Polícia Federal rejeita segunda delação de Daniel Vorcaro e amplia pressão sobre investigação do Banco Master

A Polícia Federal rejeitou, na quinta-feira (11/06/2026), a segunda proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em Brasília no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação que apura supostas fraudes no sistema financeiro nacional, operações envolvendo carteiras de crédito, relações entre o Master e o Banco de Brasília (BRB) e possíveis crimes de gestão fraudulenta, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

PF comunica decisão ao STF e PGR mantém análise da proposta

A decisão da Polícia Federal foi comunicada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator das investigações. A Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda analisa a proposta de colaboração apresentada pela defesa do banqueiro, o que mantém aberta a possibilidade de novos desdobramentos jurídicos.

As razões formais da nova negativa permanecem sob sigilo. No entanto, a primeira rejeição, ocorrida em maio de 2026, já havia indicado resistência dos investigadores ao conteúdo apresentado por Vorcaro. Na ocasião, a PF concluiu que a proposta não trazia novidades relevantes em relação ao material apreendido e que o banqueiro não havia assumido a prática de crimes.

Informações publicadas pela imprensa também indicam que a segunda proposta teria enfrentado o mesmo obstáculo: a falta de elementos novos, provas de corroboração e indicação consistente de crimes atribuídos a terceiros. Esse ponto é decisivo em acordos de colaboração, pois a delação premiada exige informações úteis, verificáveis e capazes de ampliar a investigação.

Operação Compliance Zero começou em novembro de 2025

A Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal em 18/11/2025, com o objetivo de investigar crimes praticados contra o Sistema Financeiro Nacional. A apuração teve origem em 2024, após requisição do Ministério Público Federal (MPF), diante de suspeitas sobre a possível fabricação de carteiras de crédito insubsistentes por instituição financeira.

Na primeira fase, foram cumpridos mandados de prisão e de busca em unidades da Federação como Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia. A investigação apontava que títulos de crédito teriam sido vendidos a outro banco e, após fiscalização do Banco Central, substituídos por outros ativos sem avaliação técnica adequada.

Desde então, a operação passou a reunir diferentes frentes: fraudes financeiras, atuação de executivos bancários, eventual participação de agentes públicos, suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e mecanismos de intimidação atribuídos a grupos ligados ao núcleo do Banco Master.

Banco Master foi liquidado pelo Banco Central

O caso ganhou nova dimensão institucional quando o Banco Central decretou, em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial do Banco Master. A medida aprofundou a crise envolvendo o conglomerado financeiro controlado por Daniel Vorcaro e expôs riscos regulatórios relevantes para o mercado bancário brasileiro.

O Master havia crescido rapidamente com a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade acima da média de mercado. Segundo informações atribuídas às investigações e a relatórios do Banco Central, o modelo teria envolvido riscos excessivos, operações de baixa liquidez e estruturas financeiras que agravaram a deterioração da instituição.

A liquidação do Master também pressionou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e abriu discussão sobre os limites da supervisão bancária, a qualidade dos controles internos e o grau de exposição de investidores a instituições que oferecem retorno elevado em ambiente regulado.

Relação entre Banco Master e BRB está no centro da investigação

Um dos eixos mais sensíveis da Operação Compliance Zero é a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, banco público vinculado ao Governo do Distrito Federal. A operação levantou questionamentos sobre governança, avaliação de riscos, proteção do patrimônio público e atuação dos órgãos de controle.

A Polícia Federal investiga a venda de carteiras de crédito do Master ao BRB e a possível participação de executivos do banco público em operações suspeitas. Em abril de 2026, a quarta fase da operação avançou sobre o núcleo ligado ao BRB, com apuração de lavagem de dinheiro e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos.

O caso ultrapassa os limites de uma crise bancária privada. Ao envolver um banco estatal, a investigação adquire relevância administrativa e política, pois alcança decisões que podem afetar recursos públicos, estabilidade institucional e confiança no sistema financeiro.

Prisões, bloqueios e novas fases ampliaram o alcance do caso

Até abril de 2026, a Polícia Federal informou que a Operação Compliance Zero já havia resultado em 13 prisões, 96 mandados de busca e apreensão e medidas de bloqueio ou sequestro patrimonial que alcançavam até R$ 27,7 bilhões. O volume dos atos judiciais revela a extensão da investigação e a complexidade dos fatos apurados.

Daniel Vorcaro foi preso inicialmente em novembro de 2025, durante a primeira fase da operação. Depois, voltou a ser preso em 04/03/2026, na terceira fase, quando a apuração passou a incluir suspeitas relacionadas a ameaças, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.

Em 07/05/2026, a quinta fase mirou o núcleo político da investigação, incluindo buscas relacionadas ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). Em 14/05/2026, a sexta fase resultou na prisão de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e aprofundou suspeitas sobre grupos apontados como responsáveis por monitoramento, intimidação e obtenção ilegal de informações.

Delação enfrenta barreiras jurídicas e probatórias

A colaboração premiada é um instrumento de defesa previsto em lei, mas sua eficácia depende da entrega de elementos concretos. Para ser homologada, a proposta precisa demonstrar utilidade, voluntariedade, capacidade de produzir provas e relevância para a responsabilização de outros envolvidos.

No caso de Daniel Vorcaro, a resistência da Polícia Federal indica que os investigadores consideram insuficiente o material apresentado até o momento. A dificuldade central parece estar na comprovação das declarações, especialmente porque o banqueiro está preso e teria acesso limitado a documentos capazes de sustentar suas narrativas.

O ministro André Mendonça já afirmou, em maio de 2026, que uma colaboração premiada deve ser séria e efetiva. A declaração reforça a posição institucional de que uma delação não pode se limitar a relatos genéricos, acusações sem lastro ou versões incapazes de produzir avanço real nas investigações.

STF e PGR assumem papel decisivo

A decisão da Polícia Federal não encerra, por si só, a discussão sobre a colaboração de Daniel Vorcaro. A PGR ainda pode avaliar o material de forma autônoma e, se entender que há utilidade jurídica, negociar cláusulas de eventual acordo.

Mesmo nessa hipótese, a palavra final caberá ao STF, por meio do ministro André Mendonça, responsável por homologar ou rejeitar eventual delação. Pela legislação, o relator não participa da fase de negociação, mas deve controlar a legalidade, a voluntariedade e a regularidade do acordo.

A tramitação no Supremo amplia o peso institucional do caso. A investigação envolve sistema financeiro, agentes públicos, personagens políticos e possíveis conexões com estruturas de poder, o que exige rigor técnico e controle judicial estrito.

Impacto institucional vai além de Daniel Vorcaro

A segunda rejeição da proposta de delação não deve ser interpretada apenas como revés da defesa de Daniel Vorcaro. O episódio também revela uma disputa sobre a qualidade da prova, o alcance das informações oferecidas e a capacidade das instituições de investigar um caso financeiro de grande escala sem depender exclusivamente da colaboração de um investigado central.

A Operação Compliance Zero atinge temas estruturais: supervisão bancária, governança de bancos públicos, relações entre mercado financeiro e política, proteção de investidores e efetividade dos mecanismos de compliance. O nome da operação, nesse sentido, tornou-se expressão simbólica de uma crise em que controles formais teriam falhado diante de práticas financeiras agressivas e suspeitas de captura institucional.

Para o sistema financeiro, o caso reforça a necessidade de regulação prudencial rigorosa, fiscalização permanente e responsabilização clara de administradores, controladores e agentes públicos eventualmente envolvidos. Para a sociedade, a investigação interessa porque trata de confiança pública, segurança econômica e integridade institucional.

Linha do tempo do caso Banco Master e da Operação Compliance Zero

2024 — Investigações têm início após requisição do Ministério Público Federal, com foco em possíveis carteiras de crédito insubsistentes e operações suspeitas no sistema financeiro.

31/03/2025 — O Banco Central recebe documentos relacionados à tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB, operação que depois se tornaria um dos eixos centrais da investigação.

18/11/2025 — A Polícia Federal deflagra a 1ª fase da Operação Compliance Zero, com prisões e buscas em diferentes estados. Daniel Vorcaro é preso pela primeira vez.

18/11/2025 — O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, aprofundando a crise do conglomerado financeiro.

Novembro de 2025 — Executivos do BRB são afastados em razão das investigações sobre operações ligadas ao Banco Master.

21/01/2026 — O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da Will Financeira, instituição controlada pelo conglomerado Master.

04/03/2026 — Daniel Vorcaro volta a ser preso na 3ª fase da Operação Compliance Zero, que apura novas suspeitas, incluindo corrupção, lavagem de dinheiro, ameaças e invasão de dispositivos informáticos.

16/04/2026 — A PF deflagra a 4ª fase da operação, com foco em suposto esquema de lavagem de dinheiro e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos ligados ao caso BRB-Master.

05/05/2026 — A defesa de Daniel Vorcaro entrega proposta de delação premiada à PGR e à Polícia Federal.

07/05/2026 — O ministro André Mendonça afirma que uma colaboração premiada precisa ser séria e efetiva e informa que ainda não havia tido acesso ao teor da proposta.

07/05/2026 — A PF deflagra a 5ª fase da Operação Compliance Zero, com medidas envolvendo o senador Ciro Nogueira e suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

14/05/2026 — A PF deflagra a 6ª fase da operação e prende Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, em investigação sobre supostos grupos de intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões informáticas.

18/05/2026 — Daniel Vorcaro é transferido para a carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, com regras mais restritas de visita.

21/05/2026 — A Polícia Federal rejeita a primeira proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, alegando insuficiência de elementos novos e ausência de admissão de crimes.

01/06/2026 — A defesa apresenta nova versão da proposta de colaboração, segundo informações publicadas pela imprensa.

11/06/2026 — A Polícia Federal rejeita a segunda proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro e comunica a decisão ao ministro André Mendonça, do STF. A PGR segue analisando o material.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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