Pajé Albino Braz, liderança Pataxó, morre aos 84 anos no Dia dos Povos Indígenas e mobiliza rituais de despedida na Aldeia Barra Velha

Na madrugada de sábado (19/04/2026), data que marca o Dia dos Povos Indígenas, a Aldeia Mãe Barra Velha, localizada em Porto Seguro, no sul da Bahia, registrou a morte do Pajé Albino Braz, conhecido como Caruncho Dendê, aos 84 anos. Reconhecido como uma das principais referências espirituais e culturais do povo Pataxó, ele deixa 11 filhos, além de netos, bisnetos e tataranetos, e um legado que alcança mais de 23 aldeias da região. Sua morte transformou a data simbólica de celebração em um momento coletivo de luto, memória e reafirmação identitária.

Mesmo diante da perda, a comunidade decidiu manter o ritual da chamada “busca do dia”, prática tradicional que envolve cantos, pinturas corporais e o deslocamento até a praia para recepção do primeiro sol. O que seria uma celebração de resistência e continuidade dos saberes indígenas passou a incorporar elementos de despedida e reverência ao pajé.

O percurso entre o centro da aldeia e o mar foi marcado por silêncio e introspecção. Os primeiros raios solares, tradicionalmente associados à renovação, assumiram simbolismo ampliado, sendo conduzidos de volta como sinal de continuidade espiritual e permanência do legado do líder.

Na residência do pajé, familiares e membros da comunidade realizaram rezas e cânticos, consolidando um ritual de passagem que reafirma a conexão entre o território, a ancestralidade e a espiritualidade. O ambiente foi descrito como de respeito e solenidade, sem ruptura com as tradições que estruturam a identidade Pataxó.

Liderança espiritual e projeção internacional

Pajé Albino Braz era considerado um guardião dos conhecimentos ancestrais, frequentemente descrito como um “livro vivo” da cultura Pataxó. Sua atuação ultrapassou os limites da aldeia, consolidando-se como liderança reconhecida dentro e fora do Brasil.

Em 1998, tornou-se o primeiro indígena Pataxó a representar seu povo no exterior, ao participar de atividades em Portugal, onde apresentou aspectos da cultura, da espiritualidade e das lutas territoriais indígenas. O episódio marcou um momento de projeção internacional da causa Pataxó.

A relevância de sua trajetória foi destacada por lideranças indígenas e políticas. “A cultura é resistência viva”, afirmou Raoni Pataxó ao comentar a perda. Já o prefeito de Porto Seguro, Jânio Natal, declarou que “seu legado seguirá guiando gerações”, reconhecendo a importância histórica do pajé para a região.

Comunidade reafirma continuidade dos saberes

A morte do pajé ocorre em uma data de forte carga simbólica, reforçando o vínculo entre a trajetória do líder e o conceito de resistência indígena. Para a comunidade, o momento não representa ruptura, mas transição dentro de um ciclo contínuo de transmissão de saberes.

A estrutura familiar ampliada deixada por Albino Braz, com múltiplas gerações descendentes, também é interpretada como elemento de perpetuação cultural. A presença de sua descendência em diversas aldeias fortalece a rede comunitária e assegura a continuidade das práticas tradicionais.

A Aldeia Mãe Barra Velha, considerada um dos principais territórios históricos do povo Pataxó, mantém-se como centro de referência cultural, espiritual e política, desempenhando papel estratégico na preservação das tradições indígenas no sul da Bahia.

Aldeia Mãe Barra Velha, Porto Seguro (BA), 19/04/2026 — Comunidade Pataxó realiza rituais de despedida ao Pajé Albino Braz, símbolo de resistência e guardião dos saberes ancestrais.
Aldeia Mãe Barra Velha, Porto Seguro (BA), 19/04/2026 — Comunidade Pataxó realiza rituais de despedida ao Pajé Albino Braz, símbolo de resistência e guardião dos saberes ancestrais.

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