Uma investigação jornalística revelou neste mês de abril de 2026 a dimensão e o funcionamento do conglomerado empresarial Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S.A.), estrutura vinculada às Forças Armadas Revolucionárias de Cuba que concentra os principais fluxos financeiros da ilha. Com ativos estimados em pelo menos US$ 17,9 bilhões, a holding opera com elevado grau de sigilo, fora do controle institucional do Estado, enquanto o país enfrenta escassez generalizada, apagões e queda acumulada de 15% do PIB nos últimos cinco anos.
Estrutura paralela e concentração de poder econômico
A Gaesa consolidou-se como uma economia paralela dentro do próprio Estado cubano, sem transparência institucional, sem auditoria pública e sem prestação de contas à Assembleia Nacional ou à Controladoria Geral. Segundo especialistas, trata-se de uma holding que monopolizou praticamente todos os setores que geram divisas estrangeiras.
Entre suas áreas de atuação estão:
- Turismo, com redes hoteleiras e serviços associados
- Comércio exterior e varejo em moeda forte
- Remessas financeiras internacionais
- Sistema bancário e transações externas
- Telecomunicações e logística portuária
A expansão ocorreu principalmente a partir dos anos 2000, com a ascensão de Raúl Castro, quando a holding absorveu empresas estratégicas como a Cimex, ampliando seu controle sobre a economia nacional.
Essa concentração permite à Gaesa operar sem concorrência, explorando os setores mais rentáveis e evitando áreas deficitárias, como agricultura e serviços públicos.
Sigilo institucional e elite restrita
A estrutura da Gaesa permanece amplamente desconhecida. Não há organograma público, relatórios oficiais ou identificação clara de seus dirigentes. Investigações indicam que o controle está concentrado em um grupo reduzido, possivelmente com menos de 15 pessoas, ligado ao entorno familiar e político de Raúl Castro.
Entre os nomes conhecidos:
- Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960–2022), considerado o principal arquiteto do conglomerado
- Ania Guillermina Lastres, atual presidente executiva
- Membros da família Castro e aliados históricos
O modelo operacional inclui redes empresariais interligadas, frequentemente estruturadas em paraísos fiscais, dificultando o rastreamento dos ativos e a identificação dos verdadeiros beneficiários.
Lucros elevados e distorções econômicas
Documentos vazados indicam que, em 2024, a Gaesa registrou lucros superiores a US$ 2,1 bilhões, com margem de cerca de 38% — índice muito acima do padrão internacional, que varia entre 5% e 15%.
Essa rentabilidade decorre de fatores estruturais:
- Receita majoritariamente em dólares ou moedas fortes
- Pagamento de salários em pesos cubanos desvalorizados
- Ausência de concorrência interna
- Acesso privilegiado a recursos estatais a custos reduzidos
Além disso, a holding controla o Banco Financeiro Internacional (BFI), responsável por grande parte das transações externas do país, funcionando, na prática, como uma espécie de gestor informal de reservas internacionais.
Recursos bilionários e opacidade financeira
Dos US$ 17,9 bilhões estimados em ativos, cerca de US$ 14,4 bilhões estavam em contas bancárias, segundo documentos divulgados. Esse volume supera as reservas internacionais de diversos países latino-americanos.
Especialistas apontam que os recursos podem estar distribuídos entre:
- Bancos nacionais e internacionais
- Instituições financeiras na Rússia e China
- Estruturas offshore em paraísos fiscais
A ausência de transparência impede a verificação independente desses dados e levanta questionamentos sobre o destino final dos recursos.
Impacto na crise econômica cubana
A atuação da Gaesa tem sido associada ao agravamento da crise econômica em Cuba. Estimativas indicam que suas operações podem representar até 40% do PIB do país, evidenciando seu peso estrutural.
Críticos apontam que a holding direciona investimentos para setores voltados à captação de divisas — especialmente o turismo — enquanto áreas essenciais permanecem negligenciadas:
- Agricultura produz apenas cerca de 20% dos alimentos consumidos no país
- Infraestrutura elétrica deteriorada, com apagões frequentes
- Escassez crônica de combustíveis e medicamentos
O contraste entre hotéis de luxo e a precariedade urbana simboliza essa distorção.
Pressões externas e incertezas futuras
A crise interna é agravada por fatores externos, como o endurecimento das sanções dos Estados Unidos, incluindo restrições ao fornecimento de petróleo. Esse cenário intensifica a fragilidade econômica da ilha.
Diante desse contexto, especialistas avaliam que uma eventual transição política em Cuba exigiria o rastreamento e a redistribuição dos recursos controlados pela Gaesa como condição para estabilização econômica.
*Com informações da BBC Brasil.











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