O relatório da Prefeitura de Salvador, sob gestão do prefeito Bruno Reis (União Brasil) divulgado na segunda-feira (08/06/2026) revelou fragilidades na Atenção Primária à Saúde (APS) da capital baiana, com cobertura de apenas 66,6%, desempenho inferior ao registrado em capitais como Belo Horizonte, Recife e Fortaleza. O dado, associado à queda na oferta regular de medicamentos para doenças crônicas, à baixa cobertura de saúde bucal e ao número reduzido de agentes comunitários, reforça a pressão sobre a rede estadual de hospitais, policlínicas, maternidades, centros de referência e unidades de emergência, que recebeu mais de R$ 600 milhões em investimentos do Governo da Bahia nos últimos três anos apenas em Salvador.
Relatório aponta baixa cobertura da Atenção Primária em Salvador
O Plano Municipal de Saúde de Salvador, lançado em março de 2026, indica que a capital baiana mantém cobertura de 66,6% na Atenção Primária à Saúde, percentual considerado insuficiente diante da demanda populacional e da função estratégica da APS como porta de entrada do Sistema Único de Saúde. A atenção primária é responsável pelo primeiro atendimento, acompanhamento preventivo, diagnóstico inicial, tratamento de condições comuns e encaminhamento adequado para outros níveis de cuidado.
Segundo o documento, a baixa cobertura em Salvador contribui para o aumento da procura por serviços estaduais de média e alta complexidade. Na prática, pacientes que poderiam ser acompanhados em unidades básicas acabam buscando hospitais, policlínicas e unidades de emergência, ampliando filas, custos assistenciais e pressão operacional sobre a rede especializada.
A situação ganha relevância institucional porque Salvador é município em gestão plena do SUS desde 2006, condição que atribui ao Executivo municipal a responsabilidade de organizar, contratar e executar a rede local de saúde, da atenção básica aos serviços de maior complexidade, conforme as normas do Sistema Único de Saúde.
Governo da Bahia afirma ter investido mais de R$ 600 milhões na rede estadual da capital
Nos últimos três anos, o Governo da Bahia informou ter aplicado mais de R$ 600 milhões em 39 unidades de saúde localizadas em Salvador, incluindo hospitais, policlínicas, maternidades, centros de referência e unidades de emergência. Esses equipamentos integram a rede de Atenção Especializada estadual e passaram a absorver parte relevante da demanda não resolvida na base municipal.
Nesse período, as duas policlínicas estaduais da capital realizaram mais de 1,6 milhão de atendimentos. Também foram registradas 106 mil cirurgias eletivas e 278 mil atendimentos nas Feiras Saúde Mais Perto, iniciativas voltadas à ampliação do acesso da população a consultas, exames e procedimentos.
A rede estadual em Salvador conta, segundo os dados apresentados, com 16 hospitais estaduais, 6 maternidades, 2 UPAs, 3 unidades de emergência, 2 policlínicas e 21 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) sob gestão do Estado. Entre as unidades citadas estão o Hospital 2 de Julho, o Hospital Ortopédico, o Octávio Mangabeira e o Mont Serrat, apontado como o primeiro hospital de cuidados paliativos do Brasil.
Secretária estadual critica falhas na rede básica municipal
A secretária estadual da Saúde, Roberta Santana, afirmou que a deficiência da atenção básica em Salvador provoca transferência de responsabilidade para os demais níveis do sistema. Segundo ela, a cobertura de APS abaixo de 70%, a saúde bucal em torno de 40% e a cobertura de agentes comunitários inferior a 30% indicam falhas na estrutura municipal de atendimento preventivo.
Para a titular da Sesab, a ausência de acompanhamento regular nas unidades básicas faz com que quadros clínicos se agravem e cheguem aos hospitais estaduais em estágio mais complexo. A secretária sustenta que a APS deveria atuar como filtro, acompanhamento territorial e mecanismo de prevenção, reduzindo internações evitáveis e encaminhamentos desnecessários.
O relatório municipal também aponta que uma em cada cinco internações em Salvador poderia ser evitada com uma atenção primária eficaz. Esse dado reforça o impacto direto da rede básica sobre a sustentabilidade financeira e assistencial do SUS, especialmente em grandes centros urbanos.
Saúde bucal, agentes comunitários e medicamentos aparecem como pontos críticos
Entre os problemas destacados no documento estão a baixa cobertura de saúde bucal, a limitação no acesso a dentistas pelo SUS municipal e a queda na oferta regular de medicamentos para doenças crônicas. A insuficiência desses serviços afeta principalmente pacientes que dependem de acompanhamento contínuo para hipertensão, diabetes e outras condições que exigem monitoramento permanente.
O plano também registra fragilidades na atuação territorial dos agentes comunitários de saúde. A comparação com Recife, cidade com população menor que a de Salvador, mostra que a capital pernambucana possui número muito superior de agentes comunitários, o que sugere maior capilaridade na prevenção, no monitoramento familiar e na identificação precoce de riscos sanitários.
Outro ponto sensível envolve o controle da dengue. De acordo com o documento, Salvador inspeciona pouco mais da metade dos imóveis, enquanto a meta federal é de 80%. O relatório aponta ainda falhas no bloqueio de focos após a notificação de casos, o que agrava a vulnerabilidade da cidade diante de doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.
Comparação com Fortaleza expõe diferenças de estrutura
Roberta Santana também comparou Salvador a Fortaleza, cidade com população semelhante. Enquanto a capital cearense possui rede própria mais ampla, com dez hospitais e maternidades municipais, Salvador conta com dois hospitais municipais, que funcionam via regulação, além de uma maternidade inaugurada em março de 2026.
Na avaliação da secretária, a diferença revela escolhas administrativas distintas ao longo dos últimos anos. Capitais que ampliaram a rede própria municipal, segundo ela, reduziram a dependência de unidades estaduais e distribuíram melhor a demanda entre os níveis de atenção.
A comparação reforça uma questão estrutural: em cidades de grande porte, a ausência de uma rede municipal robusta tende a produzir efeito cascata. Quando a atenção primária não acompanha o crescimento populacional e a complexidade social do território, os hospitais passam a receber casos que poderiam ser resolvidos antes, com menor custo e maior efetividade.
Impacto sobre a população e sobre o SUS
A baixa cobertura da Atenção Primária em Salvador afeta diretamente a população que depende do SUS. Pacientes sem acompanhamento regular em postos de saúde enfrentam maior risco de agravamento de doenças, demora no diagnóstico e busca tardia por atendimento especializado.
Para a rede estadual, o efeito é a ampliação da demanda por consultas, exames, cirurgias, internações e atendimentos emergenciais. Isso compromete a capacidade de resposta do sistema, aumenta custos e dificulta o atendimento de casos que realmente dependem da alta complexidade.
O problema também tem dimensão administrativa. Embora o Governo da Bahia tenha ampliado investimentos em unidades estaduais, a pressão sobre hospitais e policlínicas tende a persistir se a rede municipal de atenção básica não alcançar maior cobertura, regularidade de serviços, presença territorial e abastecimento adequado de medicamentos.
Principais dados sobre a saúde pública em Salvador
Cobertura da Atenção Primária à Saúde em Salvador
- 66,6% de cobertura da Atenção Primária à Saúde — APS.
- Salvador aparece com desempenho inferior ao de Belo Horizonte, Recife e Fortaleza.
- 1 em cada 5 internações poderia ser evitada com uma atenção primária eficaz.
- A APS é responsabilidade do Executivo municipal.
- Salvador está em gestão plena do SUS desde 2006.
Recursos públicos e gestão municipal
- Salvador recebe R$ 709 milhões por ano do SUS.
- O recurso é destinado à organização da rede municipal de saúde.
- A Prefeitura é responsável por estruturar, contratar e executar a rede local.
- A gestão municipal deve atuar desde a atenção básica até a alta complexidade, conforme as regras do SUS.
Investimentos do Governo da Bahia em Salvador
- O Governo da Bahia investiu mais de R$ 600 milhões em Salvador nos últimos três anos.
- Os recursos foram aplicados em 39 unidades de saúde.
- As unidades incluem:
- hospitais;
- policlínicas;
- maternidades;
- centros de referência;
- unidades de emergência.
Produção da rede estadual
- Mais de 1,6 milhão de atendimentos nas duas policlínicas estaduais da capital.
- 106 mil cirurgias eletivas realizadas.
- 278 mil atendimentos nas Feiras Saúde Mais Perto.
- 21 CAPS sob gestão do Estado em Salvador.
Estrutura estadual em Salvador
- 16 hospitais estaduais.
- 6 maternidades.
- 2 UPAs.
- 3 unidades de emergência.
- 2 policlínicas.
- 21 Centros de Atenção Psicossocial — CAPS.
Pontos críticos da rede municipal
- Cobertura de saúde bucal em torno de 40%.
- Cobertura de agentes comunitários de saúde inferior a 30%.
- Mais da metade dos moradores não tem acesso a dentista pelo SUS municipal.
- Houve queda na oferta regular de medicamentos para doenças crônicas.
- A Prefeitura ficou quase 10 anos sem abrir um CAPS, segundo o relatório citado.
- O relatório aponta agravamento de indicadores de saúde mental.
Dengue e vigilância em saúde
- Salvador inspeciona pouco mais da metade dos imóveis contra a dengue.
- A meta federal de inspeção é de 80%.
- Em áreas de alto risco, a infestação do mosquito está 13 vezes acima do nível de alerta.
- 1 em cada 4 bloqueios de foco não foi executado após notificação de casos.
Comparação com Recife
- Recife tem população de cerca de 1,5 milhão de habitantes.
- Mesmo com população menor que Salvador, possui o triplo de agentes comunitários de saúde.
- O dado evidencia maior presença territorial da atenção básica na capital pernambucana.
Comparação com Fortaleza
- Fortaleza tem população estimada em 2,57 milhões de habitantes.
- A população é semelhante à de Salvador, citada com 2,56 milhões de habitantes.
- Fortaleza possui 10 hospitais e maternidades municipais.
- Salvador conta com 2 hospitais municipais e 1 maternidade inaugurada em março de 2026.
Mensagem central
- A baixa cobertura da APS em Salvador amplia a pressão sobre a rede estadual.
- A falta de atenção preventiva aumenta a procura por hospitais, policlínicas e unidades de emergência.
- O problema afeta o acesso da população a diagnóstico, tratamento, medicamentos e acompanhamento contínuo.
- A fragilidade da rede básica municipal tende a elevar custos, ampliar filas e sobrecarregar serviços de média e alta complexidade.










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