A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) entrega, nesta quinta-feira (28/05/2026), o título de Doutora Honoris Causa à líder espiritual Mãe Maria Pequena de Ogum, em cerimônia marcada para as 16h, no Teatro da Uefs, em Feira de Santana. A honraria reconhece sua contribuição à preservação dos saberes ancestrais das religiões de matriz africana, à cultura afro-brasileira, à espiritualidade, à resistência negra e à atuação comunitária desenvolvida ao longo de décadas.
A solenidade ocorre dentro da programação comemorativa dos 50 anos da Universidade Estadual de Feira de Santana, instituição criada em 1976 e consolidada como uma das principais referências do ensino superior público no interior da Bahia.
A programação alusiva ao cinquentenário da Uefs acontece entre os dias 27 e 31 de maio de 2026, com atividades culturais, artísticas, musicais e institucionais abertas à comunidade acadêmica e ao público externo.
No caso da homenagem a Mãe Maria Pequena de Ogum, a cerimônia está prevista para ocorrer após a instalação do Conselho Universitário (Consu) e deve ser encerrada com apresentação da Orquestra Aguidavi do Jêje, conforme programação divulgada pela universidade.
A entrega do título insere-se em um momento simbólico para a instituição: ao celebrar cinco décadas de atuação, a Uefs amplia o reconhecimento público de trajetórias ligadas à educação, à cultura popular, à memória social e à diversidade religiosa.
Quinta concessão do título pela Universidade
Esta será a quinta vez que a Uefs outorga o título de Doutor ou Doutora Honoris Causa. Também será a segunda concessão a uma mulher, dado que reforça o caráter histórico da cerimônia.
O título de Doutor Honoris Causa é uma das principais distinções acadêmicas concedidas por universidades. Em geral, é destinado a personalidades que, mesmo sem vínculo formal com a carreira universitária tradicional, apresentam contribuição reconhecida para a sociedade, para a cultura, para a ciência, para a educação ou para a defesa de valores públicos relevantes.
No caso de Mãe Maria Pequena de Ogum, a homenagem destaca uma trajetória construída fora dos marcos convencionais da produção acadêmica, mas diretamente vinculada à transmissão de conhecimentos, à formação comunitária e à preservação de tradições culturais.
Proposta foi apresentada por professor da Licenciatura em Música
A proposta de concessão do título foi apresentada pelo professor Jeanderson Santos, do curso de Licenciatura em Música da Uefs. Segundo o docente, a indicação nasceu do reconhecimento de uma trajetória marcada pelo cuidado coletivo, pela transmissão de saberes ancestrais e pela preservação das tradições afro-brasileiras.
De acordo com Jeanderson Santos, Mãe Maria Pequena de Ogum representa uma liderança espiritual cuja atuação ultrapassa os limites do terreiro e alcança dimensões sociais, culturais, educativas e humanas relevantes para Feira de Santana.
A proposta foi aprovada anteriormente pelo Conselho Universitário, em reunião realizada em 03/11/2025, na Sala dos Conselhos da Reitoria. Na ocasião, a aprovação por unanimidade consolidou institucionalmente o reconhecimento da universidade à homenageada.
Reitora classifica homenagem como ato de respeito e justiça
A reitora da Uefs, professora Amali Mussi, afirmou que a concessão do título representa um momento marcante para a universidade. Segundo ela, a homenagem constitui um ato de afeto, respeito e justiça, ao reconhecer uma vida dedicada ao acolhimento, à resistência e à preservação da ancestralidade.
Para a reitora, a trajetória de Mãe Maria Pequena de Ogum expressa valores que dialogam com a identidade da universidade pública, especialmente no campo da valorização das raízes culturais, da memória coletiva e da relação entre conhecimento acadêmico e saberes comunitários.
A declaração da dirigente também situa a homenagem como parte de um movimento mais amplo de aproximação entre a universidade e a sociedade, especialmente com grupos historicamente associados à transmissão oral de conhecimentos e à preservação de tradições afro-brasileiras.
Liderança espiritual e comunitária em Feira de Santana
Mãe Maria Pequena de Ogum é reconhecida como liderança espiritual ligada ao Terreiro de Umbanda Maria Pequena de Ogum de Ronda, em Feira de Santana. Sua atuação é associada à manutenção de práticas religiosas, culturais e comunitárias vinculadas às tradições de matriz africana.
Ao longo de sua trajetória, a homenageada tornou-se referência para grupos, famílias e comunidades que encontram no terreiro não apenas um espaço religioso, mas também um ambiente de acolhimento, orientação, convivência e preservação de memória.
A homenagem da Uefs destaca justamente essa dimensão ampliada da liderança espiritual: a capacidade de reunir espiritualidade, cultura, oralidade, formação cidadã e resistência simbólica em um mesmo percurso de vida.
Saberes ancestrais entram no centro da agenda acadêmica
A concessão do título a Mãe Maria Pequena de Ogum tem relevância institucional porque desloca para o centro da agenda acadêmica saberes historicamente transmitidos por meio da oralidade, da convivência comunitária e da experiência religiosa.
As religiões de matriz africana tiveram papel decisivo na preservação de identidades culturais afro-brasileiras, especialmente em contextos marcados por perseguição, preconceito religioso, racismo estrutural e marginalização social. Nesse sentido, a homenagem reconhece uma dimensão que vai além da trajetória individual da homenageada.
Ao conceder a honraria, a Uefs afirma que o conhecimento não se limita ao espaço formal da sala de aula, ao laboratório ou à produção bibliográfica. Ele também se manifesta em práticas culturais, rituais, memórias, cantos, narrativas, formas de cuidado e organização comunitária.








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