O cantor, compositor e produtor cultural Asa Filho, nome artístico de Augusto de Souza Araújo Filho, consolidou-se ao longo de mais de cinco décadas como uma das principais referências da cultura popular em Feira de Santana, na Bahia. Nascido em 12 de julho de 1954, no distrito de Tiquaruçu, o artista construiu uma trajetória multifacetada que reúne música, literatura, ativismo cultural e empreendedorismo, tendo como principal legado a criação do espaço Cidade da Cultura, voltado à promoção de artistas locais e à preservação das tradições nordestinas.
Trajetória artística e raízes culturais
A formação artística de Asa Filho remonta à infância no sertão baiano, marcada por experiências cotidianas que moldaram sua percepção estética e sonora. O contato com manifestações populares, como o aboio de vaqueiros e a oralidade das comunidades rurais, influenciou diretamente sua produção musical e literária.
Iniciou a carreira ainda na adolescência, aos 11 anos, em atividades ligadas ao Instituto Bíblico do Nordeste, desenvolvendo posteriormente habilidades musicais e poéticas que o levariam a se consolidar como intérprete e compositor. Ao longo da vida, manteve uma postura explícita de defesa das raízes sertanejas e nordestinas, rejeitando tendências meramente comerciais e privilegiando a autenticidade cultural.
Além da música, Asa Filho construiu uma produção literária significativa, com destaque para a literatura de cordel. Entre suas obras publicadas estão títulos como “É segunda-feira”, “Motejo Agalopado”, “Povo Mórbido” e “O Discurso Foge à Prática”, além de trabalhos inéditos que, segundo relatos, permanecem sem publicação por falta de apoio institucional.
Formação, experiências e inserção social
Embora tenha se dedicado prioritariamente à arte, Asa Filho também trilhou um percurso acadêmico e profissional diversificado. Estudou em Salvador e posteriormente ingressou na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde se especializou em áreas como Estudos Sociais, Tecnologia e Marketing.
Sua trajetória inclui experiências fora do campo artístico, como atuação no serviço público, no comércio e até como taxista, vivências que contribuíram para ampliar sua compreensão social e cultural da região. Esse repertório multifacetado se reflete em sua obra, frequentemente marcada por crítica social e observação da realidade local.
Paralelamente, manteve colaboração com veículos de imprensa de Feira de Santana, como Feira Noite e Dia, Tribuna Feirense e Folha do Estado, reforçando sua atuação também como articulador cultural e comunicador.
Cidade da Cultura: espaço de resistência cultural
O principal marco institucional da trajetória de Asa Filho é a criação da Cidade da Cultura, espaço cultural localizado em Feira de Santana, concebido inicialmente a partir de um empreendimento comercial que foi gradualmente transformado em ambiente artístico.
O local passou a funcionar como palco para apresentações musicais, encontros culturais e valorização de artistas regionais, suprindo uma lacuna histórica na cidade, marcada pela escassez de espaços voltados à música autoral e à cultura popular.
Segundo relatos do próprio artista, o projeto surgiu da necessidade de criar oportunidades para músicos locais, diante da ausência de estrutura adequada para apresentações. A iniciativa foi consolidada com apoio de sua esposa, Jacimar, e evoluiu para um modelo que combina gestão cultural e sustentabilidade econômica.
Além da promoção artística, o espaço incorpora elementos simbólicos da memória nordestina, funcionando também como ambiente de preservação cultural e identidade regional.
Atuação no Reisado e preservação do patrimônio imaterial
Outro eixo central da atuação de Asa Filho é o Reisado de São Vicente, manifestação cultural tradicional vinculada às celebrações de Reis Magos no distrito de Tiquaruçu.
O artista figura entre os principais responsáveis pela revitalização e projeção do evento, transformando-o em referência regional e ampliando sua visibilidade para além do estado da Bahia. A iniciativa contribuiu para a valorização de práticas culturais historicamente marginalizadas.
Com o tempo, o projeto evoluiu para uma estrutura organizada, incluindo documentação, produção audiovisual e articulação institucional. Apesar disso, o próprio Asa Filho aponta limitações estruturais e ausência de políticas públicas consistentes de apoio como obstáculos à continuidade plena da iniciativa.
Produção musical e participação em eventos
Ao longo de sua carreira, Asa Filho participou de diversos festivais e eventos culturais, obtendo reconhecimento em competições como o Festival Intermunicipal de Feira de Santana (1975) e o Festival Canta Bahia (1985).
Também integrou projetos e apresentações ao lado de artistas de projeção nacional, incluindo participações em eventos com nomes como Alceu Valença, além de apresentações em diferentes estados do Nordeste.
Sua discografia inclui o registro “Apologia nº 1 – Reisado de São Vicente” (2003), além de projetos autorais em desenvolvimento, como o álbum “Apelos e Canções”, que sintetiza sua visão estética e identidade musical.
Inserção institucional e reconhecimento
Asa Filho é membro da Academia de Letras e Artes de Feira de Santana, consolidando sua atuação também no campo literário e intelectual. Sua trajetória é frequentemente associada à defesa da cultura popular como patrimônio imaterial, em diálogo com políticas públicas e iniciativas independentes.
Ao longo dos anos, recebeu reconhecimento em concursos e editais culturais, incluindo premiações vinculadas a instituições como a Fundação Palmares, o que reforça sua inserção em circuitos culturais mais amplos.







Deixe um comentário