A tradicional Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, celebrada há mais de 150 anos no município de Lençóis, na Chapada Diamantina, foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão foi aprovada na quarta-feira (11/03/2026), por unanimidade durante reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, consolidando o reconhecimento institucional de uma das manifestações religiosas e culturais mais emblemáticas do interior baiano.
O registro nacional reforça o valor histórico e simbólico da celebração, profundamente vinculada à formação social da Chapada Diamantina e à memória da atividade garimpeira que marcou a ocupação da região no século XIX. Além de reconhecer a relevância da festividade, o processo conduzido pelo Iphan estabelece instrumentos de salvaguarda destinados à preservação das práticas religiosas, culturais e comunitárias associadas à tradição.
Origem histórica da devoção e relação com o garimpo
A origem da Festa de Senhor dos Passos remonta ao período do ciclo do diamante na Chapada Diamantina, quando Lençóis se consolidou como um dos principais centros de exploração mineral do Brasil no século XIX.
De acordo com registros históricos e com a tradição local, a devoção teve início em 1852, quando comerciantes e garimpeiros encomendaram em Portugal a imagem de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos. Após atravessar o oceano até Salvador, a imagem seguiu para o Recôncavo Baiano, chegando inicialmente à cidade de Cachoeira.
A partir dali, percorreu o Rio Paraguaçu e o Rio Santo Antônio até um porto fluvial situado a cerca de doze quilômetros de Lençóis. Segundo a tradição oral preservada na região, os garimpeiros receberam a imagem e a conduziram em procissão até a cidade, gesto que marcou o início da devoção.
Alguns anos depois, em 1855, foi construída uma capela dedicada ao santo, consolidando o culto religioso que daria origem à celebração anual.
Festa celebra o santo protetor dos garimpeiros
Ao longo do tempo, a festividade tornou-se conhecida como a celebração do padroeiro dos garimpeiros de Lençóis. Para os trabalhadores que buscavam diamantes nas Lavras Diamantinas, o santo representava proteção espiritual, esperança e agradecimento pela sobrevivência e pela sorte nas lavras.
Diferentemente de outras festas dedicadas ao Senhor dos Passos no Brasil — geralmente associadas às procissões penitenciais da Paixão de Cristo —, a celebração de Lençóis possui caráter festivo e comunitário.
A procissão é marcada por marchas e dobrados executados por filarmônicas locais, criando uma atmosfera de celebração e gratidão. Entre as músicas mais tradicionais estão o Hino de Senhor dos Passos e a Canção do Garimpeiro, que simbolizam a alegria e a devoção associadas à festa.
Historicamente, o momento representava para os garimpeiros uma forma pública de agradecimento ao santo pela proteção e pela descoberta de diamantes, reforçando o vínculo entre fé, trabalho e identidade local.
Programação religiosa e rituais tradicionais
A celebração ocorre anualmente entre os dias 23 de janeiro e 3 de fevereiro, mobilizando moradores, visitantes e grupos culturais da região.
A programação tradicional inclui diferentes rituais religiosos e manifestações culturais, entre eles:
- Lavagem das escadarias da Igreja de Nosso Senhor dos Passos, realizada pelas baianas com água de cheiro e flores
- Período de novenário e celebrações litúrgicas
- Missas solenes e procissões pelas ruas do centro histórico de Lençóis
- Bênção especial aos garimpeiros na sede da Sociedade União dos Mineiros
O ponto culminante da festa ocorre em 2 de fevereiro, data que celebra a chegada histórica da imagem do santo à cidade.
No dia seguinte, 3 de fevereiro, realiza-se a cerimônia de encerramento com bênção aos garimpeiros, preservando um dos rituais mais tradicionais associados à memória da mineração na região.
Manifestações culturais associadas à celebração
A Festa de Senhor dos Passos não se limita aos rituais religiosos. Ela também reúne diversas expressões culturais que compõem a identidade histórica da Chapada Diamantina.
Entre as manifestações presentes nos festejos estão:
- Filarmônicas e bandas tradicionais
- Marujadas e reisados
- Grupos de baianas
- Capoeira
- Práticas espirituais da tradição do Jarê
Essas expressões revelam a convergência de diferentes matrizes culturais, incluindo o catolicismo popular, tradições afro-brasileiras e elementos da cultura garimpeira.
O conjunto dessas manifestações constitui um patrimônio cultural vivo, transmitido ao longo de gerações e preservado pela comunidade local.
Processo de registro conduzido pelo Iphan
O processo de reconhecimento da festividade como patrimônio cultural brasileiro teve início em 2015, quando a Sociedade União dos Mineiros (SUM) apresentou ao Iphan o pedido de registro da celebração.
A partir dessa solicitação, o Instituto desenvolveu estudos históricos, antropológicos e culturais, ouvindo representantes da comunidade e analisando a relevância social da celebração.
O dossiê elaborado pelo órgão destacou que a festa representa uma memória coletiva associada à sociedade das Lavras Diamantinas, constituindo importante referência cultural para a região.
Com base nesses estudos técnicos, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan aprovou o registro da celebração como Patrimônio Cultural do Brasil, garantindo a adoção de medidas de salvaguarda para a continuidade da tradição.
Festa integra o conjunto de patrimônios culturais da Bahia
O reconhecimento da festa reforça o papel da Bahia como um dos estados brasileiros com maior diversidade de bens culturais registrados.
Entre os exemplos de patrimônios imateriais associados ao estado estão:
- Samba de Roda do Recôncavo Baiano, inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão e reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade
- Ofício das Baianas de Acarajé, inscrito no Livro de Registro dos Saberes
- Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira
- Festa do Senhor do Bonfim, uma das mais tradicionais manifestações religiosas do país
Além desses bens imateriais, o estado abriga importantes patrimônios materiais, como o Centro Histórico de Salvador, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial.
A inclusão da Festa de Senhor dos Passos de Lençóis nesse conjunto reforça a relevância cultural da Chapada Diamantina no cenário nacional.








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