Os números da Copa do Mundo de 2026 não cabem em um campo de futebol. A entidade que organiza o torneio nos Estados Unidos, Canadá e México projeta receitas diretas de US$ 10,9 bilhões — um salto de 56% sobre os US$ 7 bilhões gerados no Catar em 2022. Os direitos de transmissão sozinhos devem render algo entre US$ 3,92 e US$ 4,2 bilhões. Os patrocínios passam de US$ 2,8 bilhões, com a FIFA anunciando lotação esgotada de vagas comerciais. E a bilheteria, somada à hospitalidade, pode chegar a US$ 3 bilhões, contra cerca de US$ 950 milhões no Catar — uma alta de 216%.
Esse novo tamanho econômico também ajuda a explicar por que cresce o interesse de torcedores, analistas e até de quem acompanha mercados esportivos pelas melhores casas de apostas para o Mundial 2026, já que o torneio promete movimentar atenção global, audiências recordes e uma quantidade inédita de dados sobre seleções, jogadores e desempenho.
Diante de uma cifra dessas, a FIFA repete uma frase que funciona como escudo institucional: ela é uma organização sem fins lucrativos que devolve o dinheiro ao futebol mundial. A afirmação é juridicamente verdadeira. E é exatamente por isso que merece ser examinada de perto.
O escudo do “sem fins lucrativos”
A FIFA está registrada na Suíça como associação, sob os artigos 60 e seguintes do Código Civil suíço. Esse estatuto a obriga a gastar suas reservas no desenvolvimento do esporte e, na prática, isenta a entidade do imposto federal sobre a receita da Copa. Em janeiro de 2024, o cantão de Zurique rejeitou uma proposta que obrigaria entidades com faturamento acima de 1 bilhão de francos suíços a pagar a alíquota corporativa normal — o dinheiro que passa pelos cofres da FIFA triplica esse limite.
“É um mistério para mim como a FIFA pode ser descrita como uma associação sem fins lucrativos. Ninguém na rua entende isso”, resumiu o parlamentar suíço Stefan Feldmann à época. A questão não é semântica. Ser “sem fins lucrativos” não impede acumulação nem concentração de poder. As reservas da FIFA saltaram de US$ 1,6 bilhão em 2021 para quase US$ 4 bilhões ao fim de 2022. No mesmo relatório que descrevia as finanças como “excepcionalmente robustas”, o pacote salarial do presidente Gianni Infantino subiu para 3,6 milhões de francos suíços — cifra que, em 2024, chegaria a um acordo de US$ 4,6 milhões, um aumento de 33%.
Onde o dinheiro realmente para
A premiação de 2026 é a maior da história: US$ 871 milhões distribuídos entre as 48 seleções. O campeão leva US$ 50 milhões. Cada seleção classificada recebe ao menos US$ 12,5 milhões garantidos antes mesmo de entrar em campo.
O detalhe estrutural está na comparação. Esses US$ 871 milhões representam cerca de 8% das receitas diretas projetadas. O grosso do dinheiro — os bilhões de transmissão e patrocínio — fica concentrado em quem controla os contratos comerciais: as grandes federações europeias e a própria FIFA, que captura quase toda a renda do evento enquanto os países-sede arcam com os custos de organização.
O Programa FIFA Forward, vitrine da entidade para “devolver o dinheiro ao futebol”, distribuiu US$ 2,79 bilhões a federações e confederações entre 2016 e 2022. Mas um relatório de 174 páginas da organização FairSquare, baseado em mais de cem entrevistas com administradores, economistas e juristas, foi categórico: as reformas de 2016 produziram “pouca ou nenhuma melhora”. O financiamento, segundo a análise, não é alocado por necessidade nem auditado de forma transparente, e funcionaria sobretudo para “comprar o apoio político das federações-membro” — um sistema de patronagem em que o dinheiro do desenvolvimento sustenta a base eleitoral da presidência. Cada federação recebe hoje cerca de US$ 8 milhões a cada quatro anos: relevante para uma associação pequena, irrisório diante dos contratos bilionários que sustentam o sistema.
Os clubes e a conta que não fecha
Os clubes que cedem jogadores recebem compensação pelo Programa de Benefícios a Clubes: US$ 355 milhões em 2026, alta de 70% sobre o Catar. O número parece generoso até dividir. Em 2022, US$ 209 milhões foram repartidos entre 440 clubes; o Manchester City, maior beneficiário, levou cerca de US$ 4,6 milhões. Agora a mesma lógica se aplica a um universo muito maior — 48 seleções na fase final e quase 200 nações nos eliminatórios. O bolo cresceu, mas a fatia individual encolheu. Clubes europeus já haviam recebido 76% do total anterior; a desigualdade na base não foi corrigida, apenas redistribuída.
Os países-sede e os torcedores
A literatura econômica é quase unânime sobre o mito do legado. Andrew Zimbalist, autor de Circus Maximus, não encontra ganhos econômicos líquidos para países que sediaram Copas ou Olimpíadas. O estádio mais caro do Brasil em 2014 virou estacionamento; o Tribunal de Contas concluiu que o gasto público teria pago a conta anual do Bolsa Família duas vezes. Sobre Miami em 2026, Zimbalist foi direto: no melhor cenário, impacto neutro; mais provavelmente, negativo. Os fãs do estádio enriquecem os hotéis, mas o salário do faxineiro não acompanha a tarifa multiplicada — o economista Victor Matheson chama isso de “vazamento”: o dinheiro entra e sai sem ficar na economia local.
E há o torcedor comum. Com o preço dinâmico, ingressos da final chegaram a quase US$ 11 mil, e revendas ultrapassaram cifras absurdas. A Football Supporters Europe falou em “traição monumental”. Até Donald Trump declarou que não pagaria os mais de US$ 1.000 pedidos no jogo de abertura dos EUA.
A pergunta que a FIFA evita responde-se sozinha quando se segue o dinheiro. O torneio gera mais riqueza do que nunca. Ela apenas não chega, em proporção justa, a quem realmente sustenta o jogo.









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