A morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, ocorrido no dia 28 de fevereiro de 2026 (sábado), durante ataques atribuídos a Estados Unidos e Israel desencadeou uma das mais graves crises políticas da República Islâmica desde a Revolução de 1979. Em meio a bombardeios contínuos e a uma escalada militar regional, divisões internas começaram a emergir dentro da elite governante iraniana, expondo tensões entre facções linha-dura e setores mais pragmáticos do regime enquanto o país tenta definir a sucessão do comando supremo.
A instabilidade tornou-se visível após declarações do presidente Masoud Pezeshkian, que prometeu evitar novos ataques contra países do Golfo e chegou a pedir desculpas por ofensivas recentes. A manifestação provocou reação imediata de líderes conservadores e da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), revelando divergências estratégicas sobre a condução da guerra e sobre o posicionamento diplomático do país em meio à pressão militar externa.
Ao mesmo tempo, clérigos e instituições religiosas aceleraram discussões sobre a escolha de um novo líder supremo. Segundo fontes citadas pela Reuters, uma decisão poderá ocorrer nos próximos dias, embora não haja consenso sobre quem terá capacidade política e religiosa suficiente para ocupar o posto que por décadas concentrou o poder do Estado iraniano.
Estrutura de poder do Irã entra em fase de tensão
A estrutura política iraniana é singular no cenário internacional. Embora possua presidente eleito, governo e parlamento, todos os poderes civis permanecem subordinados ao líder supremo, figura clerical que detém autoridade final sobre as forças armadas, a política externa e os principais órgãos de segurança.
Durante 36 anos de liderança, Ali Khamenei exerceu papel de árbitro entre as diferentes correntes políticas do regime, administrando rivalidades entre conservadores e pragmáticos enquanto mantinha controle sobre a Guarda Revolucionária e os aparatos de segurança.
Com sua morte, essa capacidade de arbitragem desapareceu repentinamente. A condução do país passou a um conselho interino constitucional, formado pelo presidente Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário, aiatolá Gholamhossein Mohseni-Ejei, e por um clérigo ligado ao Conselho dos Guardiães.
Mesmo nesse órgão de transição, divergências tornaram-se evidentes. Enquanto Pezeshkian buscou adotar um tom conciliatório em relação aos países vizinhos do Golfo, o chefe do Judiciário declarou publicamente que Estados da região permitiram o uso de seus territórios para ataques contra o Irã, afirmando que os bombardeios iranianos continuariam.
Guarda Revolucionária amplia influência em meio à guerra
A guerra em curso ampliou o papel estratégico da Guarda Revolucionária Islâmica, considerada o núcleo de poder militar e político da República Islâmica.
Apesar de perdas significativas entre seus comandantes — decorrentes da campanha militar conduzida por Israel e Estados Unidos —, a organização tem assumido protagonismo na formulação da estratégia de defesa e resposta militar.
Especialistas indicam que, em tempos de conflito, o poder tende a se concentrar ainda mais no aparato de segurança. Segundo o pesquisador Alex Vatanka, do Middle East Institute, a voz dominante nesse momento não é a liderança civil, mas sim a Guarda Revolucionária.
Fontes iranianas afirmaram que as declarações conciliatórias do presidente Pezeshkian irritaram profundamente setores da organização. Após a reação negativa, o presidente publicou nova mensagem nas redes sociais reiterando sua posição, mas retirando o pedido explícito de desculpas aos países do Golfo, movimento interpretado como uma retratação parcial.
Disputa pela sucessão do líder supremo se intensifica
Enquanto a guerra prossegue, a Assembleia de Peritos, órgão clerical responsável pela escolha do líder supremo, enfrenta pressão para acelerar o processo sucessório.
Entre os nomes mais citados está Mojtaba Khamenei, filho do líder assassinado. Ele é considerado favorito por possuir apoio de setores da Guarda Revolucionária e do gabinete de seu pai. Ainda assim, sua candidatura enfrenta resistência.
O clérigo não ocupa posição religiosa equivalente à de muitos aiatolás influentes e é visto com desconfiança por moderados dentro do sistema político iraniano.
Outras figuras mencionadas como possíveis alternativas incluem:
- Gholamhossein Mohseni-Ejei, chefe do Judiciário e figura de linha-dura
- Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini
- Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional
- Mohammad Baqer Qalibaf, presidente do parlamento
Analistas avaliam que, diante da guerra e do risco de novos assassinatos políticos, os clérigos podem optar por adiar a nomeação de um líder definitivo, mantendo um modelo de liderança coletiva temporária.
Pressão militar externa amplia crise política
A crise política interna ocorre paralelamente à intensificação das operações militares conduzidas por Estados Unidos e Israel.
Autoridades israelenses afirmam que a campanha militar continuará até que a capacidade de mísseis balísticos do Irã seja neutralizada. Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Oren Marmorstein, o objetivo estratégico da operação é eliminar uma ameaça considerada existencial para o Estado israelense.
Fontes com conhecimento do planejamento militar conjunto entre Washington e Tel Aviv indicam que novos ataques poderão atingir instituições políticas e estruturas de segurança iranianas, numa tentativa de enfraquecer o regime e pressionar suas bases de sustentação.
Ao mesmo tempo, líderes internacionais, incluindo o presidente russo Vladimir Putin, pediram a interrupção imediata das hostilidades, alertando para o risco de uma escalada regional de grandes proporções.
Risco de instabilidade política interna
Analistas apontam que a estabilidade do regime dependerá essencialmente da coesão da Guarda Revolucionária e das forças de segurança.
O sistema político iraniano foi estruturado para sobreviver à perda de líderes individuais, distribuindo poder entre instituições religiosas, militares e políticas. Ainda assim, a combinação de guerra externa, sucessão incerta e tensões internas representa um teste sem precedentes.
Especialistas destacam três fatores centrais que determinarão o futuro político do país:
- a capacidade das forças de segurança de manter o controle interno
- a habilidade da elite governante em chegar a um consenso sobre a sucessão
- a possibilidade de protestos populares reacenderem diante da crise
Caso manifestações em grande escala retornem, o cenário poderia incluir deserções nas forças de segurança e disputas mais abertas dentro do regime.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.








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