Bahia muda de perfil: mais idosos, mais pessoas sozinhas e menos famílias tradicionais

Na sexta-feira (17/04/2026), dados consolidados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), do IBGE, indicam que a Bahia atingiu, em 2025, a segunda maior proporção de domicílios unipessoais do Brasil (22,3%), refletindo transformações estruturais no perfil demográfico e habitacional do estado. O avanço foi impulsionado principalmente pelo crescimento da população idosa, que passou a representar 16,6% dos habitantes, e pela ampliação do número de pessoas vivendo sozinhas, que aumentou 15,2% em relação a 2024, totalizando 1,263 milhão de residências com apenas um morador.

Crescimento populacional lento e envelhecimento acelerado

A população baiana alcançou 14,850 milhões de pessoas em 2025, mantendo-se como a quarta maior do país. Apesar disso, o crescimento foi de apenas 0,1% em relação a 2024, um dos mais baixos do Brasil, evidenciando um processo de desaceleração demográfica.

O dado mais relevante, contudo, está no envelhecimento populacional. O contingente de pessoas com 60 anos ou mais cresceu 7,2% em um ano, alcançando 2,464 milhões de indivíduos. Esse grupo etário foi o principal responsável pelo aumento populacional recente, consolidando uma tendência observada ao longo da última década.

Em perspectiva histórica, o crescimento da população idosa foi ainda mais expressivo: 64,9% desde 2012, o que evidencia uma mudança estrutural profunda na composição demográfica do estado, com impactos diretos sobre políticas públicas, mercado de trabalho e organização familiar.

Avanço dos domicílios unipessoais redefine arranjos familiares

O aumento do número de pessoas vivendo sozinhas representa uma das mudanças mais significativas na dinâmica habitacional da Bahia. Em 2025, 1 em cada 5 residências do estado era ocupada por apenas uma pessoa, consolidando uma tendência de fragmentação dos núcleos familiares tradicionais.

Entre 2024 e 2025, o número de pessoas morando sozinhas cresceu em 167 mil, sendo que quase metade desse avanço (82 mil) foi composta por idosos, o que confirma a forte relação entre envelhecimento populacional e expansão dos domicílios unipessoais.

A distribuição por faixa etária mostra que:

  • 48,1% das pessoas que vivem sozinhas têm entre 30 e 59 anos
  • 40,2% são idosas
  • 11,6% são jovens entre 15 e 29 anos

Além disso, há uma diferença de gênero relevante: homens representam 58% das pessoas que moram sozinhas, enquanto entre os idosos, as mulheres são maioria.

Redução dos arranjos familiares tradicionais

O crescimento dos domicílios unipessoais ocorre paralelamente à perda de participação dos modelos familiares tradicionais. Os chamados domicílios nucleares, formados por casais com ou sem filhos, passaram de 63,6% para 62,5% entre 2024 e 2025.

Já os arranjos:

  • Estendidos (com outros parentes) caíram de 15,2% para 14,2%
  • Compostos (com pessoas sem parentesco) recuaram de 1,3% para 1,0%

Essa reconfiguração indica uma mudança estrutural na organização social, com maior individualização dos arranjos domésticos.

Aumento do aluguel e mudanças no padrão habitacional

Outro movimento relevante é o crescimento do número de pessoas vivendo em imóveis alugados. Entre 2016 e 2025, houve um aumento de 39,7%, totalizando 2,391 milhões de pessoas nessa condição, o equivalente a 16,1% da população.

Apesar disso, a Bahia ainda mantém uma forte predominância da casa própria, com 75,4% dos moradores vivendo em imóveis próprios, índice superior à média nacional.

A tendência, no entanto, aponta para uma gradual redução dessa proporção, indicando mudanças no acesso à moradia e no comportamento das famílias.

Saneamento avança, mas estado mantém posição inferior no ranking nacional

Os indicadores de saneamento básico apresentaram melhora entre 2024 e 2025, mas sem avanço significativo no ranking nacional. O acesso ao esgotamento sanitário adequado subiu para 61,2% da população, ainda abaixo da média brasileira de 69,7%.

A coleta de lixo atingiu 86,4% dos moradores, mas a Bahia permaneceu entre os estados com menor cobertura relativa. Já o acesso à água tratada chegou a 85,9%, superando levemente a média nacional.

Os dados revelam avanços pontuais, porém insuficientes para alterar a posição estrutural do estado no cenário nacional.

Indicadores de consumo e condições de vida

Os dados da PNADC também evidenciam o padrão de acesso a bens duráveis na Bahia:

  • 44,4% da população vive em domicílios com máquina de lavar
  • 36,3% têm acesso a carro
  • 34,6% vivem em residências com motocicleta

Esses indicadores são utilizados como proxies de renda, conforto e qualidade de vida, revelando ainda desigualdades relevantes em relação à média nacional.

Envelhecimento, individualização e desafios estruturais

O avanço dos domicílios unipessoais na Bahia deve ser interpretado como parte de um processo mais amplo de transição demográfica e social, no qual o envelhecimento da população exerce papel central. A elevação do número de idosos vivendo sozinhos impõe desafios relevantes às políticas públicas, especialmente nas áreas de saúde, assistência social e habitação.

Ao mesmo tempo, a redução dos arranjos familiares tradicionais indica uma mudança cultural e estrutural, com maior autonomia individual, mas também com potencial aumento de vulnerabilidades sociais, sobretudo entre idosos.

Por fim, a combinação entre crescimento populacional reduzido, avanço do aluguel e limitações em saneamento básico revela que, embora haja progresso em indicadores específicos, persistem desequilíbrios estruturais históricos, que tendem a se intensificar diante do novo perfil demográfico do estado.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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