Muito antes de a BR-324 se tornar a principal ligação terrestre entre Feira de Santana e Salvador, viajar entre as duas cidades exigia planejamento, paciência e disposição. Em sua coluna Feira em História, publicada na quinta-feira (28/05/2026), o jornalista Zadir Marques Porto resgata uma época em que uma pergunta era comum entre os viajantes: “Vai de marinete ou de Motriz?”.
A narrativa recupera um capítulo importante da história da mobilidade baiana e ajuda a compreender como a evolução dos transportes influenciou o desenvolvimento econômico, urbano e social de Feira de Santana, município que se consolidou ao longo do século XX como o principal entroncamento rodoviário do interior da Bahia.
Mais do que uma lembrança nostálgica, o relato revela como as conexões entre o interior e a capital moldaram hábitos, relações comerciais e a própria identidade regional.
Viagem entre Feira de Santana e Salvador era uma experiência marcante
Atualmente, o percurso entre Feira de Santana e Salvador possui cerca de 110 quilômetros e pode ser realizado em aproximadamente uma hora e meia, dependendo das condições do trânsito na BR-324, uma das rodovias mais movimentadas do Nordeste.
Entretanto, nas décadas de 1940 e 1950, a realidade era bastante diferente. As estradas eram mais estreitas, muitas vezes sem pavimentação adequada, e os veículos enfrentavam limitações mecânicas que tornavam as viagens mais longas e imprevisíveis.
Em condições consideradas normais para a época, o deslocamento podia durar entre três e quatro horas. Em períodos de chuva, atoleiros, problemas mecânicos ou interrupções na estrada, o percurso poderia se prolongar significativamente.
Viajar não era apenas uma necessidade prática. O deslocamento representava um acontecimento social. Muitas famílias se preparavam com antecedência, organizavam bagagens, escolhiam roupas adequadas e encaravam o trajeto como parte importante da experiência.
A formalidade era uma característica marcante daquele período. Homens frequentemente viajavam de terno e chapéu, enquanto mulheres utilizavam vestidos cuidadosamente escolhidos para a ocasião. Ir à capital significava participar de compromissos comerciais, resolver questões administrativas, buscar atendimento médico especializado ou realizar compras que não estavam disponíveis no interior.
As marinetes conectavam o interior à capital antes da rodovia moderna
Antes da implantação e modernização da BR-324, as marinetes desempenhavam papel fundamental na integração regional.
O termo “marinete” era amplamente utilizado no Brasil para designar veículos coletivos de transporte rodoviário que antecederam os modernos ônibus intermunicipais. Em muitos casos, eram veículos adaptados para transportar passageiros em estradas ainda precárias.
Na Bahia, essas marinetes foram essenciais para conectar cidades do interior aos principais centros urbanos, especialmente Salvador.
Segundo o relato recuperado por Zadir Marques Porto, o percurso entre Feira de Santana e Salvador passava por localidades como Lapa, atual município de Amélia Rodrigues, emancipado em 1961, e por São Sebastião do Passé, onde ocorria uma parada tradicional para alimentação dos passageiros.
Essas interrupções faziam parte da rotina da viagem. Dependendo do horário de saída, os viajantes aproveitavam para tomar café, merendar, almoçar ou jantar.
Ao contrário da lógica contemporânea, em que o objetivo principal é reduzir o tempo de deslocamento, a viagem era vivida em seu percurso. Os passageiros observavam a paisagem rural, marcada por fazendas, áreas de cultivo, rebanhos e pequenas comunidades espalhadas ao longo do caminho.
Era uma Bahia predominantemente agrícola, anterior ao intenso processo de industrialização e urbanização que transformaria a Região Metropolitana de Salvador e o entorno de Feira de Santana a partir das décadas de 1960 e 1970.
Salvador era conhecida simplesmente como “Bahia”
Um aspecto curioso destacado pela coluna é o uso popular da palavra “Bahia” para se referir à cidade de Salvador.
A expressão era comum entre moradores do interior e refletia a enorme centralidade política, econômica e cultural da capital. Fundada em 1549, Salvador foi a primeira capital do Brasil e permaneceu como centro administrativo da colônia até 1763.
Mesmo após perder o status de capital do país, Salvador continuou concentrando os principais órgãos públicos, instituições de ensino, hospitais especializados e centros comerciais do estado.
Para muitos habitantes do interior, “ir à Bahia” significava, na prática, viajar para Salvador.
Ao chegar à capital, os visitantes encontravam uma cidade muito diferente de Feira de Santana. Enquanto a Cidade Princesa possuía relevo relativamente plano, Salvador apresentava uma geografia marcada por ladeiras, escadarias e bairros distribuídos entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa.
A movimentada Baixa dos Sapateiros, oficialmente Rua J. J. Seabra, era um dos principais destinos dos consumidores populares. Já a tradicional Rua Chile, inaugurada ainda no século XIX e considerada durante décadas o endereço mais elegante da cidade, atraía comerciantes, empresários e famílias de maior poder aquisitivo.
Praça da Bandeira era referência para embarques em Feira de Santana
Em Feira de Santana, os embarques das marinetes aconteciam principalmente na Praça da Bandeira e em pontos localizados na Avenida Senhor dos Passos, nas proximidades da Prefeitura Municipal.
Esses espaços funcionavam como verdadeiros terminais informais de passageiros em uma época anterior à estruturação dos modernos sistemas rodoviários.
A movimentação nesses locais era intensa. Comerciantes, estudantes, trabalhadores e famílias utilizavam os serviços para manter contato com Salvador e outras cidades da Bahia.
A importância desses pontos demonstra como o transporte coletivo esteve diretamente ligado ao crescimento urbano de Feira de Santana, cidade que historicamente se desenvolveu como centro de circulação de pessoas e mercadorias desde os tempos das feiras de gado do século XIX.
O Motriz representava a modernidade ferroviária
Além das marinetes, os passageiros podiam optar pelo Motriz, um trem expresso destinado ao transporte de passageiros.
A ferrovia teve papel decisivo na integração econômica da Bahia desde o final do século XIX. A expansão das linhas férreas permitiu o escoamento da produção agrícola, fortaleceu o comércio regional e aproximou o interior do litoral.
A chegada dos trilhos a Feira de Santana ocorreu em 1876, quando a cidade passou a integrar a malha da então Estrada de Ferro Central da Bahia, um marco importante para o desenvolvimento econômico local.
Em Feira de Santana, o embarque ferroviário ocorria na estação localizada na área onde atualmente funciona o Feiraguai, nas proximidades da Praça Presidente Médici. Posteriormente, a cidade também passou a contar com a conhecida Estação Nova, inaugurada em 1927, que se tornou uma das principais referências ferroviárias do município.
O Motriz era considerado uma alternativa confortável para os padrões da época. Os vagões possuíam assentos organizados para passageiros e, em determinadas categorias, ofereciam serviços diferenciados, incluindo café e refeições durante o percurso.
A viagem ferroviária seguia por diversas localidades até alcançar Salvador, atravessando regiões que hoje fazem parte da expansão urbana da capital e de municípios vizinhos.
A origem popular do nome Tomba permanece na memória feirense
Entre as histórias preservadas pela tradição oral está a explicação popular para o nome do bairro Tomba, um dos mais conhecidos de Feira de Santana.
Segundo a narrativa reproduzida na coluna, o trem enfrentava um trecho de subida que provocava forte balanço dos vagões. Crianças que observavam a passagem da composição costumavam brincar dizendo: “Vai tombar, vai tombar”.
Com o passar do tempo, a expressão teria sido associada ao local, originando o nome do bairro.
Entretanto, historiadores e pesquisadores da memória local observam que não existe comprovação documental que confirme essa versão. Trata-se de uma explicação popular transmitida oralmente ao longo das gerações.
Por essa razão, a história deve ser compreendida como parte do patrimônio imaterial e da tradição oral feirense, e não como fato historicamente comprovado.
A chegada à Calçada era um acontecimento social
O destino final do Motriz em Salvador era a tradicional Estação da Calçada, inaugurada em 1860 e considerada um dos mais importantes terminais ferroviários da Bahia durante grande parte dos séculos XIX e XX.
A estação funcionava como porta de entrada para milhares de passageiros vindos do interior.
Naquele período, a chegada de autoridades, políticos, empresários ou personalidades frequentemente mobilizava a população. Bandas de música, recepções oficiais e grande presença de público transformavam o desembarque em um evento social.
As estações ferroviárias eram muito mais do que pontos de embarque e desembarque. Representavam espaços de convivência, circulação de informações, encontros familiares e integração econômica.
O fim da ferrovia e a ascensão do transporte rodoviário
O encerramento gradual das operações ferroviárias de passageiros em Feira de Santana marcou uma profunda transformação na mobilidade regional.
Conforme registra a coluna, o transporte ferroviário de passageiros deixou de operar na cidade em 1964, período em que o Brasil já direcionava investimentos para a expansão da malha rodoviária.
Essa mudança acompanhou uma política nacional iniciada principalmente a partir da década de 1950, durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956–1961), quando a indústria automobilística recebeu forte incentivo e as rodovias passaram a ocupar posição estratégica no planejamento nacional.
Na Bahia, esse processo coincidiu com a consolidação da BR-324 como principal corredor de ligação entre Salvador e o interior.
A rodovia foi construída em etapas ao longo do século XX e passou a integrar o sistema rodoviário federal criado oficialmente em 1964. Com sucessivas ampliações e duplicações, tornou-se o principal eixo logístico do estado.
Feira de Santana fortaleceu sua posição estratégica como centro logístico, comercial e de serviços, tornando-se um dos principais polos urbanos do Nordeste.
A importância histórica da BR-324 para a integração da Bahia
A BR-324 não apenas reduziu o tempo de viagem entre Feira de Santana e Salvador. Ela redefiniu fluxos econômicos, ampliou a circulação de mercadorias e fortaleceu a integração regional.
A rodovia conecta Salvador a Feira de Santana e, por meio desta, a importantes corredores nacionais como as BRs 101, 116 e 242, transformando o município em um dos maiores entroncamentos rodoviários do país.
Com a modernização da infraestrutura rodoviária, atividades comerciais passaram a ocorrer com maior rapidez, empresas ampliaram suas áreas de atuação e o acesso a serviços especializados tornou-se mais eficiente.
Ao mesmo tempo, a predominância das rodovias contribuiu para o desaparecimento gradual de experiências que marcaram gerações de baianos, como as viagens de trem e os longos percursos realizados pelas marinetes.
Memória dos transportes ajuda a compreender a formação de Feira de Santana
O resgate promovido por Zadir Marques Porto possui relevância histórica porque preserva aspectos fundamentais da memória urbana feirense.
A história das marinetes, do Motriz, das antigas estações ferroviárias e dos pontos de embarque revela como a mobilidade influenciou diretamente o crescimento da cidade.
Feira de Santana nasceu e se desenvolveu como território de passagem. Desde os tempos das rotas de tropeiros dos séculos XVIII e XIX até a consolidação das rodovias federais no século XX, sua vocação sempre esteve ligada à circulação de pessoas, produtos e ideias.
Compreender como os deslocamentos aconteciam no passado ajuda a entender por que o município ocupa hoje posição estratégica na economia baiana.










Deixe um comentário