Uefs concede título de Doutora Honoris Causa à Mãe Maria Pequena de Ogum em cerimônia histórica em Feira de Santana

A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) oficializou, na quinta-feira (28/05/2026), a entrega do título de Doutora Honoris Causa à sacerdotisa Mãe Maria Pequena de Ogum, em sessão do Conselho Universitário (Consu) realizada no Teatro da instituição. A honraria, considerada a mais elevada distinção acadêmica, reconhece a trajetória da líder religiosa como guardiã de saberes ancestrais, referência comunitária e dirigente do Terreiro de Umbanda Maria de Ogum de Ronda, em Feira de Santana.

Aos 85 anos, Mãe Maria Pequena de Ogum foi homenageada por sua atuação de mais de cinco décadas em defesa da cultura afro-brasileira, da educação popular, da preservação da memória ancestral e do acolhimento espiritual de comunidades em Feira de Santana e região.

Nascida em São Gonçalo dos Campos e radicada em Feira de Santana, a sacerdotisa consolidou sua atuação religiosa e comunitária à frente do Terreiro de Umbanda Maria de Ogum de Ronda. A cerimônia marcou um reconhecimento formal da universidade aos saberes produzidos fora dos espaços acadêmicos tradicionais, especialmente no campo das religiões de matriz africana.

A sessão foi presidida pela reitora da Uefs, Amali Mussi, que associou a concessão do título ao cinquentenário da instituição e ao compromisso da universidade com políticas de inclusão, pluralidade e combate ao racismo religioso.

Segundo a reitora, a homenagem representou “um ato de reparação e combate ao racismo religioso”. Amali Mussi afirmou que a universidade, ao reconhecer a trajetória da sacerdotisa, reafirma que o saber acadêmico deve reverência à ancestralidade e que os conhecimentos dos terreiros integram o patrimônio cultural e intelectual da sociedade.

Mãe Maria Pequena de Ogum destaca caráter coletivo do título

Ao receber a distinção acadêmica, Mãe Maria Pequena de Ogum atribuiu à homenagem um sentido coletivo. Em seu pronunciamento, afirmou sentir “felicidade imensa” por ser acolhida pela instituição e ressaltou sua atuação como “professora espiritual”.

A homenageada declarou que permanece na luta para cuidar das pessoas, não apenas nas questões materiais, mas também no acolhimento espiritual necessário ao enfrentamento das dores da vida. A fala reforçou a dimensão comunitária de sua trajetória, marcada pelo vínculo entre espiritualidade, solidariedade, tradição e formação humana.

A vice-reitora da Uefs e vice-presidente do Consu, Rita Brêda, destacou que o título simboliza o reconhecimento dos saberes ancestrais e das histórias de povos historicamente marginalizados. Para ela, a academia se abre aos modos de ser e fazer vinculados às tradições religiosas e populares, sob a perspectiva da diversidade.

Proposta partiu do curso de Licenciatura em Música

A proposição da honraria foi apresentada pelo professor Jeanderson Santos, do curso de Licenciatura em Música da Uefs. A justificativa considerou a riqueza litúrgica, artística e cultural da unidade religiosa conduzida por Mãe Maria Pequena de Ogum.

De acordo com o docente, a concessão do título representa um movimento de abertura da universidade para outras formas de produção de conhecimento. Ele afirmou que a trajetória da homenageada, construída ao longo de meio século, une música, tradição, ancestralidade e atuação comunitária.

A avaliação apresentada no processo de concessão amplia o entendimento de que a cultura dos terreiros não se limita ao campo religioso. Ela envolve práticas educativas, preservação de memórias, transmissão oral de conhecimentos, expressões musicais, rituais, vínculos comunitários e formas próprias de organização social.

Cerimônia reuniu comunidade acadêmica e lideranças religiosas

A cerimônia realizada no Teatro da Uefs reuniu integrantes da comunidade acadêmica, lideranças religiosas, representantes políticos e membros da sociedade civil. A programação contou ainda com apresentação cultural da Orquestra Aguidavi do Jêje, reforçando a presença da música e da tradição afro-brasileira no ato solene.

O reconhecimento ocorreu no contexto das celebrações dos 50 anos da Uefs, período em que a universidade tem promovido atividades institucionais, acadêmicas e culturais voltadas à memória de sua trajetória e ao debate sobre seus compromissos futuros.

Ao inserir uma liderança religiosa de matriz africana no rol de homenageados com o título de Doutora Honoris Causa, a Uefs amplia o alcance simbólico da honraria e reafirma o papel social da universidade pública no reconhecimento de trajetórias historicamente situadas fora do cânone acadêmico formal.

Quinta concessão do título pela Uefs

A outorga à Mãe Maria Pequena de Ogum marca a quinta vez que a Uefs concede o título de Doutor Honoris Causa. A honraria já havia sido entregue aos professores Heron Sávio Sobral, em 1994, e Jairnilson Silva Paim, em 1997; ao escritor Antônio Torres, em 2018; e à liderança do Movimento Negro Unificado e da Frente Negra Feirense, Ivannide Rodrigues Santa Bárbara, em 2023.

A lista indica que a universidade tem reservado a distinção a personalidades com contribuição relevante para a educação, a cultura, a saúde pública, a literatura, o movimento negro e a vida social baiana. No caso de Mãe Maria Pequena de Ogum, o reconhecimento se concentra na preservação de saberes afro-brasileiros, na resistência cultural e na dimensão educativa dos terreiros.

Contexto institucional e cultural da homenagem

A concessão do título ocorre em um momento de crescente debate público sobre o reconhecimento de saberes tradicionais, a valorização das religiões de matriz africana e o enfrentamento ao racismo religioso. No ambiente universitário, a medida reforça a necessidade de diálogo entre a produção científica formal e os conhecimentos preservados por comunidades tradicionais.

A homenagem também possui relevância local. Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, tem forte presença de comunidades religiosas afro-brasileiras, cuja contribuição cultural nem sempre recebeu o devido reconhecimento institucional. A outorga, nesse sentido, projeta a trajetória de Mãe Maria Pequena de Ogum para além do espaço religioso, situando-a como referência pública de memória, cultura e formação comunitária.

A Uefs concedeu o título de Doutora Honoris Causa à Mãe Maria Pequena de Ogum, em cerimônia realizada no Teatro da instituição, em Feira de Santana, na quinta-feira (28/05/2026). A honraria reconhece mais de 50 anos de atuação da sacerdotisa na preservação da cultura afro-brasileira, na educação popular e no acolhimento comunitário, no contexto das celebrações dos 50 anos da universidade.
Mãe Maria Pequena de Ogum recebe o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Estadual de Feira de Santana, durante sessão do Conselho Universitário, no Teatro da Uefs, em Feira de Santana, na quinta-feira (28/05/2026).

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