Governador Ronaldo Caiado é lançado pelo PSD à presidência da República e recoloca debate sobre terceira via no centro das Eleições 2026

O lançamento nesta segunda-feira (30/03/2026) do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), como nome do partido para a corrida presidencial de 2026 reposiciona o PSD no tabuleiro eleitoral e reabre, ao menos formalmente, a discussão sobre uma candidatura alternativa à polarização dominante no país. A definição foi confirmada pelo presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, após a retirada de Ratinho Junior da disputa interna, e ocorre num contexto em que o campo do centro continua buscando viabilidade eleitoral, discurso nacional coeso e densidade programática suficiente para romper a lógica binária entre lulismo e bolsonarismo.

A oficialização de Caiado encerra um período de indefinição dentro do PSD, que mantinha em aberto, até os últimos dias, a possibilidade de lançar outros dois governadores da sigla: Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Com a saída de Ratinho do páreo, Caiado passou a concentrar o capital político disponível para a construção de uma candidatura própria do partido à Presidência.

A decisão também tem peso simbólico. O PSD, historicamente hábil na composição de alianças e na ocupação pragmática do centro político, optou por abandonar, ao menos neste momento, a posição de força auxiliar para apresentar candidatura própria. Em declarações reproduzidas nesta segunda-feira, Kassab afirmou que o Brasil “vai ser melhor” se Caiado for presidente, sinalizando que a legenda pretende dar ao governador goiano a condição de postulante efetivo, e não apenas de instrumento de negociação futura.

Ratinho Junior reagiu publicamente à escolha e elogiou o correligionário, afirmando que o PSD deu “um exemplo do seu compromisso com a democracia” ao apostar num nome reconhecido, segundo ele, pela atuação em áreas como educação e segurança. O gesto reduz ruídos internos imediatos, mas não elimina a questão central: transformar uma escolha partidária em candidatura nacional competitiva continua sendo um desafio muito mais complexo do que resolver a disputa doméstica dentro da sigla.

Trajetória política e capital acumulado

Caiado chega ao lançamento com trajetória longa e conhecida no cenário nacional. Governador de Goiás em dois mandatos, eleito em 2018 e 2022, ele também foi senador entre 2015 e 2018 e deputado federal por cinco mandatos. Sua presença na política nacional não é recente: em 1989, concorreu à Presidência da República, terminando o pleito em décimo lugar.

Esse histórico lhe oferece dois ativos claros. O primeiro é a experiência institucional, frequentemente valorizada por partidos que tentam apresentar moderação administrativa e previsibilidade. O segundo é a identificação com segmentos conservadores, especialmente fora do eixo estritamente bolsonarista, algo que pode permitir ao PSD disputar uma fração do eleitorado de direita sem depender integralmente do sobrenome Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, a própria biografia de Caiado delimita seu teto e suas dificuldades. Sua imagem é fortemente associada ao agronegócio, ao conservadorismo e ao Centro-Oeste, o que pode favorecer a consolidação regional, mas não garante, por si só, capilaridade nacional bastante para disputar com máquinas eleitorais mais robustas, identidades políticas mais sedimentadas e redes digitais mais disciplinadas.

A desistência de Ratinho e o esvaziamento da alternativa centrista

A retirada de Ratinho Junior foi decisiva para a ascensão de Caiado, mas também revelou a fragilidade da tentativa de estruturação de uma terceira via competitiva. Reportagens publicadas nos últimos dias apontaram que a desistência do governador paranaense decorreu de uma combinação de fatores políticos, familiares e estratégicos, incluindo o cálculo de preservar o próprio espaço no Paraná e evitar desgaste decorrente de temas potencialmente sensíveis na disputa nacional.

Com Ratinho fora, o PSD resolveu uma incerteza, mas não solucionou o problema maior do centro político brasileiro: a falta de uma liderança que reúna simultaneamente densidade eleitoral, clareza programática e capacidade de furar a lógica da polarização. A experiência recente mostra que candidaturas alternativas conseguiram existir, mas não romper a barreira que separa intenção residual de competitividade real. O desempenho de candidaturas de centro em 2018 e 2022 permanece como advertência histórica sobre a dificuldade dessa operação.

Mesmo assim, o espaço político não desapareceu. Parte do eleitorado brasileiro segue desalinhada dos polos mais ideológicos e manifesta cansaço com a radicalização permanente. O problema é que esse contingente, embora numericamente relevante, costuma ser disperso, heterogêneo e de difícil mobilização, sobretudo quando os extremos dominam a agenda, a emoção da disputa e a atenção pública.

Polarização, centro político e déficit programático

A escolha de Caiado tem valor político imediato, mas o teste decisivo será programático. O centro brasileiro, em regra, fracassa quando tenta existir apenas como recusa aos extremos. Uma candidatura alternativa precisa formular posição nítida sobre economia, segurança pública, programas sociais, reforma do Estado, federação, produtividade e governabilidade. Sem isso, torna-se apenas uma abstração retórica.

Esse é um ponto sensível para o PSD. Até aqui, o partido é percebido mais como engrenagem de poder e administração territorial do que como força portadora de um projeto nacional definido. A legenda tem presença institucional, quadros relevantes e musculatura parlamentar, mas ainda precisa demonstrar ao eleitorado qual proposta distingue sua candidatura tanto do lulismo governista quanto da direita bolsonarista.

Há, portanto, uma contradição estrutural: o sistema político reconhece a saturação da polarização, mas as organizações que pretendem superá-la raramente apresentam uma arquitetura de país clara, contínua e inteligível. Sem essa base, a chamada terceira via volta a parecer mais uma aspiração de elites políticas e econômicas do que um movimento socialmente enraizado.

*Com informações da Revista Veja, IstoÉ Dinheiro e Congresso em Foco.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading