A organização Repórteres Sem Fronteiras divulgou nesta quinta-feira (30/04/2026) relatório global indicando que a liberdade de imprensa atingiu seu nível mais baixo em 25 anos, com mais da metade dos países classificados em situação “difícil” ou “muito grave”. O levantamento revela uma deterioração estrutural do ambiente jornalístico no mundo, ao mesmo tempo em que o Brasil registrou melhora de 11 posições, passando do 63º para o 52º lugar no ranking internacional.
Quadro global de deterioração
O estudo aponta que, pela primeira vez desde a criação do ranking em 2002, mais de 50% dos países analisados (94 nações) apresentam condições adversas para o exercício do jornalismo. O número contrasta com os 13,7% registrados no início da série histórica, evidenciando uma deterioração contínua e sistemática.
A pontuação média global atingiu seu pior nível, refletindo pressões crescentes sobre a atividade jornalística, que vão além da violência direta. Segundo a entidade, os ataques agora incluem:
- Pressões econômicas, com cortes de financiamento e precarização da mídia
- Instrumentos legais, como leis de segurança nacional e processos judiciais
- Interferência política, com discursos hostis e tentativas de deslegitimação da imprensa
Nos Estados Unidos, por exemplo, o país caiu para a 64ª posição, sendo classificado como de “situação problemática”. A RSF atribui o recuo, entre outros fatores, aos ataques recorrentes do ex-presidente Donald Trump contra jornalistas e veículos de comunicação.
Europa mantém liderança, mas com exceções
O relatório confirma a predominância de países do norte da Europa nas primeiras posições, com destaque para:
- Noruega (1º lugar, pelo décimo ano consecutivo)
- Países Baixos (2º)
- Estônia (3º)
- Dinamarca (4º)
- Suécia (5º)
- Finlândia (6º)
- Irlanda (7º)
Esses países são os únicos classificados na categoria “boa”, que atualmente abrange menos de 1% da população mundial, evidenciando o encolhimento dos ambientes plenamente livres para o jornalismo.
Brasil sobe no ranking e muda padrão institucional
O Brasil avançou 11 posições, alcançando o 52º lugar, movimento interpretado pela RSF como resultado da reconfiguração das relações institucionais entre governo e imprensa.
Segundo o relatório, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contribuiu para uma “normalização” do diálogo com os meios de comunicação, em contraste com o período anterior, marcado por tensões durante a gestão de Jair Bolsonaro.
Apesar da melhora, o país ainda permanece fora das categorias mais favoráveis, o que indica que persistem desafios estruturais, incluindo pressões políticas, econômicas e judiciais sobre o jornalismo.
Quedas acentuadas e repressão crescente
O relatório destaca casos de forte deterioração em diferentes regiões, evidenciando tendências autoritárias:
- El Salvador perdeu 105 posições desde 2014
- Geórgia caiu 75 posições desde 2020
- Níger teve a maior queda em 2026, com recuo de 37 posições
Em países do Sahel, como Mali e Burkina Faso, a liberdade de imprensa foi afetada pela ascensão de regimes militares e pela atuação de grupos armados.
Já na Arábia Saudita, a execução de um jornalista em 2025 reforça o cenário de repressão extrema, ao lado de países como Rússia, Irã e China, que ocupam as últimas posições do ranking.
Pressões legais e judicialização do jornalismo
A RSF destaca que o indicador legislativo foi o mais deteriorado em 2025, com a expansão de leis que restringem a atuação da imprensa, sob justificativas como combate ao terrorismo ou proteção de segredos de Estado.
Outro fenômeno crescente é o uso de ações judiciais estratégicas, conhecidas como “procedimentos-bala”, que visam intimidar jornalistas por meio de processos por difamação ou danos econômicos.
Esse padrão tem sido observado tanto em regimes autoritários quanto em democracias consolidadas, indicando uma transformação estrutural nas formas de controle da informação.
A seguir, os principais dados organizados por categorias, com base no relatório da Repórteres Sem Fronteiras:
Panorama Global da Liberdade de Imprensa
- Pior nível em 25 anos registrado em 2026
- 52% dos países (94 nações) em situação “difícil” ou “muito grave”
- Em 2002, esse percentual era de apenas 13,7%
- Pontuação média global atingiu o nível mais baixo da série histórica
- Menos de 1% da população mundial vive em países com liberdade de imprensa considerada “boa”
Ranking Internacional – Destaques Positivos
- Top 7 países (todos da Europa):
- Noruega (1º lugar, pela 10ª vez consecutiva)
- Países Baixos (2º)
- Estônia (3º)
- Dinamarca (4º)
- Suécia (5º)
- Finlândia (6º)
- Irlanda (7º)
- Esses países concentram a categoria “boa” no ranking global
Brasil no Ranking
- Subiu de 63º para 52º lugar (+11 posições)
- Classificação ainda intermediária (fora da categoria “boa”)
- Melhora atribuída à normalização institucional entre governo e imprensa
- Contraste com período anterior de hostilidade ao jornalismo
Estados Unidos
- Ocupam o 64º lugar
- Classificação: “situação problemática”
- Queda de 7 posições
- Fatores apontados:
- Ataques políticos à imprensa
- Redução de financiamento público
- Casos de detenção e expulsão de jornalistas
Maiores Quedas e Retrocessos
- El Salvador: queda de 105 posições desde 2014
- Geórgia: queda de 75 posições desde 2020
- Níger: pior desempenho em 2026 (–37 posições)
- Regiões afetadas:
- Sahel (Mali, Burkina Faso) com avanço de regimes militares
- Países com endurecimento político e repressão crescente
Países com Situação Crítica
- Arábia Saudita (176º)
- Rússia
- Irã
- China
- Eritreia (180º, última posição)
- Casos incluem:
- Execução de jornalista (Arábia Saudita, 2025)
- Repressão estatal sistemática
- Controle rígido da informação
Principais Tipos de Pressão Contra a Imprensa
- Pressão política: ataques e deslegitimação pública
- Pressão econômica: cortes de financiamento e precarização
- Pressão legal:
- Leis de segurança nacional
- Criminalização da atividade jornalística
- Judicialização (“procedimentos-bala”):
- Ações por difamação ou danos econômicos
- Uso estratégico para intimidar jornalistas
Indicadores em Deterioração
- Indicador legislativo foi o que mais piorou em 2025
- Expansão de leis restritivas sob justificativas como:
- Combate ao terrorismo
- Proteção de segredos de Estado
- Impacto observado inclusive em democracias consolidadas
Tendências Estruturais Identificadas
- Redução da violência direta, mas aumento de formas indiretas de controle
- Crescente sofisticação da censura, com uso de instrumentos legais e econômicos
- Ampliação da repressão mesmo em regimes democráticos
-
Concentração da liberdade plena em poucos países europeus









Deixe um comentário