EMS compra Medley da Sanofi e amplia liderança no mercado de genéricos no Brasil em negócio estimado em R$ 3,2 bilhões

O grupo farmacêutico brasileiro EMS firmou acordo com a multinacional francesa Sanofi para a aquisição de 100% da Medley, uma das marcas mais tradicionais de medicamentos genéricos no Brasil. O valor oficial da transação não foi divulgado, mas estimativas de mercado apontam para aproximadamente R$ 3,2 bilhões (US$ 600 milhões).

O anúncio foi confirmado na segunda-feira (09/03/2026) após a assinatura do acordo definitivo entre as companhias. A operação ocorre em um momento estratégico para a indústria farmacêutica, marcado pela proximidade da expiração de patentes de medicamentos injetáveis para obesidade e diabetes, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, um segmento que movimenta bilhões de reais no mercado global.

Segundo executivos da EMS, o objetivo da operação é expandir a presença no setor de genéricos e fortalecer a capacidade produtiva nacional, em um cenário de crescente competição internacional e expansão da demanda por medicamentos mais acessíveis.

Disputa entre grandes farmacêuticas

A venda da Medley despertou interesse de diversos grupos farmacêuticos. De acordo com informações divulgadas pelo jornal Valor Econômico, a empresa recebeu propostas da indiana Sun Pharmaceutical Industries e das brasileiras Hypera Pharma, Biolab Farmacêutica e Aché Laboratórios.

A EMS teria superado os concorrentes ao apresentar a proposta financeira mais elevada e ao demonstrar maior sinergia estratégica com os ativos da Medley.

Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, afirmou que o processo de negociação foi altamente competitivo.

“Foi um processo extremamente competitivo, com diversas empresas interessadas. Conseguimos concluir junto com a Sanofi a assinatura de um acordo definitivo para a aquisição da Medley, uma das marcas mais reconhecidas do mercado de genéricos no Brasil”, declarou.

A negociação também reflete a relação comercial já estabelecida entre as duas empresas. Em 2023, a EMS adquiriu da Sanofi a marca Dermacid, de sabonetes íntimos, em uma operação avaliada em R$ 366 milhões.

Expansão no mercado de genéricos

Os medicamentos genéricos são produzidos após o término da patente do medicamento original e contêm os mesmos princípios ativos, dosagens e eficácia terapêutica, permitindo maior concorrência no mercado e redução de preços para os consumidores.

A EMS já ocupa posição dominante nesse segmento. Atualmente, a empresa detém entre 23% e 24% do mercado brasileiro de genéricos.

Com a incorporação da Medley, cuja participação varia entre 7% e 8%, o grupo deve alcançar cerca de 30% do mercado nacional, ampliando significativamente sua liderança.

Apesar do aumento da participação, Sanchez afirmou que não haverá concentração excessiva de mercado, argumentando que o setor é amplamente pulverizado entre diversos fabricantes.

A estrutura produtiva da Medley também será preservada. A fábrica da empresa em Campinas (SP) continuará operando normalmente após a conclusão da transação.

Estratégia ligada às “canetas emagrecedoras”

Analistas avaliam que a aquisição está diretamente associada ao avanço de medicamentos baseados em análogos do hormônio GLP-1, utilizados no tratamento de obesidade e diabetes tipo 2.

Entre esses medicamentos está o Ozempic, cujo princípio ativo é a semaglutida, amplamente utilizado em terapias metabólicas.

A EMS já iniciou movimentos estratégicos nesse segmento. Em 2024, a empresa inaugurou sua primeira fábrica de peptídeos, destinada à produção de medicamentos de alta complexidade.

Recentemente, a companhia lançou dois produtos baseados em liraglutida:

  • Olire, indicado para obesidade
  • Lirux, destinado ao tratamento do diabetes tipo 2

Com a expiração prevista de patentes de medicamentos injetáveis, analistas esperam que empresas brasileiras passem a produzir versões genéricas ou similares dessas terapias.

O mercado global dessas canetas injetáveis é estimado em cerca de R$ 11 bilhões, com expectativa de quase dobrar nos próximos anos com a entrada de versões mais acessíveis.

Possibilidade de ampliação industrial

A aquisição também pode resultar na expansão da capacidade produtiva da EMS.

Segundo a empresa, existe a possibilidade de construção de uma nova fábrica em Manaus, região onde o grupo já possui operações industriais. A iniciativa faria parte da estratégia de ampliação da produção de genéricos e medicamentos de alta complexidade.

Para a CEO do Instituto Qualisa de Gestão, Mara Machado, operações desse tipo refletem uma tendência global de consolidação no setor farmacêutico.

“Movimentos de consolidação como a aquisição da Medley podem ampliar capacidade produtiva, fortalecer a indústria nacional e preparar o mercado para novas alternativas terapêuticas mais acessíveis”, afirmou.

Sanofi redireciona estratégia global

A venda da Medley também reflete mudanças na estratégia da Sanofi.

Segundo especialistas do setor, a farmacêutica francesa busca concentrar investimentos em áreas de maior inovação científica, como:

  • doenças raras
  • oncologia
  • biotecnologia
  • vacinas

A empresa havia adquirido a Medley em 2009, por aproximadamente R$ 1,5 bilhão, em uma estratégia de expansão no mercado de genéricos brasileiro.

De acordo com Fernando Sampaio, presidente da Sanofi Brasil, a venda está alinhada ao reposicionamento global da companhia.

“O acordo reflete nossa estratégia de focar investimentos e expertise em medicamentos biofarmacêuticos inovadores e vacinas”, afirmou.

Manutenção da marca e dos patrocínios

A EMS informou que pretende manter a marca Medley no mercado, aproveitando o reconhecimento da empresa entre médicos, farmácias e consumidores.

Também serão preservados os contratos de patrocínio esportivo atualmente vinculados à Medley, incluindo parcerias com o Comitê Olímpico do Brasil, válidas até 2028.

A empresa também apoia modalidades olímpicas do Clube de Regatas do Flamengo, além de projetos esportivos como o Sesi Vôlei Bauru e atletas individuais, entre eles as ginastas Júlia Soares e Lorrane Oliveira.

Mercado farmacêutico brasileiro em expansão

Para Teresa Cristina Charotta, professora da FIA Business School e especialista em varejo farmacêutico, a operação fortalece a posição da EMS no setor.

Segundo ela, além da escala produtiva, a empresa poderá herdar parte da base de consumidores e parcerias estratégicas da Medley, incluindo colaborações com companhias como a AstraZeneca.

Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindusfarma, avalia que a aquisição demonstra a força da indústria nacional.

O setor farmacêutico brasileiro registrou crescimento médio de 10% ao ano, movimentando aproximadamente R$ 226 bilhões em 2025.

Desse total:

  • R$ 194 bilhões correspondem a medicamentos de marca
  • R$ 32 bilhões referem-se a medicamentos genéricos

Aprovação regulatória ainda é necessária

A conclusão definitiva da transação depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Até que o processo seja finalizado, a Sanofi continuará responsável pela administração da Medley.

Executivos da EMS avaliam que, devido à pulverização do mercado de genéricos, a análise regulatória não deve encontrar obstáculos significativos e pode ser concluída ainda em 2026.


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