O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou nesta segunda-feira (11/05/2026) que não há solução militar para a situação em torno de Cuba, em resposta ao aumento das tensões entre Havana e Washington após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que seu governo vai “cuidar” da ilha. A manifestação ocorreu em coletiva de imprensa e foi feita em meio a relatos de ampliação dos voos de reconhecimento militar norte-americanos próximos à costa cubana, ao endurecimento das sanções dos EUA contra setores estratégicos da economia cubana e à preocupação internacional com uma eventual escalada no Caribe.
Guterres rejeita via militar para Cuba e defende solução diplomática
António Guterres declarou que a ONU considera inadequada qualquer tentativa de resolver a crise cubana por meios militares. “Acreditamos que não há solução militar para a situação em torno de Cuba”, afirmou o secretário-geral, segundo relato divulgado nesta segunda-feira. A declaração reforça a posição tradicional das Nações Unidas em defesa da negociação, da soberania dos Estados e da contenção de medidas capazes de ampliar instabilidades regionais.
A fala ocorre um dia depois de Donald Trump afirmar que os Estados Unidos vão “cuidar” de Cuba, sem detalhar quais medidas pretende adotar. A declaração foi interpretada como mais um sinal de pressão da Casa Branca sobre Havana, em um contexto já marcado por sanções econômicas, restrições financeiras e aumento da vigilância militar no entorno da ilha.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, os militares norte-americanos teriam ampliado de forma significativa os voos de reconhecimento próximos à costa cubana desde fevereiro. O dado adiciona preocupação ao ambiente diplomático, pois movimentos dessa natureza tendem a elevar o risco de incidentes, erros de cálculo e reações políticas em cadeia.
Endurecimento das sanções amplia pressão sobre Havana
A tensão entre Estados Unidos e Cuba se agravou após Washington impor novas sanções contra estruturas econômicas ligadas ao governo cubano. Em 7 de maio de 2026, os Estados Unidos anunciaram sanções financeiras contra o conglomerado militar cubano GAESA e contra a joint venture de mineração Moa Nickel SA, medida que atingiu setores relevantes para a entrada de divisas no país.
As medidas fazem parte de uma estratégia mais ampla da administração Trump para restringir o acesso de Cuba a investimentos estrangeiros, receitas em moeda forte, operações relacionadas ao turismo, mineração e remessas. O governo cubano classificou as sanções como agressão econômica, enquanto autoridades norte-americanas afirmam que as ações buscam pressionar por mudanças políticas e econômicas na ilha.
A China também reagiu ao endurecimento das sanções norte-americanas e declarou, em 5 de maio de 2026, que as medidas ampliadas contra Cuba seriam ilegais e contrárias às normas internacionais. Pequim pediu a suspensão do embargo e criticou o uso de instrumentos coercitivos contra a população cubana.
Posição da ONU sobre Cuba reforça defesa da soberania nacional
A declaração de Guterres se insere em uma linha diplomática recorrente da ONU: a defesa de que crises políticas internas e disputas bilaterais devem ser tratadas por meio de negociação, diálogo e respeito ao direito internacional. No caso cubano, o tema é particularmente sensível porque envolve décadas de embargo econômico, isolamento diplomático parcial e sucessivas disputas entre Havana e Washington.
A Assembleia Geral da ONU tem aprovado, ano após ano, resoluções críticas ao embargo norte-americano contra Cuba. Embora essas resoluções não tenham força vinculante, elas expressam uma posição majoritária da comunidade internacional contrária à manutenção de sanções econômicas amplas contra a ilha.
Ao rejeitar a via militar, Guterres tenta conter a normalização de uma linguagem de força em uma região historicamente marcada por intervenções, pressões externas e disputas ideológicas. A crise cubana, nesse sentido, ultrapassa a relação bilateral entre Estados Unidos e Cuba e alcança o debate sobre limites da coerção internacional.
Secretário-geral também cobra reforma do Conselho de Segurança
Na mesma coletiva, Guterres defendeu a inclusão de países africanos entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Segundo o secretário-geral, a ausência de representação permanente da África no principal órgão decisório da organização constitui uma injustiça histórica que permanece sem correção.
O argumento apresentado por Guterres se apoia no fato de que o continente africano tem participação expressiva nos temas discutidos pelo Conselho de Segurança, especialmente em operações de paz, crises humanitárias, conflitos internos, segurança alimentar e deslocamentos populacionais. Ainda assim, nenhum país africano ocupa assento permanente com poder de veto.
Guterres também afirmou que os países africanos precisam ter presença permanente na governança das instituições financeiras internacionais. A avaliação do secretário-geral é que a arquitetura política e econômica global ainda reflete a ordem do pós-Segunda Guerra Mundial e não corresponde mais à distribuição contemporânea de população, recursos, crises e interesses internacionais.
Estreito de Ormuz entra no centro da preocupação econômica global
Além da questão cubana, António Guterres tratou da crise no estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo e gás. O secretário-geral afirmou que a reabertura plena da navegação no estreito é essencial para reduzir pressões sobre os preços internacionais de fertilizantes, petróleo e gás.
“Os direitos e liberdades de navegação devem ser restaurados. O estreito de Ormuz deve ser totalmente reaberto para a navegação segura”, declarou Guterres. A posição da ONU ocorre em meio à tensão entre Estados Unidos, Irã e aliados regionais, em um cenário de risco para o comércio global de energia.
A agência Associated Press informou que Estados Unidos e aliados do Golfo apresentaram proposta ao Conselho de Segurança da ONU para pressionar o Irã a encerrar ações que afetam a navegação no estreito. O texto citado pela agência evita autorização direta para uso da força e concentra-se em sanções e medidas diplomáticas, numa tentativa de ampliar apoio internacional.
Impactos econômicos vão além do Oriente Médio
Guterres classificou como “sem sentido” que conflitos entre alguns Estados produzam prejuízos para toda a economia internacional. A observação reflete a natureza sistêmica do estreito de Ormuz: qualquer bloqueio, ameaça ou restrição à navegação pode gerar aumento de custos de transporte, encarecimento de energia e pressão inflacionária em países distantes do foco militar da crise.
O secretário-geral defendeu que Estados Unidos e Irã evitem nova escalada e deem “uma chance à diplomacia”. Segundo o conteúdo apresentado, Washington e Teerã anunciaram cessar-fogo em 8 de abril, após ataques iniciados em 28 de fevereiro contra alvos no Irã, mas violações da trégua continuaram sendo registradas.
As negociações realizadas posteriormente em Islamabad não produziram acordo, e os Estados Unidos passaram a impor bloqueio aos portos iranianos. Embora não tenha sido relatada retomada formal das hostilidades, o cenário permanece instável e com alto potencial de repercussão sobre energia, fertilizantes e comércio internacional.
Cuba e Ormuz expõem limites da ordem internacional
As declarações de António Guterres conectam duas crises distintas, mas unidas por um ponto comum: o risco de substituição da diplomacia por coerção militar ou econômica. No caso de Cuba, a tensão envolve soberania, sanções e possibilidade de pressão direta dos Estados Unidos sobre um país historicamente adversário. No caso de Ormuz, a disputa envolve segurança marítima, energia e estabilidade econômica global.
A ONU busca preservar seu papel como foro de contenção de conflitos, ainda que enfrente limitações conhecidas. O Conselho de Segurança continua condicionado ao poder de veto das grandes potências, o que frequentemente impede respostas consensuais em crises envolvendo Estados Unidos, Rússia, China e seus aliados.
A posição de Guterres, portanto, tenta reafirmar uma premissa clássica da diplomacia multilateral: conflitos com potencial regional ou global não devem ser tratados como disputas isoladas entre governos, pois seus efeitos recaem sobre populações, mercados, cadeias produtivas e sistemas de segurança internacional.
Diplomacia sob pressão em um sistema internacional fragmentado
A manifestação de António Guterres evidencia a dificuldade crescente da ONU em conter crises quando grandes potências recorrem a sanções, bloqueios, presença militar ou linguagem de ameaça. A advertência sobre Cuba tem peso político porque ocorre em um momento de endurecimento da política externa norte-americana para o Caribe, mas também revela a fragilidade dos mecanismos multilaterais diante de decisões unilaterais de Washington.
No plano institucional, a defesa de uma reforma do Conselho de Segurança reforça uma contradição antiga: a ONU cobra respeito ao direito internacional, mas seu principal órgão de segurança ainda reflete uma estrutura de poder congelada em 1945. A ausência de assentos permanentes africanos é um exemplo de desequilíbrio histórico que compromete a legitimidade do sistema.
A crise no estreito de Ormuz amplia a dimensão econômica do problema. Quando disputas militares ou diplomáticas afetam rotas de energia, os custos chegam rapidamente a países que não participam diretamente do conflito. A advertência de Guterres, nesse ponto, é objetiva: sem navegação segura, a instabilidade política se converte em inflação, crise logística e insegurança alimentar.








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