Domingo, 01/03/2026 — O projeto Repense Reuse, desenvolvido pela organização Humana Brasil, encerrou o ano de 2025 com 829 toneladas de resíduos têxteis recolhidos em quatro unidades da federação — Bahia, Pernambuco, Sergipe e Distrito Federal — consolidando uma das principais iniciativas de logística reversa e economia circular no setor de moda no país. Os dados indicam expansão significativa da operação no Nordeste, com destaque para a Bahia, responsável por 546 toneladas recolhidas, seguida por Pernambuco, com 107 toneladas, Sergipe, com 77 toneladas, e Brasília, com 97 toneladas.
A iniciativa atua no recolhimento, triagem e reaproveitamento de roupas, calçados e acessórios descartados pela população, com o objetivo de reduzir o volume de resíduos têxteis enviados a aterros sanitários, estimular o consumo consciente e fortalecer cadeias econômicas ligadas à reutilização de materiais.
Ao longo de 2025, o programa ampliou sua rede de pontos de coleta e fortaleceu centros de triagem, consolidando um modelo de gestão de resíduos alinhado às diretrizes de ESG (ambiental, social e governança) e às políticas de sustentabilidade urbana.
A indústria da moda e o desafio global dos resíduos têxteis
A expansão de iniciativas de logística reversa ocorre em um contexto de crescente preocupação internacional com o impacto ambiental da indústria da moda. Estimativas de organismos multilaterais indicam que o setor responde por aproximadamente 10% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂), além de elevado consumo de água e geração de grandes volumes de resíduos sólidos.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o planeta descarta o equivalente a um caminhão de lixo têxtil por segundo, resultando em cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos por ano. Apesar desse volume, menos de 1% dos materiais utilizados na produção de roupas retorna ao ciclo produtivo na forma de novas peças.
Além da geração de resíduos, a cadeia produtiva da moda apresenta outros impactos ambientais relevantes. Tecidos sintéticos, como poliéster, nylon e acrílico, liberam microplásticos durante processos de lavagem, contaminando cursos d’água e ambientes marinhos. Já fibras naturais, como o algodão convencional, também possuem pegada ambiental significativa: a produção de uma única calça jeans pode consumir até 10 mil litros de água, considerando todas as etapas produtivas.
Nesse cenário, o descarte inadequado de roupas e acessórios amplia a pressão sobre sistemas urbanos de gestão de resíduos e contribui para a emissão de gases de efeito estufa.
Logística reversa como alternativa para reduzir impactos ambientais
O Repense Reuse atua justamente no estágio pós-consumo da cadeia têxtil, frequentemente negligenciado pelas estruturas tradicionais de gestão de resíduos. O modelo operacional baseia-se na instalação de contêineres de coleta em locais de grande circulação, como centros comerciais, parques urbanos, ecoestações e espaços públicos.
Após a coleta, os materiais passam por processos estruturados de triagem e classificação, que determinam seu destino. As peças em bom estado são destinadas à reutilização e revenda, enquanto itens com maior desgaste podem seguir para reaproveitamento criativo ou reciclagem.
De acordo com Claudia Andrade, executiva de implementação do Repense Reuse, a reutilização de roupas possui impacto direto na redução de emissões.
“Quando uma peça de roupa é reutilizada, evita-se não apenas o descarte de resíduos sólidos, mas também a emissão de CO₂ que seria gerada na produção de um novo item. Trabalhar a reutilização e o consumo consciente é uma ação direta no combate à crise climática.”
Além da dimensão ambiental, o projeto gera oportunidades econômicas em áreas como logística, comércio de segunda mão e empreendedorismo local, integrando sustentabilidade e desenvolvimento social.
Bahia lidera coleta de têxteis e amplia rede de pontos de entrega
A Bahia consolidou-se em 2025 como o principal polo operacional do Repense Reuse no Brasil, com 291 pontos ativos de coleta distribuídos entre Salvador e municípios estratégicos do interior e da Região Metropolitana.
Entre as cidades com maior participação estão Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, onde a presença de contêineres facilita o descarte responsável de roupas e amplia o alcance da iniciativa em áreas com grande densidade populacional.
O volume de 546 toneladas recolhidas ao longo do ano posiciona o estado como referência regional em logística reversa têxtil. A expansão territorial da rede de coleta contribui para reduzir a pressão sobre aterros sanitários e fortalecer práticas de consumo sustentável.
A presença em cidades com forte atividade comercial e logística também favorece a formação de cadeias locais de reaproveitamento de materiais e revenda de roupas reutilizadas.
Pernambuco fortalece triagem e prepara expansão comercial
Em Pernambuco, a expansão do Repense Reuse em 2025 concentrou-se na Região Metropolitana do Recife, onde foram instalados 93 coletores de resíduos têxteis. No período entre maio e dezembro, a operação registrou 107 toneladas de materiais recolhidos.
Um dos marcos da operação no estado foi a consolidação do Centro de Triagem do Recife, responsável pela separação técnica das peças coletadas. No local, roupas em boas condições são direcionadas para reutilização e comercialização, enquanto itens sem condições de uso seguem para reaproveitamento criativo.
O centro também gera postos de trabalho formais e oportunidades de capacitação, integrando a cadeia da economia circular ao mercado local.
Para 2026, está prevista a inauguração de uma loja second hand da Humana Brasil em Pernambuco, ampliando a rede comercial vinculada ao reaproveitamento de roupas.
Sergipe e Distrito Federal ampliam rede de coleta
A operação do projeto também se expandiu em Aracaju (SE) e Brasília (DF), fortalecendo a capilaridade do programa.
Na capital sergipana, a iniciativa mantém 65 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) distribuídos pela cidade. Os materiais recolhidos são encaminhados para Lauro de Freitas (BA), onde passam por triagem antes de serem destinados à reutilização, reciclagem criativa ou coprocessamento.
Somente em 2025, 77 toneladas de têxteis foram recolhidas em Aracaju, ampliando a participação da cidade na cadeia de logística reversa.
Já em Brasília, a rede conta com 75 pontos de coleta, que registraram 97 toneladas de resíduos têxteis arrecadados ao longo do ano.
Lojas Humana fortalecem modelo de moda circular
Um dos pilares do ecossistema Repense Reuse são as Lojas Humana, responsáveis pela comercialização das peças reutilizadas.
Em Salvador, as unidades localizadas em bairros como Itapuã, Piedade, Uruguai e Cajazeiras tornaram-se pontos consolidados de venda de roupas de segunda mão. O modelo inclui também lojas de atacado, voltadas a microempreendedores locais que revendem as peças em pequenos comércios.
A receita obtida com a venda das roupas é direcionada para financiamento de projetos sociais, ampliando o impacto da iniciativa.
O modelo integra três dimensões principais:
- Redução de resíduos têxteis
- Geração de renda e empreendedorismo
- Financiamento de iniciativas sociais








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