MPF aponta irregularidades e Prefeitura de Salvador suspende programa Pé na Escola após suspeitas de “privatização indireta” da educação

A Prefeitura de Salvador determinou nesta sexta-feira (24/04/2026) a suspensão de etapas do programa Pé na Escola e o cancelamento de matrículas realizadas desde o início da iniciativa, após a identificação de indícios de irregularidades em investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA). A medida inclui a abertura de auditoria administrativa para apurar falhas no sistema, inconsistências na oferta de vagas e possíveis distorções na destinação de recursos públicos.

As apurações indicam que o programa, criado como medida emergencial para atender crianças sem acesso à rede pública, pode ter sido utilizado de forma ampliada, com transferência significativa de recursos para instituições privadas, contrariando a diretriz de caráter complementar da política educacional.

Suspensão, auditoria e inconsistências no sistema

A portaria da Secretaria Municipal de Educação estabelece a revisão completa das contemplações realizadas e a análise detalhada dos critérios utilizados para alocação de vagas. Entre os principais pontos sob investigação estão:

  • Inconsistências nos dados de disponibilidade da rede pública
  • Possível direcionamento indevido de alunos para escolas privadas
  • Falhas no sistema de matrícula e pré-matrículas irregulares
  • Ausência de planejamento territorial estruturado

De acordo com os órgãos de controle, há indícios de que vagas públicas existentes não foram plenamente utilizadas, ao mesmo tempo em que o município manteve contratos com escolas privadas, o que pode caracterizar duplicidade de gastos públicos.

Crescimento da rede privada e mudanças estruturais

Os dados levantados com base em registros oficiais apontam uma mudança significativa no perfil da educação infantil em Salvador. Enquanto a rede pública apresentou crescimento modesto, a rede privada — especialmente a vinculada ao programa — registrou expansão expressiva.

Entre os números analisados:

  • 25.804 matrículas na rede pública em 2022
  • 51.655 matrículas na rede privada no mesmo período
  • Crescimento de até 150% na rede privada com fins lucrativos em dois anos
  • 134 escolas conveniadas para creche e 136 para pré-escola

Esse cenário reforça a hipótese de substituição progressiva da oferta pública por vagas terceirizadas, o que contraria o princípio constitucional de prioridade da educação pública direta.

Fechamento de escolas e impacto na comunidade

Um dos episódios centrais da investigação envolve o fechamento da Escola Municipal Paulo Mendes de Aguiar, no bairro do Rio Sena, com mais de quatro décadas de funcionamento. A unidade foi encerrada em janeiro de 2026, sem apresentação de estudo técnico prévio.

Relatos indicam que:

  • A decisão foi comunicada sem consulta à comunidade escolar
  • Alunos foram transferidos para outras unidades ou escolas privadas
  • Houve mobilização popular contrária ao fechamento

Paralelamente, convênios foram firmados com escolas privadas na mesma região, o que reforça a suspeita de reconfiguração da política educacional com base em parcerias privadas.

Investigação do MPF e crítica de Angelo Almeida

O MPF instaurou inquérito para apurar possível uso irregular de verbas públicas e indícios de desvio de finalidade na execução do programa. O deputado estadual Angelo Almeida (PT) voltou a criticar a iniciativa, reforçando que os elementos revelados pelas investigações confirmam alertas anteriores sobre o modelo adotado.

Segundo o parlamentar, “o que estamos vendo é um processo de transferência contínua de recursos públicos para o setor privado, enquanto a rede municipal perde capacidade de atendimento”. Em outra declaração, acrescentou que o programa estaria operando como uma “porta de saída do investimento público direto”, ao invés de cumprir sua função emergencial.

Para Angelo Almeida, a suspensão das matrículas e a abertura de auditoria “evidenciam falhas graves de gestão e levantam dúvidas legítimas sobre a condução da política educacional”, defendendo a revisão completa do programa e a priorização de investimentos na rede própria.

Até o momento, a Prefeitura de Salvador não apresentou posicionamento formal sobre as investigações em curso.

Recomendações do Ministério Público

Diante dos indícios levantados, o MP-BA expediu recomendações formais à gestão municipal, incluindo:

  • Suspensão do fechamento de escolas públicas
  • Ocupação integral das vagas existentes na rede municipal
  • Revisão de contratos com instituições privadas
  • Proibição de indução de alunos à rede privada
  • Realização de diagnóstico detalhado da demanda educacional

As medidas buscam restabelecer o equilíbrio entre a oferta pública e privada e garantir a correta aplicação dos recursos educacionais.

Implicações institucionais e riscos estruturais

A inclusão das declarações de Angelo Almeida amplia o entendimento político do caso e reforça uma leitura crítica que já se desenhava nos dados técnicos: há sinais consistentes de deslocamento do eixo da política educacional. Quando um programa emergencial passa a sustentar a expansão da rede privada, a questão deixa de ser operacional e passa a ser estrutural.

Os desdobramentos indicam riscos relevantes, como ineficiência do gasto público, fragilidade no planejamento e possível comprometimento da universalização do ensino público. A crítica do parlamentar, ao apontar a perda de protagonismo da rede municipal, converge com os achados das investigações, especialmente no que se refere à duplicidade de custos e à ausência de critérios técnicos robustos.

Persistem lacunas importantes, sobretudo quanto à transparência na alocação de vagas e à justificativa para o fechamento de unidades escolares. Caso confirmadas as irregularidades, o cenário pode resultar em responsabilização administrativa, revisão contratual e redirecionamento da política educacional, com impacto direto sobre a governança do sistema de ensino.

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