O Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo, voltou ao centro das atenções do mercado financeiro após reportagem do Estadão Conteúdo revelar suspeitas de que a instituição teria usado fundos de investimento para retirar de seus balanços carteiras de crédito com alta inadimplência, em uma operação apontada por especialistas como de elevado risco regulatório. Segundo a apuração, a manobra teria permitido ao banco declarar lucro de R$ 31 milhões ao fim de 2025, enquanto deixava de registrar ao menos R$ 480 milhões em créditos vencidos que poderiam reduzir o resultado informado. A Polícia Federal investiga denúncias de fraude contábil e maquiagem de dados financeiros envolvendo a instituição.
Banco teria usado fundos para retirar créditos vencidos do balanço
De acordo com documentos obtidos pelo Estadão e analisados por especialistas do mercado financeiro, o Digimais teria transferido carteiras de financiamentos inadimplentes para fundos de investimento dos quais o próprio banco aparece como cotista. A operação teria reduzido a exposição direta dessas carteiras nas demonstrações financeiras da instituição, produzindo efeito contábil relevante sobre o balanço.
A prática chamou a atenção de peritos e agentes do mercado ouvidos pela reportagem, que classificaram parte das transações como operações de “alto risco regulatório” e de “sinal vermelho forte”. O ponto central da suspeita está no fato de que o banco teria atuado, em determinados negócios, nos dois lados da operação, dinâmica conhecida no mercado como “Zé com Zé”.
Além da transferência de carteiras inadimplentes, a apuração aponta que o Digimais também teria vendido precatórios de baixa liquidez à própria holding ligada a Macedo. A transação teria gerado alerta entre auditores, especialmente pela dificuldade de mensuração segura do valor desses ativos e pelo prazo incerto de recebimento.
R$ 3 bilhões em fundos não teriam sido plenamente auditados
O caso ganha dimensão mais ampla porque, segundo a reportagem, há aproximadamente R$ 3 bilhões em investimentos em fundos que não puderam ser auditados de forma completa pela falta de acesso a documentos considerados necessários pelos auditores responsáveis. Esse montante corresponderia a cerca de 75% do valor investido pelo banco em fundos.
A ausência de documentação suficiente para validação contábil amplia as dúvidas sobre a real qualidade dos ativos registrados. Em instituições financeiras, a correta classificação de créditos vencidos, provisões e perdas esperadas é fundamental para demonstrar a situação patrimonial e preservar a confiança de clientes, investidores, reguladores e demais agentes do sistema.
Procurado pelo Estadão, o Digimais não se manifestou. A Igreja Universal do Reino de Deus também não apresentou resposta à reportagem. A ausência de manifestação pública mantém em aberto questões centrais sobre a natureza das operações, a governança interna e os critérios adotados na contabilização dos ativos.
Polícia Federal investiga suspeita de fraude contábil
A Polícia Federal apura denúncias de fraude contábil e maquiagem de informações financeiras no Banco Digimais. Segundo a Band, os investigadores analisam se a diretoria da instituição teria utilizado manobras consideradas ilegais para inflar artificialmente os balanços corporativos e camuflar perdas próximas de R$ 500 milhões.
A investigação ocorre em um ambiente de maior atenção regulatória sobre bancos médios, fundos de investimento e estruturas de crédito privado. O caso Digimais se soma a uma sequência de episódios recentes que ampliaram a preocupação do mercado com governança, transparência contábil e concentração de riscos em instituições fora do eixo dos grandes bancos.
O Banco Central do Brasil, autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro nacional, tem como atribuição zelar pela estabilidade do sistema financeiro e acompanhar a solidez das instituições autorizadas a funcionar no país. A evolução do caso dependerá da análise dos documentos, das eventuais respostas do banco e das medidas que possam ser adotadas pelos órgãos reguladores e de investigação.
Digimais nasceu como Banco Renner e foi rebatizado após controle de Macedo
O Digimais não possui a mesma visibilidade pública dos grandes bancos comerciais. A instituição não tem rede de agências tradicional e, segundo a reportagem do Estadão, nem sequer oferecia transações via Pix no momento da apuração. Até 2020, chamava-se Banco Renner, em referência à família gaúcha ligada à origem das Lojas Renner.
Edir Macedo era acionista desde 2009 e passou a controlar a instituição, que foi posteriormente rebatizada como Banco Digimais. A carteira da instituição concentra operações de financiamento de veículos e também registra crescimento no segmento de crédito consignado, área que costuma atrair bancos médios pela previsibilidade de recebimento, mas que também exige controle rigoroso de risco e capital.
No site institucional, o Banco Digi+ afirma ter mais de quatro décadas de trajetória, mais de R$ 3 bilhões em carteira de crédito, mais de R$ 8 bilhões captados, mais de 145 mil clientes e cerca de 150 colaboradores. Esses números reforçam a relevância da instituição no segmento de bancos médios, embora não eliminem as dúvidas levantadas pelas apurações recentes.
Crise se soma a rebaixamento de rating e disputa judicial
A suspeita envolvendo fundos e carteiras inadimplentes ocorre depois de outros sinais de deterioração na percepção de risco do Digimais. Em 26/03/2026, a Fitch Ratings rebaixou os ratings do banco, alterando a nota nacional de longo prazo de BBB(bra) para BB+(bra) e colocando os ratings da instituição em observação negativa.
Na avaliação citada pela agência, o banco enfrentava incertezas relacionadas à execução de seu modelo de negócios, volatilidade do perfil financeiro, reformulação de governança corporativa, troca de comando e disputa judicial envolvendo fundo de investimento em direitos creditórios. A Fitch também apontou piora nos resultados de 2025 e necessidade de monitoramento da capacidade de estabilização financeira.
O Jornal Grande Bahia já vinha acompanhando a crise do Digimais em reportagens anteriores, com registros sobre tentativa frustrada de venda, reestruturação, disputa judicial superior a R$ 460 milhões e dificuldades associadas à carteira de crédito da instituição. A tag Banco Digimais reúne esse histórico de cobertura no JGB.
Operação levanta dúvidas sobre governança e transparência
O principal ponto de tensão está na fronteira entre estruturação financeira legítima e eventual ocultação de perdas. Bancos podem vender, ceder ou securitizar carteiras de crédito dentro das regras do sistema financeiro, mas tais operações devem refletir, com precisão, o risco econômico envolvido, a qualidade dos ativos e os impactos patrimoniais.
Quando a instituição que transfere os créditos também aparece como cotista dos fundos que recebem esses ativos, a operação exige escrutínio maior. A questão central é saber se houve efetiva transferência de risco ou apenas deslocamento contábil de perdas para melhorar artificialmente os indicadores do balanço.
No caso do Digimais, a suspeita apontada pela reportagem é que créditos vencidos de centenas de milhões de reais teriam deixado de impactar adequadamente as demonstrações financeiras, permitindo a apresentação de resultado positivo em 2025. Essa hipótese, se confirmada pelas autoridades, pode produzir consequências regulatórias, judiciais e reputacionais para a instituição.
Mercado financeiro observa risco sistêmico limitado, mas alerta reputacional elevado
Embora o Digimais não tenha o porte de grandes bancos nacionais, casos envolvendo instituições médias podem gerar efeitos relevantes sobre a confiança no mercado de crédito, especialmente quando há ligação com fundos de investimento, captação distribuída por plataformas e exposição de investidores a papéis bancários.
O risco imediato parece concentrado na própria instituição, em seus controladores, investidores, credores e clientes expostos a produtos financeiros relacionados ao banco. Ainda assim, o episódio reforça a necessidade de fiscalização rigorosa sobre estruturas complexas que envolvem crédito privado, fundos, cessão de carteiras e ativos de difícil precificação.
A crise também reacende o debate sobre a qualidade da supervisão prudencial no Brasil. O modelo tradicional de regulação bancária depende de balanços confiáveis, auditorias independentes e prestação tempestiva de informações. Quando esses pilares são questionados, a confiança, que é o ativo essencial de qualquer banco, passa a ser diretamente afetada.









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