Técnicos do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) acompanham, neste sábado, 16/05/2026, a 137ª edição do Bembé do Mercado, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, para reunir informações destinadas ao processo de revalidação da manifestação como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia. O trabalho inclui registros fotográficos, audiovisuais e documentais, além de depoimentos de lideranças religiosas, representantes de terreiros, organizadores e participantes, com o objetivo de avaliar a continuidade histórica, as formas de transmissão e as medidas de salvaguarda da celebração reconhecida pelo Estado desde 2012.
Monitoramento registra permanências e transformações do Bembé
O acompanhamento realizado durante os festejos integra a política de preservação dos bens culturais registrados pelo Estado da Bahia. A equipe técnica observa como os rituais, os conhecimentos religiosos, a organização comunitária e as diferentes expressões culturais continuam sendo transmitidos entre gerações.
O material reunido deverá subsidiar os estudos técnicos relacionados à revalidação patrimonial. Essa etapa permite verificar se os elementos que fundamentaram o reconhecimento permanecem presentes, quais transformações ocorreram ao longo do tempo e como as comunidades responsáveis pela manifestação participam das ações de preservação.
Além das imagens e dos documentos produzidos durante a programação, os depoimentos coletados ajudam a reconstruir as mudanças organizacionais, religiosas e sociais vivenciadas pelo Bembé. O levantamento considera tanto a permanência de práticas tradicionais quanto a incorporação de novas formas de participação, comunicação e valorização pública.
Na abertura oficial da celebração, realizada na quarta-feira, 13/05/2026, o diretor-geral do IPAC, Marcelo Lemos Filho, afirmou que o monitoramento permite demonstrar a continuidade histórica da manifestação.
“Esse processo nos permite demonstrar a continuidade histórica da celebração e a força de suas tradições. Mesmo diante das transformações da sociedade ao longo do tempo, o Bembé permanece firme no propósito de preservar o legado de João de Obá, dos negros libertos e de toda a luta que marca essa manifestação cultural.”
Revalidação avalia transmissão, memória e salvaguarda
Reconhecido em 2012 como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, o Bembé do Mercado está inscrito no Livro de Registro Especial dos Eventos e Celebrações. A revalidação constitui uma etapa do acompanhamento institucional destinado a verificar as condições de continuidade do bem cultural e a efetividade das medidas de salvaguarda.
O processo não se restringe à realização anual dos festejos. Os estudos consideram a participação dos terreiros, a transmissão dos conhecimentos religiosos, a preservação dos rituais, a relação da celebração com os espaços urbanos de Santo Amaro e o envolvimento das comunidades detentoras na organização das atividades.
A antropóloga Ana Rita Machado, que pesquisa o Bembé do Mercado desde 1997, destacou que a manifestação passou por mudanças relevantes ao longo das últimas décadas, especialmente quanto à visibilidade e ao reconhecimento institucional.
“Quando comecei a pesquisar o Bembé, em 1997, era uma celebração muito ligada aos territórios negros da cidade. Hoje, vemos uma dimensão muito maior de reconhecimento, preservação da memória e valorização da identidade de Santo Amaro e do Recôncavo baiano.”
A avaliação das transformações é parte essencial do trabalho patrimonial, porque os bens culturais imateriais não permanecem estáticos. Eles são continuamente recriados pelas comunidades, de acordo com suas experiências históricas, necessidades e relações sociais.
Reconhecimento fortalece manifestações de matriz africana
Para o ebomi Antonione Afonso, produtor executivo do Bembé do Mercado há cinco anos, a atuação do poder público contribui para assegurar o reconhecimento das tradições de matriz africana como parte do patrimônio coletivo.
“A parceria com o IPAC reafirma que o Estado reconhece o direito à cultura e a importância das manifestações de matriz africana enquanto legado para toda a população. Isso representa cidadania, acesso a direitos e fortalecimento das ações de salvaguarda desses bens culturais.”
Além do registro estadual, o Bembé do Mercado foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil em 13/06/2019. A manifestação foi inscrita no Livro de Registro das Celebrações e tornou-se a primeira celebração diretamente relacionada às religiões de matriz africana a integrar esse livro.
O reconhecimento nacional considera o Bembé uma celebração de fé, memória e resistência conduzida pelas casas de candomblé de Santo Amaro. Sua realização articula rituais religiosos, expressões culturais e momentos de reflexão sobre os direitos e as lutas históricas da população negra.
Celebração surgiu após a abolição da escravidão
O Bembé do Mercado foi realizado pela primeira vez em 1889, um ano após a abolição formal da escravidão no Brasil. A manifestação surgiu como um ato público de celebração da liberdade e de agradecimento aos orixás pelo encerramento de mais de três séculos de regime escravista.
A iniciativa é atribuída ao babalorixá João de Obá, que levou os atabaques, os cânticos e os rituais do candomblé às ruas de Santo Amaro. A ocupação do espaço público ocorreu em um período no qual as religiões de matriz africana enfrentavam perseguições, restrições e criminalização.
Ao transformar o Largo do Mercado em espaço ritual, João de Obá estabeleceu um marco de afirmação pública da religiosidade afro-brasileira. O gesto reuniu comunidades negras recém-libertas em torno da memória, da ancestralidade e da defesa do direito de manifestar sua fé.
Desde então, a celebração é transmitida entre gerações e se mantém vinculada ao dia 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea. A interpretação construída pelas comunidades, entretanto, ultrapassa o ato formal da abolição e incorpora a resistência dos negros libertos, a continuidade das tradições africanas e a reivindicação de direitos.
O Iphan registra que a primeira celebração pública durou três dias e reuniu pescadores e integrantes do povo de santo no Largo do Mercado, em um candomblé realizado como forma de afirmar a liberdade, agradecer aos orixás e renovar as forças da comunidade.
Mais de 40 terreiros participam da celebração
Considerado o maior candomblé de rua do mundo realizado de forma ininterrupta, o Bembé reúne mais de 40 terreiros, representando tradições das nações Ketu, Angola e Jeje.
Também participam lideranças religiosas, sambistas, capoeiristas, artistas, pesquisadores, comunidades tradicionais e visitantes de diferentes regiões do país. A programação combina atividades religiosas com manifestações culturais associadas à formação histórica do Recôncavo Baiano.
“O Bembé é símbolo de resistência no Recôncavo e demonstra como os terreiros são grandes centros culturais, que articulam religiosidade, música, dança, gastronomia, artesanato, economia criativa e afirmação de direitos”, declarou Antonione Afonso.
O evento também contribui para a circulação de visitantes e para a valorização cultural de Santo Amaro. A edição de 2026 reúne rituais, atividades educativas, apresentações e ações relacionadas à memória afro-brasileira e ao afroturismo no Recôncavo.
Programação segue com xirê e entrega de presentes
A 137ª edição foi aberta na quarta-feira, 13/05, com uma alvorada às 5 horas, seguida pela lavagem do busto de João de Obá. O ato simboliza a homenagem ao fundador da manifestação e marca o início das atividades religiosas realizadas no Largo do Mercado.
Durante as noites da programação, os terreiros promovem o xirê público, ritual coletivo composto por cânticos, danças e toques destinados aos orixás. O último xirê da edição está previsto para este sábado, 16/05, às 20 horas.
No domingo, 17/05, será realizada a tradicional entrega de presentes a Iemanjá e Oxum. O cortejo sairá do Largo do Mercado em direção à Praia de Itapema, onde ocorrerá a cerimônia de encerramento.
A sequência ritual conecta os terreiros, o centro urbano e as águas, preservando elementos que fazem parte da celebração desde suas origens. O trajeto também reafirma a relação entre a religiosidade, a história local e os espaços simbólicos de Santo Amaro.
Linha do tempo do Bembé do Mercado
- 13/05/1888 — Abolição formal da escravidão: a Lei Áurea encerra juridicamente o regime escravista no Brasil, sem estabelecer políticas amplas de integração econômica e social para a população libertada.
- 13/05/1889 — Primeira realização do Bembé: João de Obá organiza no Largo do Mercado um candomblé público em celebração à liberdade e em agradecimento aos orixás.
- 1997 — Início das pesquisas de Ana Rita Machado: a antropóloga passa a estudar a manifestação, então fortemente vinculada aos territórios negros e aos terreiros de Santo Amaro.
- 2012 — Reconhecimento estadual: o IPAC registra o Bembé do Mercado como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, no Livro de Registro Especial dos Eventos e Celebrações.
- 13/06/2019 — Reconhecimento nacional: o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprova o registro do Bembé como Patrimônio Cultural do Brasil, no Livro de Registro das Celebrações.
- 2026 — 137ª edição e revalidação: o IPAC realiza monitoramento técnico, registros documentais e coleta de depoimentos para avaliar a continuidade histórica, as transformações e as medidas de salvaguarda do bem cultural.
O monitoramento realizado pelo IPAC permite que a revalidação seja fundamentada não apenas na permanência formal da celebração, mas também nas condições concretas de transmissão dos conhecimentos, participação dos terreiros e preservação dos espaços e rituais associados ao Bembé. A documentação produzida poderá identificar avanços, dificuldades e necessidades das comunidades envolvidas.








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