A decisão do ministro Dias Toffoli de deixar a relatoria das investigações envolvendo o Banco Master encerrou, nesta quinta-feira (12/02/2026) uma fase marcada por atritos com a Polícia Federal, suspeitas levantadas em relatório interno, episódios controversos fora do processo e crescente pressão institucional no Supremo Tribunal Federal (STF). O caso foi redistribuído por sorteio ao ministro André Mendonça, que iniciou contatos com a PF para avaliar o estágio das apurações e os próximos desdobramentos.
A saída ocorreu após a apresentação de um relatório de cerca de 200 páginas elaborado pela Polícia Federal, levado pessoalmente ao presidente do STF, Luiz Edson Fachin, e discutido em reunião reservada entre os ministros. Embora a Corte tenha rejeitado por unanimidade o pedido de suspeição, Toffoli concordou em deixar o caso, permitindo a redistribuição.
Investigação sobre fraudes e chegada do caso ao STF
As investigações sobre possíveis fraudes do Banco Master contra o sistema financeiro nacional chegaram ao Supremo em 2 de dezembro de 2025, após pedido da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, apontado pela Polícia Federal como líder do esquema.
O processo passou à Corte por envolver autoridades com prerrogativa de foro. Durante a operação Compliance Zero, investigadores encontraram um envelope com o nome do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) em endereço ligado ao empresário.
A partir desse momento, o STF passou a centralizar as decisões sobre o caso, e Toffoli determinou:
- Sigilo máximo sobre pedidos da defesa;
- Controle prévio da Corte sobre novas diligências;
- Suspensão da condução exclusiva do caso pela Justiça Federal.
Segundo o ministro, qualquer medida deveria ser avaliada pelo Supremo, diante da possibilidade de envolvimento de autoridades com foro.
Primeiros atritos com a Polícia Federal
Um dos primeiros episódios de tensão ocorreu em 24 de dezembro de 2025, quando Toffoli determinou, por iniciativa própria, a realização de depoimentos e uma acareação entre Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor do Banco Central Ailton de Aquino.
A ordem partiu diretamente do gabinete do ministro, sem solicitação prévia dos investigadores. A justificativa foi evitar a manipulação de provas e versões.
Os depoimentos foram realizados em 30 de dezembro de 2025, mas o procedimento resultou em atritos entre o juiz instrutor do gabinete do ministro e a delegada da Polícia Federal responsável pelo caso.
Operação Compliance Zero e disputa sobre perícias
Os conflitos se intensificaram durante a segunda fase da operação Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro de 2026.
Toffoli cobrou explicações da Polícia Federal sobre o atraso na execução de medidas previstas para o dia 13 de janeiro. Segundo o ministro, a demora poderia ter permitido a fuga de um investigado.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, respondeu que o atraso foi comunicado previamente ao STF e decorreu de circunstâncias operacionais, incluindo outras operações complexas em andamento e dificuldades logísticas.
Outro ponto de atrito envolveu a perícia dos materiais apreendidos. Inicialmente, Toffoli determinou que os dados fossem lacrados e enviados ao STF para evitar vazamentos. Horas depois, retirou da Polícia Federal a responsabilidade pela perícia e transferiu a tarefa à Procuradoria-Geral da República.
A PF alertou que a decisão poderia comprometer a investigação, citando risco de autodestruição ou bloqueio remoto de dispositivos eletrônicos. No dia seguinte, o ministro autorizou o acesso aos materiais por quatro peritos da própria PF, indicados por seu gabinete.
Relatório da PF e pedido de suspeição
O relatório da Polícia Federal apontou quatro eixos principais para sustentar a suspeição de Toffoli:
- Relação indireta com investidores ligados ao Banco Master, envolvendo o resort Tayaya, pertencente à família do ministro;
- Atuação da ex-mulher de Toffoli, a advogada Roberta Rangel, em escritório que teve cliente vinculado ao banco;
- Troca de mensagens em que o ministro apareceria como possível aliado de Vorcaro em processo no STF;
- Participação em eventos patrocinados pelo Banco Master.
Entre os episódios citados está a presença de Toffoli no 10º Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024 e patrocinado pela instituição financeira investigada.
O evento também contou com a presença de autoridades de diferentes poderes, incluindo:
- O ministro Alexandre de Moraes;
- O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
A PF não informou, até a publicação das reportagens, quem custeou a viagem e a hospedagem do diretor-geral. O encontro ocorreu em hotel de alto padrão em Londres, com diárias estimadas em cerca de R$ 6.800.
Apesar das alegações, o STF considerou o relatório inepto e rejeitou a suspeição por unanimidade.
Episódios paralelos ampliaram desgaste
A relatoria também foi marcada por controvérsias externas ao processo.
Em 29 de novembro de 2025, Toffoli viajou em avião particular para Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo. O avião pertencia ao empresário Luiz Osvaldo Pastore.
Na viagem estavam:
- O ex-ministro Aldo Rebelo;
- O advogado Augusto de Arruda Botelho, integrante da defesa de um ex-diretor do Banco Master preso na operação.
A divulgação do episódio gerou pressão por um código de conduta mais rigoroso para integrantes do Judiciário.
Contrato ligado à esposa de ministro também entrou no debate
Outro ponto de repercussão pública envolveu a contratação da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, pelo Banco Master.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, o contrato previa honorários de R$ 3,6 milhões por mês, durante 36 meses, totalizando mais de R$ 131 milhões. O contrato nunca foi divulgado integralmente.
O episódio ampliou o debate sobre conflitos de interesse e transparência em relações entre agentes públicos e instituições financeiras investigadas.
Redistribuição e nova condução do caso
Após a reunião interna entre os ministros, o STF rejeitou a suspeição de Toffoli, mas o magistrado concordou em deixar a relatoria. O processo foi redistribuído por sorteio ao ministro André Mendonça.
O novo relator convocou reunião com investigadores da Polícia Federal para:
- Avaliar o estágio das apurações;
- Mapear as provas já produzidas;
- Definir a condução futura do inquérito.
Nos bastidores, interlocutores afirmam que a orientação inicial é de “serenidade e responsabilidade”, evitando ampliar a crise institucional.
Mendonça também deverá analisar a possibilidade de o caso retornar à primeira instância, embora a tendência inicial seja manter o inquérito no STF.
Declarações do governo federal
O ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que a Polícia Federal e o Ministério Público devem ter liberdade para conduzir as investigações.
Segundo ele, o processo deve seguir o devido rito legal, sem pré-julgamentos:
“A Polícia Federal tem liberdade, o Ministério Público tem liberdade, para avaliar e, quando as provas aparecerem, as pessoas terão o direito constitucional de se defender”, afirmou.
Rui também comentou a privatização da rede Cesta do Povo, em 2018, adquirida por empresário ligado ao Banco Master. Ele afirmou que a venda evitou prejuízos anuais de quase R$ 200 milhões aos cofres públicos e só foi viabilizada com a inclusão da operação do cartão consignado CredCesta.
Crise de confiança e disputa de métodos
O episódio revela uma crise institucional que vai além da figura de um único ministro. A sequência de atritos entre o relator e a Polícia Federal expôs um conflito recorrente no sistema brasileiro: o choque entre autonomia investigativa e controle jurisdicional em processos de alto impacto político e financeiro.
A saída de Toffoli, mesmo sem reconhecimento formal de suspeição, indica que a Corte optou por uma solução pragmática para reduzir o desgaste público e preservar a credibilidade do processo. Trata-se de uma decisão que privilegia a estabilidade institucional, ainda que sem resolver as questões de fundo levantadas pela investigação.
O desafio do novo relator será reconstruir a confiança entre os órgãos envolvidos, garantir previsibilidade processual e evitar que disputas internas comprometam a percepção pública sobre a legitimidade do resultado final. Em casos dessa natureza, a dimensão simbólica costuma ser tão relevante quanto a jurídica.










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