Número de países que obrigam jornalistas ao exílio dobra em cinco anos, aponta RSF

Neste sábado, 20/06/2026, data em que se assinala o Dia Mundial do Refugiado, a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgou dados que indicam agravamento global da perseguição a profissionais de imprensa: entre 2021 e 2025, o número de países de onde jornalistas foram obrigados a sair passou de 19 para 40, enquanto 1.468 profissionais, oriundos de mais de 60 países, receberam apoio da entidade após abandonarem seus locais de origem por medo de ameaças, prisão, violência ou morte.

Exílio de jornalistas cresce em meio a guerras, repressão e instabilidade política

O levantamento da RSF aponta que o deslocamento forçado de jornalistas deixou de ser fenômeno concentrado apenas em zonas de guerra. Embora conflitos armados permaneçam como causa relevante, a organização identifica também o avanço da repressão política, do assédio judicial, da censura institucional, das ameaças à segurança e da pressão exercida por organizações criminosas contra repórteres, editores, fotógrafos, comunicadores independentes e veículos críticos.

Segundo os dados divulgados, ao menos um jornalista foi levado ao exílio em 65 países no período analisado. Em 20 desses Estados, incluindo a Turquia, mais de dez profissionais foram obrigados a deixar o território nacional. O cenário revela uma deterioração progressiva das condições para o exercício da liberdade de imprensa em diferentes continentes.

A RSF informou ainda que, somente em 2025, acompanhou pelo menos 243 jornalistas em processos de exílio. O mapa elaborado pela organização indica os países de origem, os destinos de acolhimento e as principais rotas percorridas por profissionais forçados a abandonar suas redações, fontes, famílias e redes de trabalho.

Afeganistão se torna epicentro mundial do exílio de jornalistas

O Afeganistão aparece como o caso mais grave no levantamento. Desde a tomada de Cabul pelos talibãs, em 15 de agosto de 2021, 677 jornalistas afegãos deixaram o país com apoio da RSF. Esse número representa quase metade dos casos registrados no programa de assistência da organização nos últimos cinco anos.

A dispersão desses profissionais por 28 países é apresentada pela RSF como uma das maiores perdas recentes para o jornalismo independente. A saída em massa reduziu drasticamente a capacidade de produção de informação autônoma dentro do território afegão, especialmente em temas sensíveis como direitos humanos, condição das mulheres, atuação do regime talibã e segurança pública.

Além do Afeganistão, a organização cita a Rússia, com 160 jornalistas apoiados, e Myanmar, com 101 profissionais, entre os principais países de origem de comunicadores forçados ao exílio. Os números evidenciam que regimes autoritários, conflitos internos e golpes institucionais continuam produzindo efeitos diretos sobre a liberdade de imprensa.

Conflitos armados e crime organizado ampliam rotas de fuga

A RSF também relaciona o aumento dos deslocamentos forçados ao agravamento de crises de segurança em várias regiões. Na República Democrática do Congo, a retomada dos combates no leste do país abriu novas rotas de exílio. Em 2025, 21 jornalistas deixaram o território congolês com apoio da organização, principalmente em direção ao Burundi e a Uganda.

No Sahel, jornalistas fugiram de países como Mali, Chade, Nigéria, Guiné e Burkina Faso, buscando refúgio em destinos como o Senegal. A combinação de instabilidade política, presença de grupos armados, fragilidade estatal e repressão contra vozes críticas contribui para tornar a atividade jornalística cada vez mais arriscada.

Na América Latina, a RSF aponta preocupação com a pressão exercida por cartéis e estruturas criminosas sobre o jornalismo independente, além do aprofundamento de práticas autoritárias em países como El Salvador e Venezuela. Conforme a organização, desde 1º de janeiro de 2026, seis jornalistas foram mortos no México, na Colômbia e na Guatemala.

Turquia e Egito aparecem como refúgio e origem de novas pressões

O relatório destaca uma contradição relevante em países como Turquia e Egito. Ambos aparecem, simultaneamente, como locais de acolhimento para jornalistas que fogem de conflitos regionais e como Estados de onde profissionais locais também são pressionados a sair.

No caso turco, a RSF registra que o país recebe jornalistas provenientes de áreas como Afeganistão, Síria e Palestina. Desde 2021, pelo menos 46 jornalistas no exílio se instalaram na Turquia com acompanhamento da organização. Ao mesmo tempo, ao menos dez jornalistas turcos foram obrigados a deixar o país entre 2021 e 2025, número que a entidade considera possivelmente subestimado.

A Turquia ocupa o 163º lugar entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026 da RSF. Em 2025, o país estava na 159ª posição. A pontuação caiu de 29,40 para 27,94, sinalizando piora no ambiente político, jurídico, econômico, social e de segurança para o trabalho da imprensa.

Egito recebe jornalistas, mas permanece sob observação

No Egito, pelo menos 31 jornalistas, em sua maioria sudaneses e palestinos, encontraram refúgio com apoio da RSF desde 2021. A organização estima, porém, que o total de repórteres que fugiram dos combates no Sudão e buscaram abrigo no território egípcio possa ultrapassar 300 profissionais.

A situação evidencia que a condição de país de acolhimento não elimina a necessidade de avaliação crítica sobre o ambiente interno de liberdade de imprensa. Para jornalistas refugiados, a segurança física é apenas uma etapa inicial; a continuidade da atividade profissional depende de proteção legal, estabilidade documental, acesso a trabalho, segurança digital e garantias contra pressões transnacionais.

RSF cobra proteção efetiva aos jornalistas no exílio

A RSF afirma que o exílio não encerra o ciclo de vulnerabilidade enfrentado por jornalistas. Depois da saída forçada, muitos passam a lidar com ameaças de deportação, dificuldades administrativas, barreiras linguísticas, precariedade econômica, isolamento e formas de intimidação vindas de agentes estatais ou não estatais ligados ao país de origem.

A organização defende que os Estados adotem mecanismos de proteção mais eficazes, incluindo o respeito ao princípio de não devolução, concessão de vistos de emergência, autorização de residência permanente, acesso a programas de reinstalação e apoio para que profissionais de imprensa retomem suas atividades em segurança.

A RSF sustenta que proteger jornalistas no exílio é uma medida humanitária e, ao mesmo tempo, uma garantia institucional para o direito da sociedade à informação. Em contextos de guerra, autoritarismo e propaganda oficial, repórteres deslocados podem se tornar uma das poucas fontes capazes de acompanhar abusos de poder, violações de direitos e processos de desinformação.

RSF Alemanha apoiou 479 jornalistas entre 2021 e 2025

A seção alemã da RSF também teve participação expressiva no apoio a jornalistas deslocados. Entre 2021 e 2025, acompanhou 479 processos, sendo 209 profissionais provenientes da Rússia e 192 do Afeganistão.

Esses dados não foram incluídos no mapa global do exílio por ausência de informações precisas sobre as datas de partida dos jornalistas. A metodologia adotada pela organização considerou o ano do exílio, e não apenas o ano de chegada ao país de residência, para representar de forma mais fiel a situação nos locais de origem.


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