Na terça-feira (07/04/2026), a trajetória da Natucoa Chocolates, marca criada pela Cooperativa de Serviços Sustentáveis da Bahia (Coopessba), em Ilhéus, voltou a evidenciar como a agregação de valor ao cacau da agricultura familiar tem impulsionado renda, qualificação produtiva e inserção de pequenos produtores no mercado. Fundada em 2018, a iniciativa aposta na fabricação artesanal de chocolates veganos e sem glúten, associando diferenciação de produto, fortalecimento da cadeia do cacau e estímulo ao desenvolvimento regional no sul da Bahia.
A proposta foi estruturada para diversificar a produção dos cooperados e ampliar a capacidade de geração de renda no campo. Ao transformar a matéria-prima em produto final com maior valor agregado, a cooperativa passou a atuar não apenas na comercialização agrícola, mas também na industrialização, criando novas possibilidades econômicas para agricultores e agricultoras da região.
Esse movimento se apoia em uma base anterior de organização produtiva. Criada em 2008, a Coopessba já operava na comercialização de itens da agricultura familiar por meio de políticas públicas federais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), com atendimento a 18 municípios da região.
Cooperativa amplia atuação com investimento em agroindustrialização
Com a criação da Natucoa Chocolates, a cooperativa avançou para uma etapa mais complexa da cadeia produtiva, incorporando estrutura industrial à sua atuação. A implantação da fábrica contou com investimento superior a R$ 4 milhões do Governo do Estado, por meio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), voltado à construção do galpão, aquisição de máquinas e equipamentos, além da oferta de assistência técnica contínua, capacitação e kits agrícolas aos associados.
Segundo a diretora da Coopessba, Carine Assunção, a criação da marca gerou efeitos em toda a cadeia do cacau. De acordo com ela, o projeto foi concebido para ofertar um produto diferenciado ao mercado, mas também para reforçar o entendimento de que os agricultores integram todas as etapas do processo produtivo, da lavoura ao produto final.
Na avaliação apresentada pela direção da cooperativa, esse modelo contribuiu para ampliar a percepção de valor sobre a própria produção agrícola. A qualificação da matéria-prima, nesse contexto, deixou de ser apenas uma exigência técnica e passou a representar um fator direto de remuneração, competitividade e permanência do produtor em uma cadeia mais estruturada.
Produção cresce e renda dos agricultores avança
O avanço da marca também aparece nos números da produção. A fabricação, que antes era de 200 quilos, passou para mais de uma tonelada de chocolate por mês, indicando expansão da capacidade operacional e aumento da demanda pelos produtos desenvolvidos pela cooperativa.
De acordo com Carine Assunção, esse crescimento teve reflexo direto sobre a renda dos produtores, que passaram a se enxergar em uma posição mais estável dentro do mercado. O processo, segundo ela, favoreceu melhores condições de vida e maior inserção econômica para as famílias envolvidas.
Atualmente, com 300 associados, a cooperativa produz uma linha diversificada sob a marca Natucoa Chocolates. O portfólio inclui barras com teores entre 56% e 80% de cacau, geleias de mel de cacau, nibs, pastas de cacau com licuri ou castanha, drágeas e chocolate em pó, ampliando a presença da marca em diferentes nichos de consumo.
Qualificação técnica sustenta aumento de produtividade
A melhoria da produção agrícola foi apontada como etapa central para atender às exigências da agroindústria. Os produtores passaram por capacitações em técnicas de plantio e manejo e receberam equipamentos voltados ao aumento da produtividade e ao aperfeiçoamento da qualidade do cacau.
A agricultora Iraildes Lima relatou que a assistência técnica teve impacto direto no desempenho da propriedade. Segundo ela, o acesso a equipamentos como estufa e cocho, além do aprendizado de técnicas como clonagem e poda, permitiu elevar a produção de um intervalo entre cinco e dez arrobas para cerca de 20 arrobas. Ainda conforme seu relato, a ampliação da renda tornou possível investir na moradia da família e na formação dos filhos.
O agricultor Josevaldo Santos também associou os resultados à estrutura oferecida pela cooperativa e ao apoio do poder público. Ele afirmou que, após atuar como gerente em fazendas, conseguiu voltar-se para a própria propriedade, aperfeiçoar o plantio com capacitação e equipamentos e acompanhar a transformação do cacau produzido em sua terra em chocolate comercializado com maior valor agregado.
Iniciativa também gera empregos urbanos em Ilhéus
Além dos efeitos sobre a produção rural, a Natucoa Chocolates também passou a gerar ocupação no ambiente urbano. A fábrica e a loja da marca empregam atualmente oito pessoas, o que amplia o alcance social do projeto para além das propriedades agrícolas.
A supervisora de produção, Vânia Santos, destacou que a iniciativa abriu oportunidade de trabalho em sua própria cidade após um período fora de Ilhéus, quando se especializou na produção de chocolate. Ela observou ainda que a fabricação de chocolate vegano trouxe novos desafios técnicos e profissionais.
Ao incentivar o consumo dos produtos, Vânia ressaltou o diferencial de qualidade associado à origem da produção. O posicionamento reforça a estratégia da marca de vincular o produto final ao trabalho da agricultura familiar, convertendo identidade territorial e origem social em elemento de valor de mercado.
Agricultura familiar, cacau e valor agregado
O caso da Natucoa Chocolates evidencia uma mudança de lógica na relação entre produção agrícola e mercado consumidor. Em vez de restringir-se à venda da matéria-prima, a cooperativa passou a atuar em etapas de transformação industrial, capturando parte maior do valor econômico gerado ao longo da cadeia.
Esse tipo de organização tende a fortalecer a autonomia produtiva dos agricultores, sobretudo em regiões historicamente ligadas ao cacau. No sul da Bahia, onde a cultura cacaueira tem relevância econômica e simbólica, iniciativas dessa natureza ajudam a combinar tradição agrícola, inovação produtiva e permanência da renda no território.
A experiência também mostra que políticas de apoio, assistência técnica e investimento em infraestrutura podem produzir efeitos mais duradouros quando articuladas à organização coletiva dos produtores. Nesse arranjo, a cooperativa deixa de ser apenas um canal de comercialização e passa a funcionar como instrumento de estruturação econômica local.







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