novos desdobramentos das investigações da Polícia Federal sobre o setor mineral ampliaram a dimensão institucional da crise envolvendo a Agência Nacional de Mineração (ANM), órgãos ambientais e agentes públicos em Minas Gerais, com o indiciamento, neste sábado (27/06/2026), do diretor-geral da autarquia, Mauro Henrique Moreira Sousa, e de outras 50 pessoas em apurações relacionadas às operações Rejeito e Parcours. Os casos investigam suspeitas de corrupção, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro, crimes ambientais, fraudes em licenças, exploração irregular de minério de ferro e favorecimento indevido de empresas que atuavam em áreas sensíveis, incluindo a Serra do Curral, cartão-postal de Belo Horizonte e território de relevância ambiental, histórica e urbana.
PF conclui inquéritos e aponta alcance da crise na regulação mineral
A conclusão dos inquéritos pela Polícia Federal representa novo estágio de uma apuração que, desde 2025, vem revelando suspeitas de captura de estruturas públicas responsáveis por autorizar, fiscalizar e controlar atividades minerárias. Segundo o conteúdo analisado, os relatórios atingem servidores, dirigentes da ANM, empresários, operadores políticos, consultores e pessoas ligadas a empreendimentos investigados por exploração mineral irregular.
Em um dos procedimentos, a PF indiciou o diretor-geral da ANM, Mauro Henrique Moreira Sousa, sob suspeita de advocacia administrativa, por suposto favorecimento de interesses privados dentro da agência. Também foi indiciado o diretor Caio Mário Trivellato Seabra Filho, alvo de suspeitas de corrupção no contexto da Operação Rejeito.
O indiciamento, é necessário registrar, não equivale a condenação. Trata-se de ato da autoridade policial ao final de uma investigação, cabendo ao Ministério Público avaliar eventual oferecimento de denúncia e ao Judiciário decidir sobre recebimento, instrução processual e responsabilização penal. Esse cuidado é essencial diante da gravidade dos fatos e da necessidade de preservar o contraditório e a ampla defesa.
Operação Rejeito apura esquema bilionário no setor de mineração
A Operação Rejeito foi deflagrada em 17/09/2025 pela Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), do Ministério Público Federal (MPF) e da Receita Federal, para investigar suposta organização criminosa voltada a crimes ambientais, corrupção e lavagem de dinheiro no setor mineral em Minas Gerais.
A operação incluiu 79 mandados de busca e apreensão, 22 mandados de prisão preventiva, afastamento de servidores públicos, bloqueio e sequestro de ativos no valor de R$ 1,5 bilhão e suspensão de atividades de pessoas jurídicas envolvidas. A investigação também apontou projetos vinculados ao grupo com potencial econômico superior a R$ 18 bilhões.
De acordo com a apuração, o grupo teria corrompido servidores de órgãos federais e estaduais de fiscalização ambiental e mineral para obter licenças ambientais e autorizações minerárias fraudulentas. Essas autorizações teriam sido utilizadas para explorar minério de ferro em larga escala, inclusive em áreas tombadas ou próximas de zonas de preservação, com risco de danos ambientais e sociais.
Ex-diretor da PF e diretor da ANM estão entre os alvos
Entre os nomes centrais da Operação Rejeito está Rodrigo de Melo Teixeira, ex-diretor da Polícia Federal na gestão do atual diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. Segundo a investigação, ele teria atuado como administrador oculto de uma empresa de mineração e mantido negócios com investigados do setor.
A PF aponta que Teixeira teria usado sua posição pública para favorecer interesses privados, incluindo tentativa de interferência em investigações da própria corporação que atingiam empresários ligados ao caso. O inquérito chegou ao nome do delegado a partir de sua relação com João Alberto Paixão Lages, ex-deputado estadual de Minas Gerais apontado como articulador político e institucional do grupo.
Outro alvo relevante é Caio Mário Trivellato Seabra Filho, diretor da ANM. Segundo a investigação, ele teria atuado em processo administrativo para favorecer uma das empresas investigadas, em troca de vantagem indevida. As suspeitas alcançam a própria estrutura decisória da agência, cuja função institucional é regular e fiscalizar o setor mineral.
Indicações políticas, doações eleitorais e respostas oficiais
O caso também produziu repercussão política porque dois presos na Operação Rejeito haviam sido indicados para cargos públicos vinculados à área de mineração e energia. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), indicou nomes para a ANM, para um comitê da Petrobras e para uma estatal ligada à sua pasta.
O conteúdo analisado registra que Silveira não é citado nas representações da Polícia Federal nem nas decisões judiciais sobre a operação. Em nota, o ministro afirmou que as indicações para cargos de direção em entidades vinculadas seguem rito legal, com avaliação e governança conduzidas por instâncias independentes antes das nomeações. A pasta também declarou que sua atribuição é formular políticas públicas para a gestão responsável dos recursos minerais.
A investigação também menciona que Silveira recebeu R$ 100 mil em doação eleitoral de João Alberto Lages na campanha ao Senado em 2022. Quando o tema veio a público anteriormente, o ministro afirmou que o valor havia sido destinado ao suplente de sua chapa. Como a prestação de contas é unificada em candidatura majoritária ao Senado, o dado permanece politicamente relevante, embora não configure, por si só, imputação criminal ao ministro.
Petrobras, SGB e ANM entram no centro da crise institucional
Rodrigo de Melo Teixeira também havia sido indicado para atuar como diretor administrativo do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM). A indicação, segundo o conteúdo analisado, foi feita no contexto do Ministério de Minas e Energia e aprovada pela Casa Civil.
A Petrobras informou que o delegado renunciou ao cargo que ocupava em comitê da estatal e declarou que não tem relação com os fatos investigados na Operação Rejeito. A empresa afirmou que os fatos apurados são alheios às suas operações e à atuação do comitê.
A presença de dirigentes e ex-dirigentes de órgãos estratégicos entre os investigados amplia a gravidade institucional do caso. A ANM tem função regulatória essencial em um setor de alto impacto econômico e ambiental; o SGB atua em levantamentos geológicos e informações técnicas; e a Petrobras, embora tenha negado relação com os fatos, aparece no episódio apenas pela passagem de um investigado por estrutura consultiva da estatal.
Parcours investiga exploração ilegal na Serra do Curral
A Operação Parcours, outro braço das investigações, apura irregularidades relacionadas à atuação da mineradora Empabra na Mina Corumi, localizada na Serra do Curral, em Belo Horizonte. A área é considerada sensível por sua relevância ambiental, histórica e paisagística.
Segundo a Polícia Federal, servidores da ANM teriam omitido informações relevantes sobre a exploração de minério pela empresa, permitindo a continuidade de atividades supostamente irregulares. A investigação menciona o ex-gerente da ANM em Minas Gerais, Leandro César Ferreira de Carvalho, e o servidor Claudinei Oliveira Cruz.
A PF identificou movimentações financeiras suspeitas de aproximadamente R$ 3 milhões nas contas de dois servidores e de familiares. No caso de Leandro César, a esposa teria recebido cerca de R$ 2 milhões em espécie entre 2023 e 2025. Em relação a Claudinei, a investigação aponta movimentação de R$ 1,1 milhão entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2023, além de depósitos fracionados na conta de sua esposa.
Defesas negam irregularidades
Leandro César negou ter favorecido a mineradora Empabra e afirmou que sua atuação sempre teria ocorrido dentro da legalidade e da boa-fé. Claudinei Oliveira Cruz também negou recebimento de valores de empresas do setor mineral, direta ou indiretamente, por meio de sua conta ou da conta de sua esposa.
A Empabra declarou desconhecer qualquer documento que demonstrasse movimentações financeiras entre funcionários públicos, seus familiares e a empresa ou pessoas relacionadas a ela. A mineradora também afirmou que as atividades na Mina Corumi foram executadas com autorização de órgãos competentes e reiterou compromisso com a recuperação ambiental e o fechamento definitivo do empreendimento.
Empresários citados na investigação também negaram envolvimento. Bruno Luciano Henriques afirmou, por meio de defesa, que, como sócio indireto da Empabra entre 2012 e 2017, não participou da gestão da companhia. Lucas Kallas declarou que seu nome teria sido indevidamente incluído em documentos da investigação e sustentou que deixou o quadro de investidores da Empabra em 2017.
PF aponta diálogos e suspeita de favorecimento dentro da ANM
No relatório da Operação Parcours, a Polícia Federal afirma ter encontrado diálogos nos quais o diretor-geral da ANM, Mauro Henrique Moreira Sousa, teria tratado com o empresário Luis Fernando Franceschini, ligado à Empabra, de processos de interesse da mineradora dentro da agência.
Um dos elementos citados pela investigação é a suposta antecipação de teor de ofício da empresa ao diretor-geral da ANM para avaliação informal. A PF também aponta pedido direto do empresário para que manifestação técnica da agência fosse emitida dentro de prazo específico, antes de reunião com a Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais.
Esses elementos sustentam a suspeita de favorecimento administrativo, mas ainda dependem de avaliação pelo Ministério Público e pelo Judiciário. A apuração policial descreve os fatos como indícios; eventual responsabilização dependerá de prova judicializada, manifestação das defesas e decisão competente.
Operação Pedra Turva mira fraudes em licitações da ANM
Além das operações Rejeito e Parcours, o conteúdo analisado registra a Operação Pedra Turva, deflagrada pela Polícia Federal em 29/01/2026. A ação teve como objetivo desarticular grupo suspeito de fraudar procedimentos licitatórios e leilões conduzidos pela ANM.
A operação mobilizou cerca de 60 policiais federais para cumprir 15 mandados de busca e apreensão, além de medidas de constrição patrimonial. As ordens judiciais foram cumpridas no Distrito Federal, em Goiás, Minas Gerais e Pará.
Segundo a PF, o grupo teria explorado vulnerabilidades do sistema de oferta pública e leilão eletrônico da ANM, obtendo acesso indevido e antecipado a lances de concorrentes. A investigação também identificou uso de empresas de fachada para simular competitividade e interposição de pessoas jurídicas para arrematar áreas em favor de terceiros.
Dados centrais das investigações
Os principais dados reunidos no caso indicam a amplitude das apurações:
- R$ 1,5 bilhão em bloqueio de ativos na Operação Rejeito;
- R$ 18 bilhões em potencial econômico de projetos ligados ao grupo investigado;
- 79 mandados de busca e apreensão na Operação Rejeito;
- 22 mandados de prisão preventiva na fase inicial da Rejeito;
- R$ 3 milhões em movimentações suspeitas atribuídas a servidores da ANM e familiares;
- 15 mandados de busca e apreensão na Operação Pedra Turva;
- atuação investigada em áreas de alto valor ambiental e histórico, como a Serra do Curral.
O conjunto das operações revela não apenas suspeitas criminais individualizadas, mas um possível padrão de vulnerabilidade institucional na regulação mineral. As apurações alcançam autorizações ambientais, licenças minerárias, leilões eletrônicos, relações empresariais, circulação de dinheiro em espécie, indicações públicas e estruturas administrativas responsáveis pela fiscalização.
Interesse público e impactos ambientais
A relevância pública do caso ultrapassa o campo penal. A mineração é atividade econômica estratégica, mas de risco elevado quando combinada a fragilidades regulatórias, captura institucional e fiscalização insuficiente. Em Minas Gerais, a memória recente de desastres ambientais reforça a necessidade de controle rigoroso sobre autorizações, barragens, pilhas de rejeito, planos de fechamento de mina e exploração em áreas protegidas.
A Serra do Curral, citada nas investigações, não é apenas uma área de interesse econômico. Trata-se de patrimônio ambiental, paisagístico e histórico ligado à identidade de Belo Horizonte. A suspeita de uso de atividades de recuperação ambiental como pretexto para continuidade de extração mineral irregular agrava o quadro, pois subverte um instrumento de reparação em mecanismo potencial de exploração.
O caso também impõe debate sobre a governança da ANM. Uma agência reguladora só cumpre sua função quando atua com independência técnica, transparência, rastreabilidade decisória e blindagem contra interesses privados indevidos. Quando seus próprios dirigentes e servidores são investigados por suposto favorecimento, o dano institucional atinge a credibilidade do processo regulatório.
Crise regulatória, captura institucional e necessidade de resposta pública
As investigações sobre a ANM, a Serra do Curral e o setor mineral em Minas Gerais expõem uma tensão clássica do Estado brasileiro: a distância entre a existência formal de normas ambientais e minerárias e a capacidade real de impedir sua captura por interesses econômicos e políticos. O caso sugere, ainda sob apuração, que autorizações técnicas, licenças, guias de utilização e leilões podem ter sido instrumentalizados para permitir exploração irregular de bens públicos e áreas protegidas.
A conclusão jornalística possível, neste momento, deve ser firme, mas juridicamente cautelosa. Há dados objetivos relevantes — mandados judiciais, bloqueio bilionário, indiciamentos, prisões, movimentações financeiras suspeitas e manifestações oficiais —, mas também há pontos que dependem de denúncia do Ministério Público, decisão judicial e exame contraditório das provas. A gravidade institucional não autoriza condenações antecipadas, mas exige transparência, responsabilização e controle público.
Os próximos desdobramentos dependerão da atuação do Ministério Público Federal, da Justiça Federal, do Supremo Tribunal Federal, quando houver autoridade com foro ou conexão processual, da ANM, da CGU, da Polícia Federal e dos órgãos ambientais. O impacto potencial do caso envolve a credibilidade da regulação mineral, a proteção de áreas sensíveis, a segurança jurídica de empreendimentos legítimos e a preservação do patrimônio ambiental de Minas Gerais.
*Com informações do Estadão.









Deixe um comentário