 milhões anteriormente e mais R$ 15 milhões posteriormente.
Toffoli declarou que não era administrador nem gestor da Maridt e reiterou, em notas públicas, que não recebeu valores de Vorcaro ou Zettel. O ministro reconheceu ser sócio da empresa familiar e afirmou que a participação societária no empreendimento foi encerrada antes de assumir a relatoria do caso envolvendo o Master no STF, destacando que declarou à Receita os valores vinculados às negociações e que recebeu dividendos da empresa familiar.
Toffoli deixa relatoria do caso Banco Master após pressão interna no STF
Em meio à escalada de tensões internas e externas, o ministro Dias Toffoli deixou na quinta-feira (12/02/2026) a relatoria das investigações relacionadas ao Banco Master no Supremo Tribunal Federal. A decisão ocorreu após reunião reservada convocada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, para apresentação de trechos do relatório pericial da Polícia Federal baseado em dados do celular de Daniel Vorcaro, que mencionavam o ministro e ampliaram a pressão por avaliação de suspeição ou impedimento.
O encontro, descrito por participantes como tenso, durou cerca de três horas e foi dividido em duas etapas: leitura de trechos do relatório por Fachin e, em seguida, exposição de Toffoli, que apresentou argumentos e documentos para rebater interpretações. Após a manifestação do ministro, os demais integrantes do STF se pronunciaram. A avaliação predominante, segundo relatos, era de que a manutenção de Toffoli no caso prolongaria o desgaste institucional.
Ao final, os ministros adotaram uma saída negociada: rejeitaram o reconhecimento formal de suspeição, mas concordaram com a redistribuição do processo, evitando que decisões já tomadas voltassem à estaca zero. Em sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria.
Nota conjunta do STF e preservação dos atos processuais
Após a reunião, os ministros divulgaram nota conjunta informando que não seria cabível a arguição de suspeição, com base em dispositivos do Código de Processo Penal e do Regimento Interno do STF. O texto também registrou o reconhecimento da plena validade dos atos praticados por Toffoli na condução do caso e dos processos vinculados por dependência, além de declarar apoio pessoal ao ministro, sustentando inexistirem impedimentos.
Na prática, a nota buscou resolver duas frentes: conter o desgaste institucional gerado pela crise e preservar a continuidade processual do caso, evitando discussão imediata sobre nulidades. A redistribuição, por outro lado, respondeu ao ambiente de pressão e aos questionamentos públicos sobre a permanência do relator.
Pressão da PGR e intensificação do desgaste
No mesmo dia da decisão, houve sinalizações de que a Procuradoria-Geral da República (PGR) poderia reavaliar manifestação anterior em que se posicionara contra a suspeição de Toffoli. Interlocutores atribuíram à análise detalhada do relatório da PF a tendência de mudança de rota, o que, nos bastidores, aumentou a percepção de que a permanência do ministro se tornara politicamente e institucionalmente insustentável.
Com a redistribuição do caso, a análise dos pedidos de suspeição pela PGR perdeu objeto, embora o conteúdo do relatório siga sob avaliação no âmbito do Ministério Público.
Vazamento da reunião e agravamento da desconfiança interna
A crise se aprofundou com o vazamento de trechos da reunião reservada, atribuídos a conversas internas entre ministros. Integrantes do STF reagiram com indignação e sustentaram que a divulgação agravou o quadro de desconfiança e fragmentação no tribunal. Alguns ministros questionaram a fidelidade do conteúdo vazado, enquanto outros afirmaram que o episódio contribuiu para um ambiente semelhante ao período pré-pandemia, quando disputas internas eram mais visíveis.
As falas atribuídas aos ministros indicariam que parte expressiva do colegiado não via base jurídica para declarar suspeição, mas reconhecia o problema institucional criado pela exposição do caso.
Divergências com a PF e decisões sob questionamento
A atuação de Toffoli na relatoria do caso Master também foi marcada por divergências com a Polícia Federal, incluindo discussões sobre condução de oitivas e delimitação de competências durante diligências. Entre os episódios citados está a controvérsia em torno de procedimentos em dezembro de 2025, quando houve discordância entre integrantes da PF e o gabinete do ministro sobre a condução de perguntas a investigados.
Além disso, uma decisão de janeiro de 2026, determinando que materiais apreendidos em operação fossem lacrados e acautelados nas dependências do STF, gerou críticas e levou o ministro a autorizar posteriormente a extração e análise do material pela PGR e por peritos da Polícia Federal.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agência Brasil.










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