Recuperações judiciais atingem recorde histórico no Brasil e refletem ambiente de crédito restrito e alta inadimplência

Dados divulgados pela Serasa Experian neste mês de abril de 2026 indicaram que o Brasil alcançou 2.466 empresas em recuperação judicial, o maior patamar da série histórica, impulsionado por um cenário de juros elevados, crédito restrito e aumento da inadimplência corporativa. O levantamento, que passou por atualização metodológica, também mostra que 977 processos foram iniciados em 2025, consolidando o maior volume desde 2016 e evidenciando uma pressão crescente sobre o setor produtivo nacional.

Evolução das recuperações judiciais no Brasil

O crescimento das recuperações judiciais ao longo da última década revela uma dinâmica estrutural. Após estabilidade entre 2012 e 2014, o número de empresas em recuperação avançou de forma significativa a partir de 2015, atingindo um primeiro pico em 2016 e 2017. Após uma retração entre 2018 e 2021, o indicador voltou a crescer de forma consistente a partir de 2022.

Esse movimento recente é mais intenso e contínuo, levando ao recorde de 2025. Em termos absolutos:

  • 2012 a 2014: estabilidade com cerca de 800 CNPJs em recuperação
  • 2015 a 2017: forte expansão, com pico superior a 1.800 CNPJs
  • 2018 a 2021: retração gradual
  • 2022 a 2025: retomada acelerada, culminando em recorde histórico

O novo modelo de mensuração adotado pela Serasa Experian separa processos judiciais e número de CNPJs envolvidos, permitindo avaliar com maior precisão o impacto real sobre o tecido empresarial. Um único processo pode envolver múltiplas empresas de um mesmo grupo econômico, distorcendo leituras anteriores.

Pressão do crédito e custo financeiro elevado

O principal vetor do crescimento das recuperações judiciais está no ambiente macroeconômico. Com a taxa Selic em 14,75%, o custo do dinheiro permanece elevado, restringindo o acesso ao crédito e dificultando a rolagem de dívidas.

Empresas com maior alavancagem enfrentam dois obstáculos simultâneos:

  • Restrição na concessão de crédito, com critérios mais rigorosos
  • Elevação do custo financeiro, impactando diretamente o fluxo de caixa

Nesse contexto, a recuperação judicial tem sido utilizada como instrumento para reorganização de passivos e preservação das operações, substituindo, em muitos casos, a alternativa da falência.

A média histórica de processos mensais, que girava em torno de 53 entre 2012 e 2023, foi superada de forma recorrente em 2025, indicando uma mudança estrutural no padrão de endividamento empresarial.

Agropecuária e serviços lideram pedidos

A análise setorial revela uma transformação relevante no perfil das empresas em recuperação judicial. Em 2025:

  • Agropecuária: 30,1% dos CNPJs
  • Serviços: 30%
  • Comércio: 21,7%
  • Indústria: 18,2%

O dado mais expressivo está na agropecuária, cuja participação saltou de 1,3% em 2012 para mais de 30% em 2025, evidenciando uma mudança estrutural no setor.

Esse avanço está associado a fatores específicos:

  • Oscilações climáticas
  • Volatilidade nos preços de commodities
  • Elevação dos custos de insumos
  • Exposição cambial

Já o setor de serviços acompanha a expansão da economia terciária no país, enquanto comércio e indústria apresentam perda relativa de participação.

Inadimplência elevada antecipa novas recuperações

O aumento das recuperações judiciais ocorre em paralelo ao crescimento da inadimplência empresarial. Em janeiro de 2026, o Brasil registrava:

  • 8,7 milhões de CNPJs negativados
  • Dívida média superior a R$ 23 mil por empresa
  • Cerca de sete restrições por cadastro

Historicamente, a inadimplência antecede os pedidos de recuperação judicial, o que indica que o indicador pode permanecer elevado no curto prazo.

Embora o número total de empresas ativas tenha crescido entre 2023 e 2025, o avanço das recuperações sugere um processo de deterioração financeira seletiva, concentrado em setores mais expostos a ciclos econômicos e custos elevados.

Falências recuam e recuperação judicial se consolida

Enquanto as recuperações judiciais avançam, os pedidos de falência seguem trajetória oposta. Em 2025, foram registrados 698 casos, uma queda de 19% em relação ao ano anterior e de cerca de 61% em comparação a 2012.

O dado evidencia uma mudança estrutural:

  • A falência perde espaço como instrumento de cobrança
  • A recuperação judicial se consolida como mecanismo preferencial de renegociação

Outro ponto relevante é a baixa utilização da recuperação extrajudicial. Em 2025:

  • 977 pedidos judiciais
  • Apenas 62 extrajudiciais

A proporção de 16 para 1 demonstra a dificuldade de negociação direta entre credores, mantendo a judicialização como principal via de reestruturação.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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