A possível contratação do publicitário João Santana para comandar a estratégia de comunicação da pré-campanha de ACM Neto (União Brasil) ao governo da Bahia passou a gerar forte repercussão política e críticas dentro do campo conservador. Conhecido por ter conduzido campanhas presidenciais no Brasil e no exterior — incluindo as de Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela — Santana pode assumir o marketing do principal adversário do PT no estado nas eleições de 2026.
A hipótese ganhou força após o próprio ACM Neto confirmar nesta quarta-feira (04/03/2026) que mantém negociações com o marqueteiro. Embora tenha ressaltado que ainda não existe contrato formal assinado, a possibilidade de um acordo abriu uma discussão sobre coerência política e estratégia eleitoral dentro da direita baiana.
ACM Neto confirma conversas com João Santana
Em declaração recente, o ex-prefeito de Salvador reconheceu que mantém negociações com João Santana, mas afirmou que o acordo ainda depende de ajustes técnicos e contratuais.
Segundo ACM Neto, a avaliação sobre o publicitário é baseada em sua experiência no marketing político.
“João Santana é um dos profissionais mais qualificados do marketing político do Brasil. Já provou isso elegendo presidentes da República. Existe o desejo de avançar nas conversas, mas ainda não assinamos contrato.”
Aliados do dirigente do União Brasil indicam que a decisão final pode ocorrer ainda durante o mês de março, caso as tratativas avancem.
O estrategista por trás de campanhas de Lula, Chávez e Maduro
João Santana construiu uma trajetória singular no marketing político internacional. No Brasil, comandou campanhas presidenciais decisivas para o Partido dos Trabalhadores, incluindo a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e as campanhas de Dilma Rousseff em 2010 e 2014.
Sua atuação também se estendeu à política latino-americana.
Entre os trabalhos mais conhecidos estão:
- a reeleição de Hugo Chávez na Venezuela em 2012
- a campanha presidencial de Nicolás Maduro em 2013, após a morte de Chávez
Essas campanhas ocorreram em um contexto de forte polarização política na Venezuela e consolidaram Santana como um dos principais estrategistas eleitorais da região.
Posteriormente, o regime venezuelano se tornaria alvo de pressões internacionais e sanções diplomáticas, especialmente por parte do governo dos Estados Unidos durante a administração de Donald Trump.
Histórico judicial na Lava Jato
A carreira do marqueteiro também foi marcada por controvérsias judiciais.
Em fevereiro de 2016, João Santana foi preso durante a Operação Lava Jato sob acusação de lavagem de dinheiro relacionada a pagamentos recebidos por campanhas eleitorais. Posteriormente, ele firmou acordo de colaboração premiada e admitiu ter recebido recursos em contas no exterior vinculadas a serviços de marketing político.
Embora tenha retornado ao mercado eleitoral após cumprir medidas judiciais, o episódio continua sendo citado por críticos como elemento de desgaste político.
Críticas de bolsonaristas ampliam pressão sobre a pré-campanha
A possibilidade de Santana assumir o marketing da campanha de ACM Neto passou a provocar reações entre setores bolsonaristas da Bahia.
Para parte desse grupo político, a contratação de um estrategista que atuou em campanhas do PT e também em campanhas do chavismo venezuelano representaria uma contradição com o discurso oposicionista adotado pela direita.
Nas redes sociais e em círculos políticos ligados ao bolsonarismo, críticos passaram a questionar a coerência da eventual parceria.
Entre os principais argumentos levantados estão:
- a ligação histórica de Santana com campanhas do PT
- sua atuação em campanhas do regime chavista na Venezuela
- o histórico judicial do marqueteiro na Operação Lava Jato
Para esses setores, a possível contratação poderia enfraquecer a identidade ideológica da candidatura e gerar desconforto entre eleitores conservadores.
Impacto político dentro da direita baiana
O debate também atinge diretamente a dinâmica da oposição no estado.
A pré-campanha de ACM Neto tenta construir uma frente ampla contra o grupo político liderado pelo PT na Bahia, que governa o estado desde 2007. Para isso, o ex-prefeito busca ampliar alianças políticas e fortalecer a comunicação eleitoral.
No entanto, a escolha de um marqueteiro com trajetória vinculada a governos petistas e a líderes da esquerda latino-americana introduz um elemento de tensão dentro da base conservadora.
Analistas políticos apontam que a decisão final poderá influenciar a capacidade de mobilização do eleitorado de direita, especialmente em um cenário em que o bolsonarismo mantém presença relevante no estado.
Pragmatismo eleitoral ou incoerência política
A eventual parceria entre ACM Neto e João Santana ilustra um dilema recorrente na política brasileira: a tensão entre pragmatismo eleitoral e coerência ideológica.
Sob a perspectiva estratégica, contratar um profissional experiente pode representar uma tentativa de fortalecer a competitividade da campanha.
Contudo, no plano simbólico, a escolha também carrega implicações políticas evidentes. A presença de um marqueteiro responsável por campanhas de Lula, Dilma, Hugo Chávez e Nicolás Maduro à frente da comunicação de um candidato que se apresenta como alternativa ao campo petista tende a se tornar um dos temas mais explorados no debate eleitoral.
Se a parceria for confirmada, a campanha de ACM Neto terá de administrar esse contraste diante de um eleitorado que, em parte, se identifica justamente pela oposição a esses projetos políticos.
Na arena eleitoral, escolhas de bastidores frequentemente se transformam em símbolos públicos — e símbolos, em política, costumam ter impacto muito além da estratégia de marketing.








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