Francisco Pinto: trajetória do ex-prefeito marcou a política de Feira de Santana e a defesa da democracia no Brasil

Francisco José Pinto dos Santos, conhecido como Francisco Pinto ou Chico Pinto, consolidou-se como uma das figuras políticas de maior projeção nacional originárias de Feira de Santana. Sua trajetória pública foi marcada pela defesa da democracia, pela atuação parlamentar combativa e por enfrentamentos diretos ao regime militar. Ao longo da vida pública, o político feirense exerceu mandatos como vereador, prefeito e deputado federal, foi preso, teve o mandato cassado e passou a ser reconhecido como uma voz firme, que não recuou diante das pressões autoritárias.

Francisco Pinto nasceu em uma família tradicional de Feira de Santana. Era filho de José Pinto dos Santos, conhecido como coronel José Pinto, e de Ignácia Pinto dos Santos, chamada de dona Pomba, nome posteriormente homenageado pelo Hospital da Mulher.

Mesmo vindo de família abastada, Chico Pinto demonstrou desde cedo interesse por causas populares, comunitárias e políticas. Essa inclinação levou-o à formação em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), concluída em 1954, período em que já exercia atividade legislativa em Feira de Santana.

A formação jurídica, combinada à vivência política precoce, contribuiu para a consolidação de um perfil público voltado à defesa de direitos, à atuação institucional e ao enfrentamento de estruturas de poder que, mais tarde, marcariam sua trajetória em nível nacional.

Início da vida política como vereador

A entrada de Chico Pinto na política ocorreu antes mesmo da conclusão do curso superior. Em 1950, foi eleito vereador de Feira de Santana. Na época, estudava em Salvador e deslocava-se duas vezes por semana até o município para participar das sessões da Câmara Municipal.

A atividade legislativa, naquele período, não era remunerada. Entre 1950 e 1954, Francisco Pinto exerceu a função de secretário da Câmara, em um contexto no qual não havia cargo remunerado específico para essa atividade, como ocorreria posteriormente.

Sua atuação no Legislativo municipal repercutiu no meio político e entre os eleitores. O desempenho como vereador abriu espaço para sua participação em iniciativas de interesse direto da população feirense, especialmente em áreas como infraestrutura, saúde, energia e abastecimento.

Atuação pela implantação da água encanada em Feira de Santana

Em 1954, Francisco Pinto integrou uma comissão que se deslocou ao Rio de Janeiro para tratar com o então presidente Getúlio Dornelles Vargas da implantação do sistema de água encanada em Feira de Santana.

A obra havia sido prometida por Vargas durante visita à cidade, conhecida historicamente como Princesa do Sertão, no período de campanha eleitoral. A comissão foi formada por representantes de diferentes correntes políticas e profissionais do município.

Além de Francisco José Pinto dos Santos, então ligado ao PSD, integraram o grupo os médicos Wilson da Costa Falcão, da UDN, e Renato Santos Silva, do PR, além dos professores Hamilton Cohim, do PTB, e Antônio Manoel Araújo, também do PSD.

Com a morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, a promessa só foi efetivamente cumprida em 1955, no governo do presidente Juscelino Kubitschek.

Projetos e ações no Legislativo municipal

Como vereador, Francisco Pinto atuou em pautas relacionadas à expansão de serviços públicos em Feira de Santana. Entre as iniciativas atribuídas a ele estão a implantação de um posto médico e da rede de energia elétrica no distrito de Humildes.

Também foi de sua autoria o projeto que concedeu o título de Cidadão Feirense ao ministro Simões Filho, fundador do jornal A Tarde, que participou dos trabalhos do Governo Federal para a implantação dos sistemas de água e energia elétrica no município.

Essas ações ajudaram a projetar Chico Pinto como liderança política local com capacidade de articulação institucional e sensibilidade para demandas comunitárias, especialmente em um período em que Feira de Santana ampliava sua importância regional.

Eleição para prefeito e administração municipal

Francisco Pinto foi eleito prefeito de Feira de Santana pelo Partido Social Democrático (PSD) em 1962, após disputa histórica com o dentista João Durval Carneiro.

Ele assumiu o governo municipal em 7 de abril de 1963. Sua administração foi marcada pela presença de jovens lideranças estudantis e políticas que, posteriormente, integrariam uma nova geração da vida pública feirense.

Durante o curto período em que permaneceu no cargo, Chico Pinto impulsionou ações voltadas à educação, à participação popular e à ampliação de serviços urbanos. Entre as medidas citadas estão o início das obras do Ginásio Municipal, posteriormente concluídas por seu sucessor, Joselito Falcão de Amorim, além da construção de 10 prédios escolares.

Também são atribuídas à sua gestão a elaboração do primeiro Orçamento Participativo Municipal, a instalação da Farmácia do Povo, a criação de feiras volantes e a implantação de chafarizes e lavanderias em bairros.

Deposição em 1964 e prisão em Salvador

Apesar da avaliação positiva de sua administração, Francisco Pinto foi deposto do cargo em 1964, no contexto da tomada de poder pelos militares no Brasil.

Após a deposição, foi recolhido ao Quartel da Polícia Militar, no bairro do Barbalho, em Salvador, onde permaneceu preso por cerca de 50 dias.

O episódio marcou um dos principais pontos de ruptura de sua trajetória política. A perda do governo municipal não significou, contudo, o encerramento de sua atuação pública. Ao contrário, Chico Pinto manteve sua posição crítica ao regime militar e ampliou sua presença no debate político nacional.

Chegada à Câmara dos Deputados

Em 1970, Francisco Pinto foi eleito deputado federal. Em Brasília, manteve postura de oposição ao regime militar e passou a ser reconhecido por discursos firmes em defesa da redemocratização do país.

Sua atuação parlamentar consolidou a imagem de um político que não alterava o tom diante das pressões institucionais. A defesa de um Brasil livre do regime militar tornou-se um dos eixos centrais de sua atuação no Congresso Nacional.

Discurso contra Pinochet, prisão e cassação do mandato

O episódio de maior repercussão nacional ocorreu em 1974, após discurso de Francisco Pinto no Congresso Nacional contra a presença do general Augusto Pinochet, presidente do Chile, na posse do presidente brasileiro Ernesto Geisel.

A manifestação resultou em sua prisão, determinada pelo Supremo Tribunal Federal, e na posterior perda do mandato por decisão da Mesa da Câmara Federal. Chico Pinto permaneceu preso por seis meses no quartel do Primeiro Batalhão da Polícia Militar, em Brasília.

O caso tornou-se símbolo da tensão entre parlamentares oposicionistas e o aparato institucional do regime militar. A cassação de Francisco Pinto expôs os limites impostos à atividade parlamentar e à liberdade de expressão política no período.

Entrevista à Rádio Cultura e cassação da emissora

Em 12 de julho de 1974, Francisco Pinto concedeu entrevista ao radialista Lucílio Miranda Bastos, na qual repetiu declarações feitas em Brasília sobre Augusto Pinochet.

A entrevista foi levada ao ar no dia seguinte pelo programa jornalístico O Grande Informativo Matinal, da Rádio Cultura de Feira de Santana, identificada como ZYN–24.

O episódio teve consequências diretas para a emissora. Antes de sua retirada definitiva do ar, a rádio foi notificada pelo Dentel em 5 de agosto de 1974 e sofreu suspensão de transmissões por 15 dias.

Fundada em 1950 e então liderada pelo empresário e político Oscar Marques, a Rádio Cultura foi retirada do ar às 10h52 de 18 de março de 1975, por ordem do general Osvaldo Colares. A emissora voltou a operar apenas em 26 de julho de 1985.

Retorno à Câmara e maior votação na Bahia

Depois da prisão e da absolvição pelo governo do general Ernesto Geisel, Francisco Pinto retornou à Câmara dos Deputados. Em 1978, foi eleito deputado federal com a maior votação da Bahia, resultado que reforçou sua projeção política e seu prestígio junto ao eleitorado.

O retorno ao Congresso simbolizou a continuidade de uma carreira que resistiu à deposição, à prisão e à cassação. Para seus apoiadores, Chico Pinto representava uma liderança política associada à resistência democrática e à defesa das liberdades públicas.

Últimos anos e morte

Na década de 1990, Francisco Pinto passou a morar em Brasília, mas continuou visitando Feira de Santana periodicamente. Mesmo afastado da política direta, manteve-se como referência e consultor experiente para lideranças e interlocutores do meio político.

Francisco José Pinto dos Santos morreu em Salvador, aos 77 anos, em 19 de fevereiro de 2008.

Sua trajetória permanece vinculada à história política de Feira de Santana, à resistência democrática durante o regime militar e à memória de uma geração de políticos que enfrentou custos pessoais e institucionais por suas posições públicas.

*Com informações do texto publicado na terça-feira (26/05/2026), na coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto.


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