Ditadura Militar impulsionou expansão do ensino privado com recursos públicos, aponta investigação sobre caso Itaipu

Na quinta-feira, 23/04/2026, levantamento baseado em investigação da Radioagência Nacional revela que, em 1976, no auge da ditadura militar brasileira, um prédio público construído para atender a rede municipal de ensino em Foz do Iguaçu (PR) foi transferido à iniciativa privada antes mesmo de sua inauguração. O imóvel, destinado originalmente a reduzir o déficit educacional da cidade, foi entregue ao Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para educar filhos de trabalhadores da hidrelétrica, inaugurando um modelo de financiamento indireto ao ensino privado com recursos públicos.

Origem do modelo: infraestrutura pública para gestão privada

A Escola Politécnica de Foz do Iguaçu havia sido construída com o objetivo de atender cerca de 3 mil estudantes fora da rede escolar local. No entanto, dias antes de entrar em funcionamento, o prédio foi repassado ao Anglo-Americano por determinação administrativa vinda da Secretaria de Educação do Paraná.

O professor José Kuiava, então inspetor de ensino, relatou que a decisão causou impacto imediato na comunidade, que aguardava a abertura da unidade pública. A mudança obrigou o cancelamento de matrículas previamente anunciadas e reforçou a percepção de que interesses institucionais ligados à obra de Itaipu prevaleceram sobre a política educacional local.

O contrato firmado entre Itaipu, o Anglo-Americano e o consórcio Unicon garantiu o pagamento de vagas com recursos públicos. Embora inicialmente previsto para mil alunos, o colégio rapidamente ultrapassou esse número, chegando a mais de 14 mil estudantes durante o auge das obras da usina.

Expansão acelerada e lucratividade garantida

O acordo previa mensalidades entre CR$ 300 e CR$ 500, valores significativamente superiores aos praticados em instituições voltadas à população de baixa renda. A principal diferença, contudo, estava na ausência de inadimplência, uma vez que os pagamentos eram assegurados por contratos com estatais.

A professora Denise Sbardelotto, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), classifica o modelo como financeiramente vantajoso para a iniciativa privada e desfavorável ao setor público. Segundo ela, a infraestrutura completa — incluindo mobiliário e material pedagógico — foi financiada com recursos públicos, enquanto a gestão e os lucros permaneceram com a empresa privada.

O impacto econômico foi expressivo. Sob a liderança de Ney Suassuna, o Anglo-Americano registrou crescimento de 2.800% após o contrato com Itaipu. A instituição expandiu suas operações para diversas regiões do país e diversificou sua atuação com a criação de faculdades.

Indícios de ausência de licitação e influência política

Não foram encontrados registros que comprovem a realização de processo licitatório para a contratação do Anglo-Americano. A ausência de documentação formal levanta questionamentos sobre a legalidade e a transparência do acordo.

O próprio Ney Suassuna relatou que obteve o contrato após articulação direta com o general José Costa Cavalcanti, então diretor-geral de Itaipu. O empresário destacou que utilizou sua experiência no Ministério do Planejamento como credencial para viabilizar o encontro, o que sugere influência política no processo de escolha.

Esse modelo foi replicado em outros projetos estatais, como a hidrelétrica de Tucuruí e iniciativas da Petrobras no exterior, consolidando uma rede de ensino privado vinculada a grandes obras públicas.

Desigualdade estrutural no acesso à educação

A estrutura educacional vinculada a Itaipu reproduziu a hierarquia social dos trabalhadores da obra. Existiam unidades distintas do Anglo-Americano: uma mais equipada, destinada a filhos de funcionários com melhores salários, e outra mais simples, voltada a trabalhadores braçais.

Diferenças na infraestrutura e no projeto pedagógico eram evidentes. Enquanto a unidade principal oferecia formação voltada ao ensino superior, a escola destinada às classes mais baixas limitava-se ao ensino básico, com encaminhamento posterior para cursos profissionalizantes.

Relatos de ex-alunos indicam que a segregação era perceptível no cotidiano escolar, inclusive com a criação de termos pejorativos para identificar estudantes de menor renda, reforçando a desigualdade social dentro do ambiente educacional.

Impactos sobre a rede pública e déficit educacional

A expansão populacional de Foz do Iguaçu, impulsionada pela construção de Itaipu, agravou a pressão sobre o sistema público de ensino. A população local quadruplicou em uma década, passando de 34 mil para 136 mil habitantes.

Paralelamente, cerca de 95 escolas foram afetadas ou destruídas pelo avanço das obras da hidrelétrica. Embora Itaipu tenha financiado algumas iniciativas educacionais, os investimentos foram considerados insuficientes diante da demanda crescente.

Para lidar com a superlotação, a rede pública adotou medidas emergenciais, como a criação de um terceiro turno escolar, inclusive em horários considerados inadequados, como o período do almoço.

Posicionamento institucional

Em resposta, a Itaipu Binacional afirmou que a contratação do Anglo-Americano foi necessária diante da ausência de infraestrutura educacional na região. A empresa destacou que o modelo oferecia ensino integral e atividades complementares consideradas inovadoras para a época.

A estatal também mencionou iniciativas posteriores de apoio à educação, como a participação na criação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em 2010.

No entanto, não houve esclarecimento direto sobre a ausência de licitação ou sobre os critérios adotados para a escolha da instituição privada.

Contexto histórico e decisão administrativa

  • Ano-chave: 1976, durante a ditadura militar brasileira
  • Local: Foz do Iguaçu (PR)
  • Decisão central: prédio público construído para escola municipal foi entregue à iniciativa privada antes da inauguração
  • Objetivo original: reduzir déficit de cerca de 3 mil estudantes fora da escola
  • Destino final: gestão pelo Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional

Estrutura contratual e financiamento

  • Contrato firmado: fevereiro de 1976 (Itaipu + Anglo-Americano + Unicon)
  • Financiamento: recursos públicos vinculados à obra de Itaipu
  • Garantia mínima: pagamento de 1.000 vagas
  • Mensalidades: entre CR$ 300 e CR$ 500
  • Risco financeiro: inexistente (inadimplência coberta pelo poder público)
  • Infraestrutura: totalmente custeada com verba pública (prédios, mobiliário, material pedagógico)

Expansão e impacto econômico

  • Crescimento do Anglo-Americano: 2.800% após o contrato
  • Matrículas:
    • Mais de 10 mil alunos no primeiro ano
    • Pico de 14 mil estudantes
  • Expansão nacional: atuação em múltiplos estados e criação de faculdades
  • Total estimado posterior: cerca de 50 mil alunos em diferentes unidades

Indícios de irregularidades e influência política

  • Ausência de licitação: não foram encontrados registros formais
  • Forma de contratação: articulação direta com o general diretor de Itaipu
  • Figura central: Ney Suassuna
  • Caracterização: escolha política e administrativa, sem evidência de concorrência pública

Desigualdade educacional interna

  • Modelo dual de ensino:
    • Unidade estruturada para filhos de funcionários com melhores salários
    • Unidade precária para trabalhadores braçais
  • Diferenças estruturais:
    • Escola principal: biblioteca, laboratórios, atividades culturais
    • Escola secundária: estrutura simples, ensino limitado
  • Projeto pedagógico:
    • Elite: preparação para ensino superior
    • Trabalhadores: ensino básico + formação profissional
  • Segregação social: identificação por aparência, vestuário e origem social

Impactos na rede pública

  • Crescimento populacional:
    • 34 mil habitantes (1970) → 136 mil (1980)
  • Escolas afetadas: cerca de 95 unidades destruídas ou impactadas
  • Déficit educacional agravado: expansão da demanda sem estrutura pública suficiente
  • Medidas emergenciais:
    • Implantação de terceiro turno escolar
    • Aulas em horários inadequados (ex.: horário de almoço)
  • Investimentos públicos: considerados insuficientes frente ao volume destinado ao setor privado

Justificativa institucional

  • Posição da Itaipu: necessidade de criar infraestrutura inexistente
  • Argumento central: ausência de capacidade do setor público local
  • Destaque positivo: modelo educacional integral e inovador para a época
  • Ações posteriores: apoio à criação da universidade Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)

Consequências estruturais e legado

  • Fortalecimento do ensino privado com recursos públicos
  • Precedente institucional: modelo replicado em outras estatais
  • Ampliação das desigualdades educacionais
  • Impacto duradouro: fragilização da rede pública em regiões afetadas
  • Integração entre grandes obras e políticas sociais assimétricas 
Imagem aérea digital da Usina Hidroelétrica de Itaipu.
Imagem aérea digital da Usina Hidroelétrica de Itaipu

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