Operação Vérnix prende advogada Deolane Bezerra em investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao PCC em São Paulo

A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra foi presa nesta quinta-feira (21/05/2026), em Barueri, na região metropolitana de São Paulo, durante a Operação Vérnix, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. A investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro vinculado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com uso de uma transportadora de fachada, movimentações financeiras consideradas incompatíveis e ocultação de patrimônio atribuído à cúpula da organização criminosa. A ação também teve como alvos Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelas autoridades como chefe da facção, familiares dele e operadores financeiros investigados.

Operação Vérnix mira lavagem de dinheiro atribuída ao PCC

A prisão de Deolane Bezerra ocorreu no início da manhã, no condomínio onde ela reside, em Barueri, na Grande São Paulo. A operação cumpriu mandados de prisão preventiva, busca e apreensão, bloqueio de valores e sequestro de bens de luxo vinculados aos investigados.

Segundo as informações apresentadas pela investigação, a Operação Vérnix busca aprofundar a apuração sobre uma engrenagem financeira supostamente utilizada para ocultar, dissimular e reinserir na economia formal recursos associados ao PCC. O esquema, conforme os investigadores, envolveria empresas, terceiros, bens patrimoniais e movimentações bancárias sem lastro econômico compatível.

Entre as medidas determinadas pela Justiça estão seis prisões preventivas, bloqueios de valores superiores a R$ 327 milhões, sequestro de veículos de alto padrão e imóveis vinculados aos investigados. Há divergência entre levantamentos divulgados por diferentes veículos sobre o valor total bloqueado, com menções também a cifras superiores a R$ 357 milhões, o que indica que os dados ainda dependem de consolidação oficial.

Investigação começou com bilhetes apreendidos em presídio

A origem da investigação remonta a 2019, quando bilhetes e manuscritos foram apreendidos com presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista. O material, segundo a apuração, teria revelado elementos sobre a dinâmica interna do PCC, ordens transmitidas por lideranças presas e possíveis planos contra agentes públicos.

A partir desses documentos, a Polícia Civil instaurou inquéritos para apurar a estrutura operacional da facção e identificar personagens citados nas mensagens. Um dos trechos mencionava uma “mulher da transportadora”, que teria contribuído com informações sobre endereços de servidores públicos que poderiam ser alvos de ataques planejados.

Essa linha investigativa levou as autoridades a uma transportadora sediada em Presidente Venceslau. A empresa passou a ser tratada como possível instrumento de lavagem de dinheiro e teria servido como fachada para movimentações financeiras atribuídas à facção criminosa.

Transportadora teria funcionado como fachada financeira

A investigação aponta que a transportadora teria sido usada para dar aparência de legalidade a recursos de origem ilícita. A empresa estaria vinculada a pessoas ligadas à cúpula do PCC e a supostos gestores fantasmas, responsáveis por movimentar valores e ocultar a real titularidade de bens.

Em uma fase anterior da apuração, chamada Operação Lado a Lado, a polícia apreendeu um celular que deu origem a uma nova frente investigativa. A análise do aparelho revelou conversas entre pessoas relacionadas ao alto escalão da facção, indícios de repasses financeiros e menções a terceiros que poderiam estar envolvidos na movimentação de recursos.

Foi nesse contexto que o nome de Deolane Bezerra passou a aparecer com maior relevância. Os investigadores afirmam ter identificado vínculos pessoais e comerciais da influenciadora com um dos gestores fantasmas da transportadora, além de movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a origem declarada dos recursos.

Deolane é investigada por movimentações financeiras suspeitas

De acordo com a apuração, Deolane Bezerra teria recebido depósitos considerados suspeitos entre 2018 e 2021. A análise financeira identificou dezenas de transferências fracionadas destinadas a contas ligadas à influenciadora, incluindo valores que, somados, teriam se aproximado de R$ 700 mil.

Parte dos repasses teria sido feita por um homem da Bahia que recebe salário mínimo e é suspeito de atuar como “laranja” no esquema. Segundo os investigadores, os valores não teriam sido formalmente declarados, o que reforçou a suspeita de ocultação patrimonial e circulação de dinheiro sem origem esclarecida.

A Justiça também teria determinado o bloqueio de aproximadamente R$ 27 milhões em contas vinculadas à influenciadora. A medida, de caráter cautelar, tem como objetivo preservar eventual ressarcimento e impedir a dissipação de bens enquanto a investigação avança.

Marcola, familiares e operador financeiro estão entre os alvos

Além de Deolane, a Operação Vérnix também cumpre medidas contra Marcola, que já está preso em unidade federal de segurança máxima no Distrito Federal. Também aparecem entre os alvos familiares do líder da facção, incluindo irmão e sobrinhos mencionados na investigação.

Outro preso na operação foi Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado pela polícia como operador financeiro do grupo criminoso. Segundo a apuração, ele teria aparecido em mensagens orientando distribuição de valores e indicando contas bancárias usadas nas movimentações investigadas.

Os mandados de busca também atingiram imóveis ligados à influenciadora, um influenciador apontado como filho de criação de Deolane e um contador. A investigação busca identificar se essas pessoas tiveram participação direta, indireta ou instrumental na movimentação dos recursos suspeitos.

Bens de luxo e bloqueios patrimoniais integram a ofensiva judicial

A operação incluiu o sequestro de veículos de luxo e imóveis de alto valor. Os dados apresentados indicam a apreensão de 17 veículos, incluindo modelos avaliados em mais de R$ 8 milhões. Outros relatos mencionam até 39 veículos de luxo, o que reforça a necessidade de confirmação oficial sobre a quantidade total de bens alcançados pelas medidas.

Para os investigadores, a aquisição de bens de alto padrão, o uso de empresas formais e a projeção pública dos investigados teriam servido para criar uma camada de aparente normalidade econômica. Essa estratégia é comum em apurações de lavagem de dinheiro, nas quais a origem ilícita dos recursos é ocultada por meio de atividades empresariais, contratos, contas bancárias e patrimônio registrado em nome de terceiros.

No caso específico de Deolane, a suspeita é de que sua atividade pública e empresarial possa ter sido utilizada como elemento de legitimação patrimonial. A defesa da influenciadora, contudo, deverá ter oportunidade de se manifestar no processo, e os investigados seguem amparados pela presunção de inocência até eventual decisão condenatória definitiva.

Prisão anterior de Deolane voltou ao debate público

A nova prisão também reacendeu a lembrança da Operação Integration, deflagrada em setembro de 2024 pela Polícia Civil de Pernambuco. Na ocasião, Deolane foi investigada em um suposto esquema de lavagem de dinheiro e jogos ilegais envolvendo casas de apostas.

Naquele procedimento, autoridades apreenderam carros de luxo, dinheiro em espécie e outros bens de alto valor. Também foram determinados bloqueios financeiros que ultrapassaram R$ 300 milhões, segundo informações divulgadas à época.

Embora os dois casos envolvam suspeitas de lavagem de dinheiro, a Operação Vérnix tem foco distinto: a apuração de possível estrutura financeira ligada ao PCC, com origem em bilhetes apreendidos em presídio paulista e desdobramentos relacionados a uma transportadora investigada no interior de São Paulo.

Caso envolve crime organizado, economia formal e influência digital

A prisão de uma influenciadora com grande projeção pública em uma investigação sobre o PCC amplia o alcance social e político do caso. A apuração coloca em evidência a interseção entre crime organizado, empresas de fachada, circulação de valores milionários e capital simbólico de figuras públicas.

O caso também expõe um desafio recorrente das autoridades: rastrear recursos que passam por contas pessoais, empresas aparentemente regulares, bens de luxo e terceiros sem capacidade financeira compatível. A lavagem de dinheiro, quando bem estruturada, não se limita à ocultação de valores; ela procura inserir recursos no mercado formal com aparência de legalidade.

Nesse contexto, a Operação Vérnix tende a ter novos desdobramentos, especialmente com a análise de celulares, documentos, transações bancárias, contratos empresariais e eventuais vínculos entre os alvos. A evolução do caso dependerá da robustez das provas, da manifestação das defesas e das decisões judiciais nas próximas fases da investigação.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading