Empresas chinesas ampliam envio de trabalhadores ao Brasil e Bahia concentra vistos ligados à BYD em Camaçari

O avanço dos investimentos chineses no Brasil passou a ser acompanhado por um crescimento expressivo da entrada de trabalhadores vindos da China, especialmente em projetos industriais ligados ao setor automotivo. Dados do Ministério da Justiça compilados pela Folha de S.Paulo indicam que, desde junho de 2025, o país registra média superior a mil vistos de trabalho por mês para cidadãos chineses. No primeiro trimestre de 2026, eles responderam por 38% das autorizações laborais concedidas a estrangeiros, com forte concentração na Bahia, onde está em implantação a fábrica da BYD em Camaçari.

Brasil vira destino prioritário de empresas chinesas

O Brasil foi apontado como o principal destino dos investimentos chineses em 2025, movimento que ultrapassa a dimensão financeira e produtiva. A chegada de empresas do país asiático tem sido acompanhada pelo deslocamento de técnicos, engenheiros, operadores especializados e profissionais administrativos para apoiar a instalação de unidades industriais, transferir tecnologia e treinar mão de obra local.

Segundo os dados citados na reportagem, o número de autorizações de trabalho para chineses cresceu de forma contínua nos últimos anos. Em 2023, a média mensal era de 270 vistos; em 2024, subiu para 625; em 2025, chegou a 844. Pela primeira vez, o volume anual superou 10 mil autorizações. Nos três primeiros meses de 2026, foram 3.193 autorizações para cidadãos chineses, em um universo de 8.232 registros de estrangeiros autorizados a trabalhar no país.

A escalada reflete uma mudança estrutural no padrão de presença chinesa no Brasil. Antes concentrada em comércio, escritórios corporativos e projetos de infraestrutura, a atuação chinesa passou a incluir unidades fabris de grande porte, especialmente em setores como veículos eletrificados, máquinas de construção, engenharia e tecnologia industrial.

Bahia concentra chegada de trabalhadores ligados à BYD

A Bahia aparece como o principal destino dos trabalhadores chineses no primeiro trimestre de 2026. De acordo com os dados apresentados, 55% dos expatriados chineses que chegaram ao Brasil nesse período desembarcaram no estado, em razão da implantação da fábrica da BYD em Camaçari.

A montadora chinesa é responsável por cerca de um terço dos registros de trabalhadores vindos da China. Do início de 2025 até maio de 2026, aproximadamente 2.700 funcionários chineses da BYD obtiveram visto de trabalho para atuar no Brasil. A maioria das autorizações tem prazo de um ano, embora a empresa afirme haver grande rotatividade, com permanência média de 90 a 120 dias para atividades de treinamento e transferência técnica.

O vice-presidente da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, afirmou que a presença dos expatriados está relacionada à necessidade de implantar uma indústria que, segundo ele, não existia no país nos mesmos moldes. O executivo declarou que a estrutura herdada do antigo parque da Ford não atendia ao processo de fabricação da montadora chinesa, líder global no mercado de veículos eletrificados.

Camaçari tenta reconstruir base industrial após saída da Ford

Camaçari, município com cerca de 300 mil habitantes, ocupa posição estratégica na indústria baiana. A cidade abriga o principal polo industrial do estado e sofreu forte impacto econômico em 2021, quando a Ford encerrou suas atividades no município, provocando demissões e efeitos em cadeia sobre comércio, serviços e fornecedores locais.

A chegada da BYD passou a ser vista como uma tentativa de recomposição da base produtiva regional. Baldy estima que, até o fim de 2026, a montadora terá 10 mil funcionários no Brasil, com participação de chineses limitada a, no máximo, 3% do quadro total.

A presença dos expatriados já alterou setores da economia local. Hotéis registraram maior demanda, e o mercado imobiliário passou a receber procura por imóveis próximos à fábrica. Além disso, está em construção um residencial com 600 apartamentos, a cerca de 3,5 quilômetros do complexo industrial, destinado a abrigar trabalhadores chineses e profissionais de outras regiões do Brasil.

Prestadoras de serviço também ampliam contratação de chineses

A BYD lidera a lista das empresas que mais importaram trabalhadores chineses desde 2025, mas não é a única. Entre as companhias com maior número de autorizações aparecem também a Falcão Engenharia, com 260 trabalhadores; a XCMG Brasil, fabricante de máquinas de construção, com 214; a Engenova Construções, com 197; e a GWM, com 139.

A Falcão Engenharia e a Engenova Construções atuam como prestadoras de serviço nas obras do complexo industrial da BYD em Camaçari. Esse dado indica que a expansão da mão de obra chinesa não se limita ao quadro direto das montadoras, mas alcança empresas terceirizadas envolvidas na execução das obras e na instalação de estruturas produtivas.

No caso da GWM, que inaugurou fábrica em São Paulo em 2026, a companhia informou que 9% dos seus 1.800 funcionários no Brasil são chineses. Segundo a empresa, a maioria atua em funções especializadas e temporárias, voltadas à estruturação das atividades e à capacitação de trabalhadores brasileiros.

Sindicatos cobram prioridade à mão de obra local

A chegada de trabalhadores estrangeiros também gerou tensões trabalhistas em Camaçari. Operários baianos relataram insatisfação com a percepção de que trabalhadores locais estariam sendo preteridos em algumas frentes de contratação. Na terça-feira, 19/05/2026, sindicalistas realizaram piquete na entrada de uma obra, reivindicando aumento salarial e melhoria das condições de trabalho.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, Júlio Bonfim, rejeitou narrativas que tratam a presença chinesa como ocupação estrangeira ou substituição em massa da mão de obra local. Segundo ele, grande parte dos chineses atua em áreas administrativas e técnicas, e não no chão de fábrica.

O tema ganhou repercussão nas redes sociais, onde circularam publicações com informações falsas sobre o residencial em construção. Em algumas postagens, o empreendimento foi chamado de “cidade chinesa”, com números inflados sobre a presença de operários estrangeiros. Para o dirigente sindical, esse tipo de abordagem alimenta xenofobia e distorce o debate sobre industrialização, emprego e transferência tecnológica.

Caso de trabalho análogo à escravidão ampliou pressão sobre a BYD

O avanço do projeto industrial da BYD em Camaçari também foi marcado por controvérsias. Em dezembro de 2024, o Ministério Público do Trabalho resgatou 163 trabalhadores em situação considerada análoga à escravidão em obras ligadas à montadora.

A BYD e duas empresas terceirizadas firmaram acordo de R$ 40 milhões com o MPT para encerrar a ação civil pública. Baldy afirmou que os trabalhadores eram contratados por prestadoras de serviço e declarou que a montadora atuou como parte da solução, antecipando providências relacionadas à hospedagem e ao retorno dos trabalhadores à China.

O episódio passou a integrar o debate sobre os limites da terceirização, a fiscalização de grandes empreendimentos e a responsabilidade das empresas líderes em cadeias produtivas complexas. Embora a chegada de investimentos estrangeiros seja relevante para a economia local, sua execução exige rigor trabalhista, transparência contratual e acompanhamento permanente por órgãos públicos.

Perfil dos trabalhadores chineses indica especialização técnica

Dados do Observatório das Migrações Internacionais, vinculado à Universidade de Brasília em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, são utilizados para mapear profissões, escolaridade e fluxos migratórios no Brasil. O OBMigra produz pesquisas e relatórios voltados à compreensão das migrações internacionais e ao apoio de políticas públicas baseadas em evidências.

Entre os chineses autorizados a trabalhar no Brasil, as ocupações mais frequentes incluem operadores de time de montagem e técnicos de manutenção de sistemas, máquinas e componentes mecânicos. O levantamento também indica que 47% dos trabalhadores chineses que chegaram desde 2025 possuem ensino superior, enquanto 32% têm ensino médio.

Esses dados sustentam a narrativa empresarial de que parte da presença estrangeira está associada à instalação de tecnologia produtiva, treinamento de equipes brasileiras e implantação de processos industriais específicos. Ao mesmo tempo, reforçam a necessidade de políticas públicas de qualificação profissional para que a mão de obra local assuma progressivamente funções técnicas e estratégicas.

Legislação brasileira limita proporção de estrangeiros nas empresas

A legislação trabalhista brasileira estabelece limites à presença de trabalhadores estrangeiros nas empresas. A Consolidação das Leis do Trabalho determina que ao menos dois terços dos empregados sejam brasileiros, proporção que também se aplica à folha salarial. Em regra, apenas um terço da remuneração total pode ser destinado a estrangeiros.

Há, no entanto, flexibilizações para situações em que exista insuficiência de mão de obra nacional qualificada. Nesses casos, a contratação de engenheiros, técnicos e especialistas estrangeiros pode ser justificada juridicamente, sobretudo quando vinculada à assistência técnica, à implantação industrial ou à capacitação gradual de profissionais brasileiros.

O marco migratório brasileiro também mudou nos últimos anos. A Lei de Migração de 2017 substituiu o antigo Estatuto do Estrangeiro, de 1980, e simplificou procedimentos para autorização de trabalho no país. Esse novo ambiente regulatório favoreceu a atração de profissionais estrangeiros em projetos de investimento, mas exige equilíbrio entre abertura econômica, proteção trabalhista e interesse nacional.

Presença chinesa se expande também em São Paulo

São Paulo aparece como o segundo estado com maior número de registros de trabalhadores chineses. A concentração decorre da presença de escritórios de empresas asiáticas, da instalação da fábrica da GWM e da formação de polos corporativos em regiões empresariais da capital paulista.

Na região da Berrini, por exemplo, circulam trabalhadores de mais de 50 empresas chinesas com escritórios instalados nas proximidades. A presença desses profissionais estimulou uma rede de serviços voltada ao público chinês, incluindo restaurantes de comida típica concentrados em poucas quadras.

Esse fenômeno indica que a presença chinesa no Brasil não se restringe a fábricas ou canteiros de obras. Ela envolve cadeias de serviços, moradia, alimentação, logística, comércio e relações empresariais permanentes, com efeitos urbanos e econômicos sobre as regiões onde as empresas se instalam.

Relação Brasil-China ganha dimensão trabalhista e produtiva

A movimentação de profissionais chineses para outros mercados é incentivada há anos por Pequim como parte da internacionalização de suas empresas. Registros oficiais da viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China em 2009 apontam pedido do então líder Hu Jintao para que o Brasil facilitasse procedimentos administrativos de emissão de vistos de trabalho para funcionários chineses.

Esse histórico mostra que a atual onda de trabalhadores chineses no Brasil não é episódica. Ela se insere em uma estratégia mais ampla de expansão empresarial, transferência de tecnologia, consolidação de cadeias produtivas e fortalecimento da presença chinesa em mercados considerados estratégicos.

Para o Brasil, o desafio consiste em transformar a chegada de empresas estrangeiras em ganhos duradouros de produtividade, emprego qualificado e capacitação nacional. Sem esse resultado, o país corre o risco de hospedar grandes projetos industriais sem absorver plenamente o conhecimento técnico necessário para consolidar autonomia produtiva.


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