A Livraria Editora Vaticana lançou na segunda-feira (04/05/2026) o livro Livres sob a Graça. Na escola de Santo Agostinho diante dos desafios da história, coletânea de discursos e pronunciamentos de Robert Francis Prevost, hoje Papa Leão XIV, produzidos no período em que exercia a função de Prior Geral da Ordem de Santo Agostinho. Promovida pela própria Ordem por ocasião do primeiro aniversário da eleição do Pontífice, a publicação reúne reflexões sobre missão, conversão, vida comunitária e desafios pastorais, entre elas uma homilia proferida em Manila, nas Filipinas, em 19 de setembro de 2010, na qual Prevost contrapõe a preservação do status quo à necessidade de uma Igreja voltada à evangelização e à leitura dos sinais dos tempos.
Obra será apresentada em Roma com presença de lideranças da Santa Sé
O volume será apresentado na quarta-feira (06/05/2026), às 17h, no Pontifício Instituto Patrístico Augustinianum, em Roma. O evento contará com a presença do secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin; do Prior Geral da Ordem de Santo Agostinho, padre Joseph Farrell; do prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini; da escritora Maria Grazia Calandrone; e do diretor da Mídia Vaticana, Andrea Tornielli.
A edição foi organizada pelos agostinianos Rocco Ronzani, Miguel Ángel Martín Juárez e Michael Di Gregorio. Segundo o conteúdo divulgado, a obra está sendo traduzida para 30 países, o que indica a intenção de ampliar internacionalmente o acesso aos textos produzidos por Prevost antes de sua eleição ao pontificado.
O primeiro exemplar do livro foi entregue ao Papa Leão XIV no sábado (02/05/2026). A iniciativa atribui valor documental e pastoral aos pronunciamentos do então Prior Geral, especialmente por permitir a leitura retrospectiva de temas que ajudam a compreender parte da formação intelectual, espiritual e missionária do atual Pontífice.
Homilia de 2010 nas Filipinas destaca conversão e missão
Entre os textos apresentados está a homilia pronunciada por Robert Francis Prevost na abertura do Capítulo Geral Intermediário da Província de Santo Niño de Cebu, na Igreja de San Augustín de Intramuros, em Manila. O discurso parte da figura de Andrés de Urdaneta, navegador ligado à história das Filipinas e do México, cuja trajetória é usada como metáfora espiritual.
Prevost recorda que Urdaneta ficou conhecido pela descoberta do tornaviaje, rota marítima segura de retorno das Filipinas ao México. Para o então Prior Geral, porém, a dimensão mais profunda da trajetória do navegador não estava apenas na navegação ou no comércio, mas na conversão religiosa que o levou a ingressar na Ordem de Santo Agostinho.
A partir dessa imagem, Prevost propõe uma leitura espiritual da “viagem de retorno”. Segundo ele, a experiência cristã e a vida consagrada constituem uma jornada orientada a Cristo, vivida por meio da comunidade, da missão apostólica e da busca permanente por Deus.
Prevost critica acomodação espiritual e pastoral
A homilia alerta para o risco de estagnação na vida religiosa. Prevost afirma que religiosos e comunidades podem, em algum ponto do caminho, reduzir o ritmo, tornar-se “autossatisfeitos e distraídos” ou mesmo permanecer estagnados em sua vida espiritual e em seu trabalho pastoral.
A crítica central recai sobre a perda de vitalidade missionária. O então Prior Geral observa que a vida das comunidades locais e das circunscrições religiosas pode deixar de inspirar e atrair novas pessoas quando se acomoda à rotina, à repetição e à ausência de renovação.
Ao falar aos agostinianos reunidos em Manila, Prevost propõe uma série de perguntas: as comunidades desejam apenas manter o que já possuem ou estão dispostas a ouvir os “corações inquietos”, a Palavra de Deus e os sinais dos tempos? O tema adquire força porque se vincula diretamente à espiritualidade agostiniana, marcada pela busca interior, pela conversão e pela inquietação diante de Deus.
“Conservação ou missão?” é o eixo do discurso
O ponto mais relevante da homilia está na oposição entre duas atitudes diante da história: preservar o que existe ou assumir a missão evangelizadora com abertura ao futuro. Prevost formula essa tensão por meio da pergunta: “conservação ou missão?”
Segundo o texto, uma comunidade centrada apenas na conservação tende a dizer: “Devemos permanecer fiéis ao nosso passado”. Já uma comunidade orientada pela missão afirmaria: “Devemos ser fiéis ao nosso futuro”. A formulação não rejeita a tradição, mas desloca o foco: a fidelidade ao passado não pode servir como justificativa para a paralisia pastoral.
Prevost também diferencia os critérios de avaliação de uma comunidade. Enquanto uma estrutura voltada à preservação perguntaria se determinado apostolado é financeiramente sustentável, uma comunidade missionária perguntaria: “Como podemos formar muitos discípulos?”. A mudança de perspectiva revela uma visão na qual a eficiência administrativa não deve substituir a finalidade evangelizadora.
Liderança transformadora aparece como exigência pastoral
Outro trecho relevante trata do estilo de liderança. Prevost reconhece que a mentalidade de preservação costuma valorizar uma liderança gerencial, organizada e eficiente, voltada a manter tudo em ordem e assegurar que as estruturas funcionem sem problemas.
No entanto, a homilia defende que uma comunidade dotada de visão profética e orientada à missão precisa de outro tipo de liderança: transformadora, capaz de oferecer uma visão do futuro, assumir riscos e mobilizar a comunidade para concretizar essa visão.
A distinção é importante porque revela uma preocupação institucional. Para Prevost, a administração e a organização são necessárias, mas não bastam quando se tornam fins em si mesmas. O desafio, segundo a homilia, é impedir que a gestão substitua a missão.
Evangelho de Lucas fundamenta escolha radical
A reflexão de Prevost é construída a partir do Evangelho de Lucas, especialmente da passagem: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza”.
O então Prior Geral interpreta a passagem como um chamado à escolha radical. Para ele, a divisão não se dá apenas entre Deus e a riqueza material, mas também entre o desejo de seguir Cristo e a vontade de permanecer onde se está, satisfeito e pouco disposto a mudar.
Prevost recorre ainda a Santo Agostinho para reforçar a ideia de que a infidelidade pode ocorrer não apenas por rejeição explícita a Deus, mas por indiferença, acomodação e comprometimento excessivo com outros interesses. Nesse sentido, a crítica é dirigida menos a um erro doutrinário e mais a uma perda gradual de zelo espiritual.
Comunidade missionária deve “alcançar o mundo”
Na parte final da homilia, Prevost afirma que uma comunidade voltada à manutenção pensará, antes de tudo, em como salvar a própria congregação. Já uma comunidade missionária pensará em “como alcançar o mundo”.
A frase sintetiza a orientação do discurso. A missão cristã, nessa perspectiva, não pode ser reduzida à conservação institucional, à proteção de estruturas ou à repetição de práticas tradicionais sem discernimento. A tradição, para permanecer viva, precisa gerar movimento, conversão e serviço.
O texto termina com um convite à renovação do compromisso com a missão evangelizadora. Prevost pede que o Espírito Santo guie e ilumine os religiosos, reforçando a centralidade espiritual da decisão que cada comunidade deve tomar diante das mudanças históricas.
Citações centrais do texto
Entre as passagens mais relevantes atribuídas a Robert Francis Prevost, destacam-se:
- “Queremos manter o que temos, permanecer onde estamos, ou queremos ouvir nossos corações inquietos?”
- “Devemos permanecer fiéis ao nosso passado”, expressão usada para caracterizar comunidades centradas na preservação.
- “Devemos ser fiéis ao nosso futuro”, formulação associada à atitude missionária.
- “Como podemos formar muitos discípulos?”, pergunta que desloca o foco da mera sustentabilidade administrativa para a evangelização.
- “Se isso nos ajudar a alcançar alguns daqueles que estão longe, aceitamos o risco de fazê-lo.”
- “Uma comunidade dedicada à missão pensará, antes de tudo, em como alcançar o mundo.”
Essas citações estruturam a tensão principal do discurso: a necessidade de preservar a fidelidade ao Evangelho sem transformar a tradição em imobilismo institucional.
Tradição, mudança e missão
A publicação de Livres sob a Graça tem relevância porque permite observar, em textos anteriores ao pontificado, elementos da formação pastoral e teológica de Robert Francis Prevost. A homilia de 2010 mostra uma preocupação recorrente na Igreja contemporânea: a tensão entre tradição e renovação, entre continuidade institucional e abertura missionária.
O discurso não propõe ruptura com o passado. Ao contrário, parte de Santo Agostinho, da tradição agostiniana e da memória histórica de Urdaneta para sustentar a necessidade de conversão. A força do argumento está justamente nesse ponto: a mudança defendida por Prevost não aparece como negação da tradição, mas como consequência de uma fidelidade viva ao Evangelho.
Também há uma tensão institucional evidente. Comunidades religiosas, dioceses e estruturas eclesiais podem confundir estabilidade com fidelidade, gestão com missão e preservação interna com evangelização. A crítica de Prevost sugere que a Igreja perde força quando sua principal preocupação passa a ser proteger a própria estrutura, em vez de formar discípulos e alcançar os que estão distantes.











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